
"Estou com uma terrível dor de cabeça!" Quantas vezes por mês você não ouve essa expressão de uma colega de trabalho ou mesmo não faz essa queixa em alto e bom som? Não é por acaso. A enxaqueca, aquela cefaléia latejante acompanhada de náuseas e vômitos, afeta quase quatro vezes mais as mulheres que os homens. Um dos motivos aventados para explicar esse predomínio é bioquímico: segundo a neurologista Elza Márcia Yacubian, na enxaqueca há uma alteração de neurotransmissores cerebrais que também modifica o fluxo dos hormônios femininos.
A origem exata da enxaqueca – cujo nome mais adequado é migrânea, devido à popularização incorreta do termo enxaqueca para denominar todo e qualquer tipo de dor de cabeça – ainda não está totalmente esclarecida. “Mas sabemos que se trata de um fenômeno neurovascular causado por uma disfunção de neurotransmissores, os mediadores de informações entre um neurônio e outro”, assinala a médica.
Como se não bastassem as crises de migrânea, as mulheres com essa condição apresentam mais tensão pré-menstrual e alterações na menstruação do que as outras e, ainda por cima, sentem mais aquela dor de cabeça anterior à chegada do período menstrual – a chamada cefaléia menstrual. Rara após a menopausa, o fato é que, no sexo feminino, a migrânea impacta na qualidade de vida das mulheres.
Apesar de tanto incômodo, muitas mulheres que têm enxaqueca não procuram ajuda médica nem recebem diagnóstico e tratamento adequados. Calcula-se que o número de pessoas não assistidas ou mal-assistidas alcance 60% na população feminina – só para registrar, esse percentual chega a 70% entre os homens. Isso ocorre porque eles vão menos ao médico.
Segundo Elza Márcia, tal cenário se deve principalmente à carência de informação sobre o assunto: muita gente não sabe reconhecer os episódios como migrânea e vê as crises como eventos ocasionais. “Para completar, poucos diagnósticos são feitos por especialistas em dores de cabeça, os cefaliatras”, observa. Afinal, existem mais de 150 tipos de cefaléia. A enxaqueca, embora seja a mais comum, é apenas uma delas.
Felizmente as entidades médicas e as empresas de saúde procuram trabalhar para mudar o quadro de desinformação, tanto entre leigos quanto entre médicos, especialmente os que recebem mais queixas de dor de cabeça, como os clínicos gerais e os ginecologistas. “A migrânea surge na fase mais produtiva das pessoas, entre 20 e 30 anos, levando-as a prejuízos econômicos, sociais e afetivos”, justifica a neurologista.
Se esse argumento não basta, vale lembrar que o tratamento para controlar e prevenir as crises é simples, envolvendo, sobretudo, medicamentos prescritos individualmente e as tradicionais mudanças no estilo de vida – dormir bem, manter uma dieta equilibrada, praticar atividade física, evitar a ingestão de álcool e reduzir o nível de estresse.
Chega de sofrer!
Se você é freqüentemente surpreendida por dores de cabeça insuportáveis, vive tomando analgésicos ou, durante uma crise, chega a passar alguns dias incapacitada para realizar suas atividades cotidianas, procure um médico de sua confiança que possa ajudá-la a se livrar dessa encrenca ou encaminhá-la a um especialista em cefaléias. Para ajudar, repare nos sintomas que acompanham as crises e nas situações em que a dor aparece.
Gatilhos para a dor
De acordo com a neurologista Elza Márcia Yacubian, o cérebro dos indivíduos com migrânea é mais sensível a alguns fatores ambientais, que, na prática, funcionam como gatilhos para as crises. Preste atenção se sua dor de cabeça surge quando você:
• Dorme mal ou passa muitas horas dormindo;
• Permanece muitas horas em jejum;
• Toma bebidas alcoólicas;
• Come alimentos como chocolate, queijos e frutas cítricas;
• Sofre uma mudança brusca de temperatura;
• Fica emocionalmente abalada.
Sintomas clássicos
Em muitas pessoas, fenômenos neurológicos, denominados auras, precedem os episódios de migrânea. As mais comuns afetam a visão e se caracterizam pelo surgimento, diante dos olhos, de pontos e linhas brilhantes que começam pequenos e chegam a tomar boa parte do campo visual. São os chamados "espectros de fortificação", pois se assemelham às muralhas das cidades medievais. Duram de minutos a horas e marcam o início da crise, que, em geral, se apresenta com:
• Dor de cabeça latejante;
• Intolerância a luzes, ruídos e cheiros;
• Náuseas;
• Vômitos;
• Piora diante de movimentos bruscos, inclinação da cabeça, atividade física e esforço mental;
• Sensação de esgotamento ao fim da crise.
Fonte:
- Elza Márcia Yacubian, neurologista e assessora médica do setor de Eletroencefalografia do Fleury Medicina e Saúde