A Força Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), entidade governamental americana que reúne especialistas em diversas áreas e que avalia sistematicamente a eficiência dos exames preventivos, publicou, em novembro, novas diretrizes para o rastreamento do câncer de mama. Essas novas orientações incluem:
- Não realizar mamografia de rotina em mulheres com idade entre 40 e 49 anos, exceto no caso de pacientes que pertencerem a algum grupo de maior risco para a doença – por exemplo, aquelas com familiares de primeiro grau acometidas pelo câncer, especialmente antes dos 60 anos de idade;
- A realização rotineira da mamografia passa a ser indicada a cada dois anos – não mais anualmente – e somente a partir dos 50 anos de idade;
- Não estimular o autoexame da mama, que era recomendada a partir dos 20 anos de idade.
De acordo com a própria instituição, essas modificações basearam-se em um estudo, envolvendo múltiplos centros diagnósticos, publicado no Annals of Internal Medicine em novembro deste ano. Nele, concluiu-se que o resultado do rastreamento bienal pode ser tão benéfico quanto aquele realizado todo ano. E, nas pacientes com menos de 50 anos de idade e sem fatores de risco adicionais, o exame pode resultar em transtornos maiores que os benefícios almejados.
É importante salientar que este mesmo estudo revelou que o rastreamento iniciado aos 40 anos, apesar dos incômodos que possa causar, determinou uma redução da mortalidade média de 19,5%. Trata-se de um dado que não pode ser considerado irrelevante.
Essas novas diretrizes têm sido alvo de muitas discussões, principalmente nos EUA, e suscitado manifestações bastante acaloradas dos principais órgãos ligados a grupos de medicina e diagnóstico, como, por exemplo, o Colégio Americano de Radiologia (ACR). De acordo com a Dra. Carol Lee, presidente da comissão de mamografia do ACR, a mamografia não é um teste perfeito, mas tem indiscutivelmente salvado vidas, incluindo mulheres com idade inferior a 50 anos.
Diante das intensas críticas dos especialistas, a secretária da saúde americana, Kathleen Sebelius, encerrou a polêmica. Em nota oficial esclareceu que a USPSTF não está destinada a estabelecer as políticas federais de saúde e que, diante de diversas considerações, os exames continuarão sendo realizados a partir dos 40 anos.
No Brasil o assunto também tem gerado controvérsias: para o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o exame deve ser feito a partir dos 50 anos, mas o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza a mamografia em todas as mulheres com mais de 40 anos. O exame clínico deve ser feito por um médico, o que não impede o autoexame, porém, este último não pode substituir a avaliação do especialista. As mulheres que têm casos de câncer na família, em especial de primeiro grau, como mãe e irmãs, têm sido orientadas a fazer exame clínico e mamografia anualmente, geralmente a partir dos 35 anos de idade.
A Sociedade Brasileira de Mastologia também apoia a realização da mamografia antes dos 50 anos de idade por acreditar que o método é o melhor disponível para o diagnóstico precoce do câncer de mama, o que se fundamenta em evidência científica.
Um estudo feito pelo Fleury a partir de exames realizados em mais de 50 mil mulheres mostrou que, dos diagnósticos que comprovaram a existência de um tumor maligno, cerca de 1% ocorreram antes dos 40 anos de idade; 18% entre 40 e 49 anos e 81% acima dos 50 anos. Apesar do aumento significativo da incidência após a menopausa, não podemos menosprezar a ocorrência da doença a partir dos 40 anos, o que nos faz concordar com a importância do método também nesta faixa etária.
» Quer receber informações sobre saúde da mulher em seu e-mail? Inscreva-se aqui!
* Giselle Mello é assessora médica em mamografia do Fleury