
Você já ouviu queixas sobre seus roncos? Como não escutamos nosso próprio ronco, é muito comum não darmos a devida atenção ao problema. De acordo com a neurologista Rosana Souza Cardoso Alves, responsável pelo setor de Polissonografia do Fleury, roncar alto pode ser sinal de que algo está errado com sua respiração no período do sono. O barulho é emitido por conta da passagem do ar por vias aéreas estreitadas, ou seja, roncar indica que as vias respiratórias não estão totalmente abertas.
As estatísticas apontam que de 10% a 30% dos adultos roncam. Para muitas dessas pessoas o ronco não chega a provocar nenhuma conseqüência à saúde, a não ser incômodo para quem está por perto. No entanto, para 5% da população adulta, sobretudo homens com mais de 40 anos e obesos, esse é o principal sintoma da apnéia do sono, um distúrbio que atrapalha a respiração durante o adormecimento, comprometendo a oxigenação do sangue.
Rosana explica que a forma mais comum de apnéia é a obstrutiva, na qual os músculos da garganta relaxam em demasia, obstruindo as vias aéreas e transformando o ato de respirar numa tarefa difícil e barulhenta. “Esse colapso das vias aéreas pode bloquear totalmente a respiração, ocorrendo em breves episódios que se repetem várias vezes ao longo do sono”, conta a neurologista.
Diante dessas pausas, o organismo procura tomar providências para restaurar a normalidade: a pressão para respirar aumenta, levando os músculos do diafragma e do tórax a trabalhar mais, e o sono é temporariamente interrompido para ativar a musculatura da garganta e desobstruir as vias aéreas. No entanto, cada vez que a respiração pára, o nível de oxigênio na circulação cai e o coração precisa se esforçar mais para fazer o sangue circular. Segundo Rosana, toda essa demanda pode elevar a pressão arterial e até causar batimentos cardíacos irregulares.
O fato é que roncar alto todas as noites é um real motivo para uma consulta médica. Devido ao aumento freqüente da pressão arterial, quem tem apnéia está mais sujeito às doenças cardiovasculares, como o infarto do miocárdio. Com os pequenos despertares que ocorrem durante a noite, os portadores desse distúrbio também sentem muita sonolência diurna, tendo um risco de acidentes quatro vezes maior que o de outras pessoas. “O impacto social da apnéia do sono também pode ser forte, com reflexos na vida familiar e na vida profissional do indivíduo”, observa a especialista do Fleury.
A origem da apnéia
Os músculos de todo o corpo ficam mais relaxados enquanto dormimos, incluindo os das vias aéreas. Isso não cria problemas para a maioria das pessoas, mas em algumas a musculatura da garganta relaxa demais, comprometendo a respiração. Em outras, não há o relaxamento anormal, porém as vias aéreas são mais estreitas – quem possui amígdalas aumentadas, por exemplo – e o ar tem menos espaço para passar.
Em alguns casos o problema está na região do cérebro que controla a respiração durante o sono. “O cérebro não envia as instruções necessárias para os músculos competentes”, esclarece a neurologista Rosana Alves. Vale lembrar que a ingestão de bebidas alcoólicas, de medicamentos para induzir o sono e de tranqüilizantes reduz o tônus muscular, favorecendo a obstrução das vias respiratórias.
Como o médico faz o diagnóstico
A ocorrência conjunta de ronco e sonolência diurna excessiva já faz pensar na possibilidade de apnéia. Contudo, a confirmação do diagnóstico depende de um exame que possa demonstrar os episódios de parada respiratória. O método mais adequado para essa finalidade é a polissonografia, que é feita enquanto a pessoa está dormindo e monitora vários parâmetros no período do sono: a atividade elétrica cerebral, a movimentação dos olhos, dos membros e dos músculos, a respiração, os batimentos cardíacos, o nível de oxigênio no sangue e até mesmo a intensidade do ronco. “Dessa forma, conseguimos identificar, quantificar e classificar os episódios de apnéia”, explica Rosana.
A busca de um sono silencioso
Uma vez diagnosticada, a apnéia do sono é tratada com terapias específicas, acompanhadas de mudanças no estilo de vida, como perder peso, evitar bebidas alcoólicas antes de adormecer e não ingerir medicamentos para induzir o sono. “Dormir de lado também ajuda a reduzir o ronco e as pausas respiratórias”, sublinha a neurologista.
Entre os recursos mais utilizados para o tratamento figuram os dispositivos de ventilação, conhecidos como equipamentos CPAP, que forçam a entrada de ar no nariz e nas vias aéreas, e os aparelhos intra-orais, que reposicionam o queixo e a língua. A cirurgia fica reservada às pessoas cuja apnéia decorre de alterações anatômicas, amígdalas aumentadas ou desvio do septo nasal, entre outras.
Fonte:
- Rosana Souza Cardoso Alves, neurologista e assessora médica do setor de Polissonografia do Fleury