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Hiperatividade ou apenas mau comportamento? 
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Publicado em: 26/03/2008   

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Como diferenciar o que é um transtorno de atenção de um traço de personalidade. Especialistas apontam caminhos para entender essa questão

A criança não consegue manter a atenção numa atividade pelo tempo suficiente para terminá-la. Distrai-se facilmente. Vive ansiosa. Na escola, o rendimento piora. Caso esse quadro permaneça por muito tempo, é hora de acender um sinal de alerta na cabeça de pais e professores. Pode ser apenas uma personalidade diferente das demais ou o resultado de uma criança normal submetida a situações de tensão, cansaço ou ambiente escolar inadequado. Mas a possibilidade de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) também deve ser aventada, pois se trata de um distúrbio freqüente, especialmente na infância.

Esse distúrbio é caracterizado por um conjunto de sintomas. “A hiperatividade é sempre o mais evidente”, explica a médica Umbertina Conti Reed, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Nestes casos, o desenvolvimento neuropsicomotor costuma ser normal, o que torna os pais pouco receptivos ao receberem avisos da pré-escola de que a criança não consegue permanecer sentada para aprender”, afirma.

A hiperatividade e o cérebro
O assunto é complexo e desperta o interesse de especialistas e pesquisadores. Dados recentes indicam que a hiperatividade pode ter bases genéticas. Sabe-se que nas crianças com TDAH há alteração em substâncias cerebrais, os chamados neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina. “Diversos genes que atuam no metabolismo da dopamina e da noradrenalina estão sendo estudados, e suas alterações, envolvidas com possível causa do TDAH”, diz a neurologista Elza Marcia Yacubian, do Fleury Medicina e Saúde.

Os sintomas do TDAH devem ser precocemente reconhecidos e tratados, porque, quando presentes na adolescência, aumentam o risco de transtornos sociais. Os melhores especialistas para avaliar essas crianças são os neurologistas e os psiquiatras infantis. O diagnóstico é baseado na história clínica e na observação do paciente, utilizando critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Americana. Para ele é necessário que os sintomas persistam por pelo menos seis meses, tenham se manifestado antes dos 7 anos de idade, atinjam no mínimo dois setores da atividade diária (casa, escola, trabalho, esporte/diversão) e não possam ser atribuídos a outro tipo de distúrbio mental específico.

Não existem exames complementares que confirmem o diagnóstico. Entretanto, têm sido descritas na literatura alterações na espessura do córtex cerebral, observadas na ressonância magnética, e descargas elétricas benignas, evidenciadas no eletroencefalograma. Nos casos com alteração no sono, o exame de polissonografia pode ser útil, permitindo a caracterização de alterações respiratórias e do padrão eletroencefalográfico durante o sono.

Os primeiros sinais de alerta
A hiperatividade aparece de várias formas. Na escola, a criança não consegue permanecer sentada e atenta aos deveres. Em casa, o mesmo ocorre até durante as refeições ou ao ver televisão. Além dessa hiperatividade motora, pode haver hiperatividade verbal: falar sem parar, mudar de assunto, emitir sons repetitivos em casa, no carro, na rua. “Há também impulsividade, que se manifesta, por exemplo, pela incapacidade de medir as conseqüências das próprias ações, de esperar a vez para falar ou agir, respondendo sem refletir, ou terminando rapidamente e sem cuidado a atividade proposta”, esclarece Umbertina. É comum crianças com TDAH terem poucos amigos e dificuldade em estabelecer relações sociais. “A ansiedade pode agravar este quadro. Quando ele persiste por ocasião da puberdade, origina baixa auto-estima, que, se não revertida, pode culminar em depressão”, alerta a médica.

O TDAH pode ocorrer isoladamente ou apresentar-se associado a vários outros distúrbios do comportamento, do sono e do aprendizado. Os distúrbios mais comuns são agressividade, tendências anti-sociais, depressão e ansiedade. Recentemente, tem sido relatada a associação de alterações no sono, presentes em até 80% das crianças com TDAH. “Os mais comuns são a queixa de movimentação excessiva, pernas inquietas, alterações respiratórias e insônia”, diz Rosana Cardoso Alves, neurologista e responsável pelos serviços de polissonografia do Fleury.

Estatísticas mundiais apontam para uma incidência do transtorno em 8% a 10% da população. No entanto, a popularização do TDAH tornou-o tão comum que, em escolas, é possível encontrar psicopedagogos e professores que já rotulam a criança, sem passar pela análise de um profissional. “Não creio que esteja havendo um exagero de diagnósticos corretos e menos ainda de tratamento medicamentoso. O que ocorre é uma tendência de englobar sob o diagnóstico de TDAH outros distúrbios do comportamento, da conduta e da aprendizagem, que embora possam coexistir com o TDAH, como já dissemos, sendo conhecidos como comorbidades, também podem ocorrer isoladamente”, declara Elza.

No entanto, para o psiquiatra infantil Francisco Assumpção, da Universidade de São Paulo (USP), a falta de equipes especializadas é um problema que ajuda na ocorrência de diagnósticos incorretos e até mesmo nas prescrições de medicamentos sem necessidade. “De uma hora para a outra, todo mundo começou a conhecer o TDAH. Com isso, várias crianças que não eram diagnosticadas passaram a se beneficiar. Mas diversas crianças que eram apenas mal-educadas começaram a tomar remédio e ser rotuladas, o que é muito ruim”, diz.

 

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