Embora a recorrência da gripe aviária seja preocupante, o momento pede mais entendimento dos riscos do que alarde
Talvez boa parte dos jovens profissionais de saúde só conheça as pandemias e pragas que assolaram a humanidade pelos registros com os quais tomam contato ainda durante a vida acadêmica. Entre os leigos, então, o assunto não passa de um argumento para bons filmes e livros, como o clássico A Peste, de Albert Camus. Mas quem acompanha as notícias de pessoas atingidas pela gripe aviária, uma infecção transmitida por aves contaminadas com uma variante do vírus influenza, o H5N1, naturalmente questiona se a doença não pode vir para o Ocidente e se alastrar ao mesmo tempo entre várias populações, o que caracterizaria uma pandemia.
Apesar da preocupação real com a recorrência do vírus - ele apareceu em 1997 e foi controlado, surgiu de novo em 1999, depois em 2003 e, por fim, no ano passado - a ocasião pede mais entendimento que alarde, assinalam os especialistas, até porque resta pouco a fazer por parte do cidadão comum, mesmo para quem viaja muito, a não ser manter distância das aves nos locais afetados (veja box). "O risco real para o viajante é pequeno", sublinha o infectologista responsável pelo Check-Up do Viajante do Fleury e médico-assistente do Núcleo de Medicina do Viajante do Hospital Emílio Ribas, Jessé Reis Alves.
Em primeiro lugar, convém ressaltar que até agora não houve casos de transmissão do vírus entre pessoas, o que seria necessário para configurar a temida pandemia. Por enquanto, todos os humanos contaminados tiveram contato com as secreções das aves, observa o assessor médico da Infectologia do Fleury, Celso Granato. Em segundo lugar, os animais que propagam a gripe aviária para o homem não contraem o H5N1 pelo ar. Para adquirir a infecção, galinhas, patos, perus, entre outras espécies precisam ter estado com os pássaros selvagens que carregam o vírus em seu aparelho digestivo. Deste lado do globo não estamos na rota dos animais migratórios responsáveis pelos casos iniciais, que ocorrem na China, onde vale dizer, as condições de higiene da avicultura também favorecem o contágio. "O ciclo de migração dessas aves ocorre do norte para o sul", frisa Granato, que também é professor de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Embora tenha havido casos de gripe aviária na Europa, o que sugere que os pássaros alteraram sua rota, é pouco provável que tais animais migrem diretamente para a América do Norte - de onde saem efetivamente as aves selvagens que vêm para o Brasil, trocando o inverno gelado de lá pelo clima acolhedor do Pantanal (MS) e da Lagoa dos Patos (RS). "Por outro lado, uma vez que as aves da Ásia seguiram para a Turquia, podem descer para a África no inverno", aponta o assessor médico do Fleury.
Torcida contra as mutações
Além de ser preciso uma mudança radical no comportamento dos pássaros migratórios para a doença atingir a América, a ocorrência de uma pandemia está vinculada ao contágio entre humanos. Deve-se admitir, entretanto, que o vírus da gripe aviária já deu um passo nessa direção. Granato explica que, em tese, uma moléstia aviária só pode ser transmitida ao homem com a participação dos suínos. "Os porcos se contaminam com os vírus das aves e dos humanos e podem recombiná-los, dando origem a vírus humanizados, capazes de infectar o ser humano", ensina. O H5N1, porém, tem sido passado das aves para o homem sem intermediários.
Apesar dessa capacidade de adaptação, o vírus precisaria sofrer pelo menos cinco mutações para que pudesse sair de um organismo humano e entrar em outro. Não que a hipótese seja impossível. "Isso faz parte da dinâmica do influenza que, de tempos em tempos, dá origem a uma variante que causa pandemias de gripe", afirma a infectologista e pesquisadora de vírus respiratórios da Unifesp, Nancy Bellei. Mas, visto de um outro prisma, o vírus resultante de tantas transformações pode não ser tão devastador como vem sendo atualmente para o homem. "É um terreno de incertezas", resume Jessé.
Essas dúvidas, aliás, diminuem a expectativa que existe em torno da vacina contra o H5N1, que está sendo desenvolvida em caráter experimental em alguns países, aí incluindo o Brasil, no Instituto Butantan. Segundo Jessé, a cepa do vírus usada nos ensaios é exatamente a que as aves transmitem hoje para o ser humano. Se houver uma pandemia, continua o infectologista, não dá para garantir que será provocada exatamente pelo mesmo agente, já que o vírus terá sofrido as mutações necessárias para ser transmitido de pessoa para pessoa.
Ainda assim, ter um meio de imunização contra o H5N1 é melhor do que nada, diz Granato. Ademais, o fato de haver um parque industrial em São Paulo para a fabricação de um produto dessa complexidade é fundamental, sobretudo quando se sabe que somente algumas poucas nações possuem tal know-how. "Numa situação de pandemia, nenhum país exportaria vacinas", nota Nancy.
Demanda precipitada
Raciocínio semelhante ao da efetividade da vacina deve acompanhar a corrida para a aquisição do oseltamivir (Tamiflu), uma das drogas utilizadas no tratamento da infecção pelo H5N1 no ser humano. O produto, que desapareceu do mercado por causa da demanda exagerada, pode encalhar no armário de quem o adquiriu a fim de se preparar para uma pandemia - até porque não deve ser usado como prevenção, de modo indiscriminado e sem orientação médica, pois isso só aumentaria o risco de o H5N1 ficar mais resistente ao medicamento, lembra Jessé. A questão é que, numa pandemia, com um vírus transformado por várias mutações, existe também a possibilidade de a ação do remédio não ser a mesma de agora.
Mesmo com tantas ponderações, é importante lembrar que a segurança dos países não atingidos pela gripe aviária não prescinde de um controle eficaz do vírus nas nações que tiveram casos, sobretudo na Ásia. Além do mais, os especialistas defendem que as autoridades mundiais de saúde se preparem para enfrentar o problema como gente grande, o que significa criar planos de contingência e promover uma vigilância intensa, necessária para fazer diagnósticos precoces e conter um vírus mais transmissível. "Os países que estão se organizando de forma efetiva, com a participação da comunidade científica, terão mais chances de controlar uma pandemia e diminuir o impacto em sua população", acredita a pesquisadora da Unifesp.
Ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil tem andado nesse sentido, segundo Nancy. Além do trabalho com o desenvolvimento da vacina, no Butantan, o país formou um comitê federal e um estadual, em São Paulo, e discute um plano próprio para lidar com a eventualidade de uma pandemia. Não deixa de ser um avanço em meio a um terreno tão arenoso.
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Faça sua parte
Depende mais das autoridades de saúde do que do cidadão comum a tomada de medidas efetivas para proteger a população da gripe aviária. Algumas providências, porém, estão ao alcance de todos:
• Mantenha-se informado com fontes ligadas à comunidade científica, como o Ministério da Saúde e a Associação Médica Brasileira.
• Uma vez nos países de risco, evite a todo custo o contato com aves e suas secreções e não vá a locais de grande concentração desses animais, a exemplo de granjas e mercados. Da mesma forma, não coma carne de ave ou ovos malcozidos em tais locais.
• Não se automedique preventivamente.
• Se você retornar de uma viagem internacional com febre, procure um serviço de atendimento ao viajante ou um médico de sua confiança para afastar a hipótese de ter contraído uma gripe diferente.
• Mantenha o hábito de se imunizar contra a gripe tradicional, pois existe a possibilidade de que as pessoas que recebem anualmente a vacina antigripe tenham alguma imunidade contra o vírus H5N1. |
Os estragos do influenza na história
Uma pandemia de gripe ocorre quando um novo tipo de vírus influenza surge na população, dissemina-se facilmente entre os humanos e produz quadros graves e simultâneos de doença em muitas partes do mundo. "O tempo entre a aquisição e a transmissão desses agentes é muito curto porque nosso organismo não tem defesas contra eles", explica o médico Jessé Reis Alves, do Fleury. Acredita-se que a humanidade tenha passado por dez pandemias nos últimos 300 anos. A mais conhecida foi a Gripe Espanhola, que matou de 40 a 50 milhões de pessoas no começo do século passado.
