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A culpa é da testosterona 
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Publicado em: 05/07/2007  Atualizado em: 09/05/2008
Autor: Núcleo Educacional Científico

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A mulher sabe bem quando começa sua idade reprodutiva, com a primeira menstruação, e quando ela termina, com a menopausa. Já o homem não recebe um sinal tão claro. Quando a gente se dá conta, o menino já virou rapaz. Da mesma forma, nada marca seu período de transição na meia-idade. Mas ele também passa por um declínio na produção dos hormônios sexuais e pode apresentar, por volta dos 60 anos, sintomas semelhantes aos da mulher na menopausa, embora esse processo, conhecido como andropausa, possa começar a partir dos 40.

Não dá para dizer, contudo, que menopausa e andropausa sejam equivalentes. “A síndrome guarda algumas semelhanças clínicas e laboratoriais com a menopausa, mas, se a ovulação cessa na mulher, não ocorre o mesmo com a produção de espermatozóides no homem”, explica o médico do setor de Urologia do Fleury e urologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), Homero Guidi.

Assim, o nome técnico mais adequado para definir o processo é hipogonadismo masculino, síndrome que tem um quadro de sintomas característicos (veja quadro abaixo), acompanhado da queda nos níveis de testosterona. Esse hormônio é responsável pelos caracteres sexuais do homem, como o crescimento do pênis e dos testículos, e por sua virilidade, a exemplo da distribuição dos pêlos, do aumento da massa muscular e da mudança na voz.

Sexualidade
Se a testosterona cumpre esse papel, é claro que sua deficiência vai acabar mexendo com a sexualidade dos indivíduos. E quando se fala em questões sexuais, há uma série de outras variáveis relacionadas com a saúde física e mental do homem a investigar, de acordo com Guidi. “Percorremos desde doenças vasculares, diabetes e doenças neurológicas até problemas de relacionamento e existência de parceria saudável, que contribua para a continuidade da vida sexual do casal”, enumera.

Como tudo isso ocorre em uma época em que muitos questionam seus valores, realizações e objetivos, é natural que exista dificuldade em perceber que as mudanças são mais ligadas a fatores hormonais do que a condições externas ou psicológicas. Assim, em paralelo com o urologista, a ajuda psiquiátrica pode ser necessária para investigar, por exemplo, a depressão. “Embora existam sinais comuns à depressão e à andropausa, as manifestações depressivas têm sintomas próprios”, sustenta o psiquiatra-assistente do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, Sérgio Campanella, também psicoterapeuta e supervisor de Psicoterapia do Projeto
Sexualidade da USP.

A avaliação do psiquiatra igualmente colabora para excluir outras doenças que “imitam” o hipogonadismo e a depressão, e a diferenciar daquilo que os especialistas chamam de reação depressiva situacional: as mudanças que acontecem no corpo masculino depois de determinada idade podem ir contra o estereótipo de homem viril e causar no indivíduo uma insegurança, esclarece Campanella. E isso não é considerado depressão nem sintoma de andropausa.

O nome técnico para definir o processo é hipogonadismo masculino, síndrome que tem um quadro de sintomas característicos, acompanhado da queda nos níveis de testosterona

Faixa ampla
Afastadas as inúmeras possibilidades, a culpa vai ser mesmo do hormônio. O diagnóstico, porém, exige habilidade do médico, já que a faixa de normalidade da testosterona no corpo do homem é muito ampla – vai de 300 a 1.000 ng/dL. Se o resultado do exame der 750 ng/dL, vai ser normal; se der 500 ng/dL, também, diz o médico assessor da seção de Endocrinologia do Fleury e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Omar Magid Hauache. “O ideal seria que todo homem fizesse uma dosagem de testosterona antes de se iniciarem os sintomas de hipogonadismo, o que, na maioria dos homens, começa a aparecer a partir dos 40 anos, para que fosse possível comparar os resultados”, sugere. Como isso não acontece na prática, a avaliação clínica é decisiva para o diagnóstico.

Havendo mesmo um quadro característico, o próximo passo é descobrir a causa, pois, segundo o endocrinologista do Fleury, ela pode ser fisiológica, provocada pelo envelhecimento ou por problemas na glândula que controla a produção de testosterona pelos testículos – a hipófise – ou, então, ser decorrente de doenças do fígado e diabetes, entre outras, assim como do uso de alguns medicamentos e tratamentos, caso da quimioterapia. Uma vez confirmado o hipogonadismo, o médico vai investigar se o homem tem sinal verde para repor artificialmente a quantidade deficiente de testosterona. “Nenhuma reposição pode ser indicada a pacientes que não tenham sua próstata adequadamente avaliada”, afirma Guidi, categórico.

“O ideal seria que todo homem fizesse uma dosagem de testosterona antes de se iniciarem os sintomas de hipogonadismo, para que fosse possível comparar os resultados”

Omar Magid Hauache

O motivo do cuidado é que existe a possibilidade de o hormônio causar sintomas e conseqüências da andropausa e um aumento do volume prostático, fato que, segundo Hauache, representa uma preocupação para os homens com risco de adquirir câncer de próstata. Nesse grupo estão os que têm história familiar da doença, os que apresentam níveis anormais do antígeno prostático específico (PSA) - um exame de sangue que pode indicar a presença de alterações de natureza maligna na próstata -, e os que possuem um aumento prostático benigno, a hiperplasia prostática benigna. Esse efeito, aliás, faz com que o usuário da terapia de reposição hormonal precise visitar periodicamente o urologista para um cuidadoso acompanhamento clínico e laboratorial.

Sintomas e conseqüências da andropausa
• Fadiga física e mental • Preguiça mental e para atividades do cotidiano
• Falta de vigor, de vontade e de iniciativa para atividades físicas • Diminuição das massas óssea e muscular
• Indisposição sexual ou diminuição da libido • Aumento de peso e de flacidez
• Tendência para estados depressivos e melancólicos • Aumento das glândulas mamárias
• Distúrbios do sono, como excesso ou insônia • Redução da potência sexual ou mesmo disfunção erétil
• Sensação de envelhecimento acelerado • Queda na produção de espermatozóides;
• Irritabilidade fácil ou gratuita • Anemia

Panorama de evolução
Apesar de o uso da reposição hormonal no homem ter triplicado nos últimos dez anos – só nos Estados Unidos foram dois milhões de prescrições em 2002 –, sobretudo depois da criação de formas mais graduais de liberação da testosterona no corpo, como géis e adesivos, a terapia ainda é controversa. Isso tem feito os especialistas estudar mais e mais seus efeitos colaterais. “Além do aumento da próstata, outra conseqüência é a elevação do número de hemácias, as células vermelhas do sangue”, lembra Omar.

Em síntese, os especialistas recomendam cautela nesse capítulo. “Existe um conhecimento muito menor dos vários derivados da testosterona em comparação com o que se sabe sobre os hormônios sexuais femininos”, justifica Homero.

O desconhecimento, no entanto, pode trazer novas possibilidades. Afinal, há homens que passam por essa queda hormonal sem sentir nada que os incomode demais. “Os pesquisadores têm se debruçado sobre o assunto em busca de fatores que predisponham à manifestação plena da síndrome ou que, ao contrário, protejam determinado indivíduo de seus sintomas”, conta o urologista do Fleury. O panorama, portanto, é de evolução.

A testosterona dentro do laboratório
Quando um homem faz uma coleta de sangue para verificar os níveis totais de testosterona no organismo, qualquer resultado entre 300 e 1.000 ng/dL vai ser considerado normal. Mas é possível que, na solicitação médica, o urologista especifique que quer a dosagem de testosterona livre. Omar Magid Hauache, do Fleury, explica que isso é muito comum porque a testosterona pode ser encontrada em associação com uma substância, a proteína ligadora de hormônios sexuais, mas também circula no sangue de uma forma independente, que serve melhor ao diagnóstico do hipogonadismo. Contudo, os métodos laboratoriais hoje disponíveis para esse tipo de teste ainda são pouco efetivos. Por esse motivo, no Fleury, quando os médicos pedem um exame de testosterona livre “dosamos a testosterona total e a fração ligada às proteínas e fazemos o cálculo: o que sobra é a livre”, revela Hauache.

 

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