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Respire melhor neste inverno 
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Publicado em: 05/07/2007  Atualizado em: 29/05/2008
Autor: Solange Arruda

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Os ventos frios da nova estação trazem mais doenças respiratórias agudas, como a gripe, e agravam as crônicas, caso da asma. Mas, se o inverno é inevitável, dá para sofrer menos com bom senso e alguma ajuda médica

As cores de abril foram eternizadas na composição de Toquinho e Vinícius, de mesmo nome. Tudo bem que eles deviam estar se referindo ao que enxergavam da praia de Ipanema, no Rio, ou da praia de Itapuã, na Bahia. Entretanto, mesmo em meio ao caos de São Paulo, a gente nota que o azul é diferente nesta época do ano, que o ar de anil exala outro aroma, mais perceptível para os românticos e... para os mais sensíveis do ponto de vista respiratório. Sim, pois, apesar do clima de poesia, esta é, também, a temporada crítica para as pessoas que sofrem de doenças respiratórias crônicas, como a asma, e para os grupos vulneráveis à combinação de ar seco, frio e poluição que, paradoxalmente, paira nos céus azuis da estação. “Entre o outono e o inverno, ocorre um aumento das queixas respiratórias em torno de 20 a 40%”, calcula a professora livre-docente da disciplina de Pneumologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), dra. Carmen Silvia Valente Barbas.

Então, a culpa toda é da natureza? Por um lado, sim. “As temperaturas mais frias e secas são irritantes para a mucosa das vias respiratórias, tornando-as mais frágeis e suscetíveis”, explica o chefe do Serviço de Pneumologia do Fleury e do Serviço de Broncoscopia do Hospital das Clínicas da FMUSP, dr. Wilson L. Pedreira Jr. É só pensar no que uma pedra de gelo faz ao entrar em contato com a pele. Primeiro, a região fi ca esbranquiçada e, depois, avermelhada, como se tivesse sofrido uma agressão. “Quando a pessoa inala o ar mais frio, há uma queda na temperatura das vias aéreas, o que interfere no movimento dos cílios do aparelho respiratório”, adiciona o professor-adjunto da disciplina de Pneumologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dr. Hélio Romaldini. Uma vez irritada, a mucosa produz mais secreção, enquanto os tais cílios, paralisados pela mudança de temperatura, não cumprem adequadamente seu papel de limpar a área, “filtrando” os resíduos inalados com o ar. Assim, vírus e bactérias encontram o território ideal para deitar e rolar.

É claro que, naturalmente, uma parcela da culpa cabe ao homem. A inversão térmica eleva a concentração de poluentes perto do solo e, para completar, as pessoas passam muito tempo em ambientes fechados, permanecendo mais expostas a uma série de agentes infecciosos. “É um círculo vicioso”, resume o pneumologista do Fleury. Não é à toa que quem sofre de asma e de doenças pulmonares obstrutivas crônicas, como a bronquite e o enfi sema, acaba tendo mais crises de falta de ar. Nesse grupo, observa a dra. Carmen, os sintomas da gripe são mais graves do que na população em geral, que, embora não escape incólume a toda essa agressão, geralmente apresenta apenas coriza, dor de garganta e tosse.

No consultório
Os problemas, então, parecem inevitáveis, pois todo ano o frio volta e a qualidade do ar das metrópoles só piora. Especialistas garantem, porém, que há muitas medidas preventivas simples para tomar dentro e fora de casa, o que vai da proteção contra ventos cortantes até os cuidados com a higiene (veja quadro). Além disso, quem tem maior suscetibilidade deve fazer um controle clínico mais abrangente, recomenda o dr. Pedreira Jr.

Para o asmático, isso significa tratar precocemente as crises, com medicação preventiva. O mesmo vale para as pessoas em quem as gripes e resfriados sempre complicam, ultrapassando o período considerado aceitável para tais viroses, de cinco dias. Depois desse prazo, não é normal passar semanas com tosse e produção de secreção, alerta o pneumologista Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho, também professor livre-docente de Pneumologia da FMUSP. “A gripe pode evoluir para sinusite, nas vias respiratórias altas, e até para pneumonia, nas baixas”, alerta.

A imunização anual contra o vírus Influenza, que causa a gripe, parece ser a medida mais inteligente para afastar os inconvenientes do inverno.
Por conta desse risco é que a imunização anual contra o vírus Influenza, que causa a gripe, parece ser a medida mais inteligente para afastar os inconvenientes do inverno. A doença, afinal, é considerada pelos especialistas a porta de entrada para os problemas respiratórios mais sérios. Apesar de ser largamente usada somente nos grupos suscetíveis a complicações, a vacina é contra-indicada em pouquíssimas situações, além de se mostrar bastante efetiva. Para se ter uma idéia, desde que começou, em 1999, a campanha nacional de vacinação em idosos evitou mais de 51 mil internações por ano, segundo o Ministério da Saúde. Com tantosargumentos favoráveis, “a medida deveria ser obrigatória para qualquer pessoa, uma vez que a incidência da gripe diminuiria em toda a população”, opina o dr. Romaldini.

Mesmo com um custo-benefício tão claro, o fato é que, na prática, existe um certo folclore de que o produto causaria um quadro viral, mas que não tem nenhum fundamento, segundo o professor Carvalho. “Diferentemente de outras vacinas, feitas com micróbios atenuados, a antigripal é elaborada com pedacinhos do vírus, que, sozinhos, não são capazes de provocar a doença”, assegura.

A pneumonia igualmente pode ser evitada por imunização, lembra o dr. Carvalho. No entanto, só quem realmente está vulnerável deve receber a vacina contra o pneumococo, a bactéria causadora de infecções pulmonares severas. É o caso de idosos, imunodeprimidos, diabéticos e portadores de doenças respiratórias crônicas, entre outros. A cobertura, aliás, é bem maior que a da vacina antigripe: cinco anos de sossego.

A prevenção ao seu alcance
Além do controle clínico e da imunização, existem providências bem simples de tomar para você atravessar o próximo inverno menos suscetível às doenças respiratórias:
Aumente o calor do ambiente. Aquecedor, banheiro quentinho... – só não vale ar condicionado, pois ele ajuda a proliferar microrganismos. Elevar a temperatura, contudo, não significa fechar tudo!
Evite aglomerações. Vá pela escada, em vez de encarar o elevador lotado. Se não dá para evitar a sala de aula fechada, pelo menos troque o shopping por um passeio no parque.
Não fume. Além de fazer mal para os pulmões do fumante, a fumaça do cigarro dentro de casa aumenta a chance de haver crises nos asmáticos e infecções nas crianças.
Não compartilhe objetos de uso pessoal. Como os vírus de gripes e resfriados fi cam depositados nas superfícies, não dá para compartilhar copos, pratos, talheres e toalhas com pessoas já contaminadas.
Umedeça suas vias respiratórias. Se não dá para tomar água toda hora, vá de chá, chocolate quente, sopas e caldos. Além disso, use soro fisiológico para lavar as narinas. Proteja o nariz e a boca do vento. Na hora de sair de casa, não deixe de levar também o cachecol. O acessório funciona como uma barreira contra o frio, aquecendo o ar que você inala.
Não corra pela cidade. Em ruas e avenidas movimentadas, além de respirar o ar mais frio da estação, você manda para os pulmões todos os poluentes dispensados pelos veículos. Lave casacos e cobertores. Aproveite as semanas mais quentes para lavar ou expor ao sol os apetrechos do frio. Como ficam muito tempo guardadas nos armários, as peças servem de residência para fungos e ácaros.

Na esportiva
Fora os cuidados mencionados, a prática de atividade física, que já melhora a condição de saúde de muita gente, pode ajudar os mais sensíveis a enfrentar o frio com maior preparo. De acordo com o dr. Pedreira Jr., vários estudos comprovam que o esporte permite ao asmático aproveitar melhor o ar que respira. A boa notícia é que esse grupo pode fazer quase todas as modalidades esportivas, evidentemente com orientação médica. Só não são recomendadas as atividades contínuas, como corrida ao ar livre e futebol. O “tratamento” dá tão certo que acaba trazendo outros benefícios como conseqüência. A equipe olímpica americana fez um levantamento e constatou que o número de ganhadores de medalhas de ouro naquele país, entre 1984 e 2004, é muito maior entre os asmáticos do que entre a população normal. Está aí um bom incentivo, independentemente da temporada de inverno.

Os mitos do inverno
- Friagem traz doenças respiratórias
. Não é um golpe de ar que vai trazer uma gripe; o problema é a perda de calor durante essa mudança de estímulo. Ou seja, se você ficar sob a friagem, sentindo o frio chegar aos ossos, deixará suas vias respiratórias bem irritadas...
- Sorvete no frio faz mal. Um sorvete no frio de rachar não causa nenhum problema grave. Do contrário, os canadenses, por exemplo, já teriam sido dizimados em seus rigorosos invernos. Mas convém não exagerar. O motivo também é a perda do calor quando você precisa tanto dele.
- Vitamina C previne resfriados. A ciência ainda não confirmou essa tese, mas estudos sugerem que a ingestão diária de dois gramas de vitamina C estimula o sistema imunológico. Outros, porém, dizem que basta o aporte da alimentação. Na dúvida, um grama diário da vitamina pode até ajudar...
- Injeção de eucalipto cura a gripe. O único efeito dessa injeção é deixar o indivíduo cheirando a eucalipto a quilômetros de distância! Depois que a gripe está instalada, não há muito que fazer, a não ser esperar que o organismo produza os anticorpos para combater os vírus.
- Gato dá asma. Pêlos de animais não causam asma, mas podem agir como um gatilho para crises, assim como a poeira, o mofo e o cheiro de tinta. Para facilitar, existem testes laboratoriais que mostram a sensibilidade das pessoas a cada estímulo como esse.
- Bombinha pode ser perigosa. Há um mito de que a bombinha pode ser fatal, pois muitas vítimas da asma foram encontradas com tais medicamentos por perto. O que mata é a falta de ar! Assim, nas situações em que a medicação da bombinha parece não surtir efeito, o correto é levar o indivíduo para um serviço de emergência.

 

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