Com um estilo de vida cada vez mais cheio de atribulações, a população feminina corre mais riscos de adoecer do coração
Ninguém precisa de estatística para constatar que a mulher compete com o homem em condições de igualdade em muitas profissões que, há pouco tempo, eram predominantemente masculinas. A má notícia é que o grupo feminino até já ultrapassou o masculino em um ranking nada admirável. Levantamento do Ministério da Saúde em 2001 apontou que as doenças cardiovasculares foram a causa da morte em 123 mil mulheres no Brasil, contra 117 mil homens. Os dados oficiais não foram atualizados de lá para cá, mas os especialistas garantem que a (des)vantagem feminina se acentuou. Hoje as doenças do coração matam seis vezes mais as mulheres que o temido câncer de mama, alerta a Sociedade Brasileira de Cardiologia.
“A mulher agora vive o estresse de cuidar da profissão, da casa e dos filhos, precisa vencer preconceitos no mercado de trabalho, não tem tempo para praticar exercícios e ainda come na rua”, enumera a médica da Cardiologia do Fleury, dra. Paola Smanio. E todos esses problemas da vida cotidiana estão relacionados com os riscos das doenças do coração. Sem falar no cigarro. Dos 30 milhões de fumantes brasileiros, 11,2 milhões são do sexo feminino, segundo o Instituto Nacional do Câncer.
Assim, está mais do que evidente para os especialistas que a mulher precisa de check-up preventivo do coração a partir dos 30 anos. Já existe até um consenso internacional para a investigação do risco cardiovascular na população feminina, que foi elaborado em 2003 por um grupo de médicos do qual a dra. Paola fez parte. Se na idade fértil a consulta ao cardiologista pode ser esporádica, depois da menopausa esse acompanhamento tem de ser anual e levado tão a sério quanto a visita ao ginecologista.
Evidentemente, somente o acúmulo de funções não explica essa vulnerabilidade da mulher. De acordo com a dra. Paola, a mortalidade é grande no grupo feminino porque as doenças do coração atingem mulheres mais velhas, que já estão com a saúde abalada por outras enfermidades. Além disso, elas demoram mais para descobrir que têm um problema cardíaco. Com isso, quando o mal é detectado, costuma estar em um estágio avançado, tornando o prognóstico pior. Outra causa bombástica, mas em uma faixa etária menor, está na combinação de cigarro com anticoncepcional, que pode provocar um coágulo, o qual, ao obstruir os vasos sangüíneos, pode levar a conseqüências como trombose, infarto ou derrame.
Há que se considerar que a preocupação dos médicos com as doenças cardiovasculares na população feminina é recente. Afinal, até pouco tempo atrás isso era coisa de homem. “Hoje, se uma paciente chega a um pronto-socorro com dores no peito, ela passa por uma avaliação cardiológica, com eletrocardiograma e coleta de sangue para dosar os marcadores de infarto. Mas não era assim há 16 anos”, conta a dra. Paola, que também é médica-chefe da seção de Medicina Nuclear do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e membro do Comitê Científico da Sociedade Americana de Medicina Nuclear.
O vilão de sempre
Fazer uma avaliação cardiológica não necessariamente implica passar por uma infinidade de exames de sangue e de imagem, embora alguns deles sejam indispensáveis. Atualmente, a maior preocupação dos médicos é a exposição dos pacientes aos riscos que os tornam mais vulneráveis aos males cardíacos. “Um amplo estudo internacional, o INTERHEART, feito com 30 mil pessoas em 52 países, mostrou que nove fatores são responsáveis por 90% do risco de doenças cardiovasculares e confirmou que o principal deles é o colesterol elevado”, revela o médico do setor de Bioquímica do Fleury, dr. Rogério Rabelo.
O colesterol tem tanta culpa no cartório que as Sociedades Americana e Brasileira de Cardiologia recomendam que todo jovem, faça sua primeira dosagem aos 20 anos, repetindo-a a cada cinco anos, se os resultados estiverem normais. “Sempre digo que, ao completar 20 anos, toda pessoa deveria ganhar de presente da família uma consulta a um médico para fazer seu primeiro perfil lipídico”, brinca o dr. Rabelo. Esse perfil inclui as frações do bom (HDL) e do mau colesterol (LDL), o colesterol total e a dosagem de triglicérides.
Antes de sair fazendo exames, no entanto, é fundamental consultar um médico, que irá investigar seu histórico para saber como conduzir a avaliação, levantando dados sobre os antecedentes familiares de colesterol elevado e doenças do coração, hábitos de alimentação, tabagismo e prática de exercícios, além de sua situação em relação a condições como obesidade, diabetes e hipertensão. Apesar desses aspectos serem importantes para ambos os sexos, a pressão arterial elevada mostrou-se mais prevalente no sexo masculino enquanto o diabetes apresenta maior risco para doença cardiovascular nas mulheres. “E, para complicar, a diabética costuma ter infarto sem dor”, explica a dra. Paola.
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Fatores de risco para o infarto do miocárdio |
Fatores de risco para o infarto do miocárdio |
| • Colesterol elevado; |
•Atividade física regular; |
| • Tabagismo; |
•Atividade física regular; |
| • Fatores psicossociais, como estresse; |
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| • Diabetes; |
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| • Pressão alta; |
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| • Obesidade abdominal |
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Está mais do que evidente, para os especialistas, que a mulher precisa de um check-up preventivo do coração a partir dos 30 anos
Pirâmide alimentar
A professora Semíramis Fernandes Prado de Toledo, 42, faz o acompanhamento clínico e laboratorial desde os 33 anos. Em todo esse tempo, colesterol e glicemia vêm permanecendo nos níveis normais, mas Semíramis jamais deixou de voltar ao consultório por se sentir confortável com os resultados. “Pela experiência que eu tive com meus pais, que foram diabéticos, sei o que pode acontecer”, diz. Apesar de admitir uma certa indisposição para exercícios físicos, a professora conta que procura adotar uma dieta saudável, preocupação que estende para os dois filhos e o marido. “Desde que conheceu a pirâmide alimentar, na escola, minha filha Júlia faz questão de manter uma alimentação balanceada, com todos os nutrientes”, conta.
O exemplo da professora mostra também que tanto as mulheres quanto os homens devem ter consciência de que, sozinho, o acompanhamento periódico não faz milagres. “A prevenção passa por aquilo que pouca gente quer fazer, que é a mudança de estilo de vida”, resume o dr. Rabelo. Na prática, a guinada pede a associação de alimentação saudável, prática regular de exercícios e perda de peso. Nada muito complicado, sobretudo em relação às privações a que muitas mulheres se submetem em nome da estética.
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O que há de novo em laboratório |
| Já existem exames de sangue desenvolvidos especialmente para ajudar o médico a avaliar o risco cardiovascular nos pacientes. Apesar de todo o alarde em torno deles, esses recursos, no entender do dr. Rogério Rabelo, do Fleury, devem ser encarados como auxiliares em casos especiais, sobretudo em quem já tem algum problema, uma vez que “os grandes fatores de risco de doenças cardiovasculares são mesmo os clássicos”, frisa. Mas vale conhecer um pouco as novidades. |
• Proteína C-Reativa (PCR) de alta sensibilidade A PCR, na verdade, é um marcador de inflamação e infecção. Na avaliação do risco cardiovascular, o exame serve para indicar se as placas de colesterol que se formam na parede das artérias estão inflamadas – pois é a inflamação que desencadeia seu rompimento e o conseqüente entupimento da artéria.
• BNP e NT-proBNP O peptídeo natriurético tipo B (BNP) e o fragmento N-terminal do proBNP (NT-proBNP) são substâncias produzidas pelo |
coração como resposta à sobrecarga de pressão que ele recebe e ao aumento de seu volume. Isso os torna excelentes exames para diagnosticar a insuficiência cardíaca.
• Homocisteína A homocisteína é um aminoácido encontrado no sangue que pode estar associado a maior risco de trombose e doenças cardiovasculares quando seus níveis estão aumentados. Sua elevação crônica, entretanto, pode decorrer da falta de vitamina B12 ou de ácido fólico no organismo. |