Ainda que a vida moderna estimule a vigília, nosso corpo precisa de um sono restaurador diário, para o qual temos muito com o que contribuir
Por mais que as exigências da atualidade demandem, digamos, um dia com 30 horas, essa possibilidade diariamente acaba frustrada e, por conseqüência, invadimos o terreno do período em que deveríamos estar dormindo, muitas vezes, com trabalho e com a resolução de questões cotidianas, já que existem diversos serviços que funcionam 24 horas, e não raramente com atividades de lazer.
O fato é que, desde a invenção da luz elétrica, o ser humano vem deixando de dormir tudo o que deveria. Sobretudo nas metrópoles, com tantos estímulos a mais que a luz, há hoje uma tendência cada vez maior de essa privação aumentar. "Mas nosso organismo não mudou, o que significa que nossas necessidades fisiológicas continuam iguais", argumenta a neurologista responsável pelo Serviço de Polissonografia do Fleury e presidente da Sociedade Paulista de Medicina do Sono, Rosana Souza Cardoso Alves. Em bom português, precisamos, sim, de repouso, ainda que o mundo pareça dizer que estamos perdendo tempo.
A neurologista explica que sono e vigília caminham juntos e são determinados por nosso relógio biológico, o responsável, portanto, pela alternância entre acordar e dormir que se repete a cada 24 horas. Esse ritmo é sincronizado com o ciclo dia e noite, porém funciona de forma autônoma. Se uma pessoa viver por semanas dentro de uma caverna, sem ver o sol, continuará adormecendo e despertando com a mesma periodicidade.
Dessa forma, não sentimos sono só porque tivemos um dia cheio, mas porque soa um alarme interno que avisa que está na hora da manutenção. "O sono não é só um descanso, mas um momento de restauração do organismo, de balanço hormonal, de equilíbrio", assinala a especialista. Por isso é que, em longo prazo, esse déficit a que somos submetidos nos cobra juros e correção monetária.
Na prática, dormir menos que o necessário altera todos os órgãos do corpo e, com o tempo, produz mudanças de comportamento, irritação, depressão e déficit de memória, assim como algumas doenças, embora isso seja um tanto controverso. Na criança, a privação de sono produz hiperatividade e altera o ciclo do hormônio de crescimento, podendo atrapalhar seu pleno desenvolvimento, além de afetar o rendimento escolar (leia matéria da página 16).
Sono ideal
Tudo bem, você já está convencido de que precisa ficar mais na cama. Mas o que é, afinal, o ideal nesse campo? "Sono bom é o sono restaurador", define o responsável pelo Laboratório do Sono do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor-HC-FMUSP), o médico Geraldo Lorenzi Filho. Essa meta difere de pessoa para pessoa, ou seja, não é todo mundo que precisa das famosas oito horas por dia. Alguns se contentam com seis e outros não funcionam se não ressonarem por dez horas. "O número ideal de horas de sono é aquele com o qual você se sente bem", acrescenta Rosana.
Apesar das demandas do cotidiano, existem várias medidas que podemos incorporar facilmente para evitar a privação do sono (veja box). Em comum, todas partem do princípio que nosso ritmo e contato com recursos estimulantes deve ser diminuído à noite. "Não temos um botão liga-desliga e, por isso, a transformação do estado de vigília para o de sono precisa ser gradual", observa a médica do Fleury.
Acontece que não é apenas a quantidade de horas que determina o sono ideal, mas também a qualidade desse intervalo, destaca Lorenzi Filho. Embora haja cinco estágios de repouso (veja gráfico), é durante o sono REM - do inglês, rapid eyes movement -,marcado pelos sonhos, que experimentamos o período mais restaurador. Essa fase ocorre de quatro a cinco vezes por noite e predomina no fim da madrugada. Ocorre que, se nos deitamos muito tarde e acordamos muito cedo, provavelmente nos privamos do nosso melhor momento de recomposição. Da mesma forma, quem tem o sono interrompido acaba não aproveitando tal estágio.
Insônia e cia.
A qualidade do sono é afetada pelos mesmos fatores externos que podem roubar nossas preciosas horas de descanso, e também pelos chamados distúrbios do sono, dos quais o mais freqüente é a insônia, que acomete de 30% a 40% da população mundial, incidindo mais sobre as mulheres. O insone, na verdade, tem uma percepção de que não consegue dormir direito, explica Lorenzi Filho, ou porque demora demais para adormecer ou porque não consegue se manter dormindo. O problema tem muitas causas, mas em cerca de 35% dos casos decorre de depressão e ansiedade.
O perigo da insônia é que a maioria das pessoas não busca tratamento. Estudos da Academia Americana de Sono apontam que 71% dos insones nunca procuram ajuda médica. Assim, caem na armadilha fácil do consumo dos remédios para dormir - os benzodiazepínicos - por conta própria. "Esses medicamentos são fáceis de introduzir e difíceis de tirar", alerta o especialista do InCor, enfatizando que eles causam dependência com o tempo. Enquanto isso, a origem da insônia continua lá, intacta.
Outro distúrbio importante é a apnéia obstrutiva do sono, que afeta cerca de 4% dos homens e 2% das mulheres e é caracterizada por ronco alto e engasgos, causados por breves e repetidas interrupções da respiração. Neste caso, a pessoa pode dormir por muitas horas, porém sente, no dia seguinte, cansaço e sonolência. "A cada apnéia, há um microdespertar para melhorar a oxigenação e, com isso, o indivíduo tem um sono fragmentado e não entra na fase restauradora", esclarece Rosana. A condição decorre de um grande estreitamento da faringe durante o sono, provocado por várias causas, de medicamentos e álcool até obesidade.
Na infância, sobretudo na faixa dos quatro aos oito anos de idade, o distúrbio mais comum é o sonambulismo, no qual o indivíduo perambula pelo quarto ou pela casa dormindo. A prevalência varia, mas há estudos que apontam que até 17% das crianças dessa faixa etária possam ser sonâmbulas. Os episódios também atrapalham o sono restaurador, pois a pessoa pode acordar ao se levantar, sem falar na possibilidade de haver acidentes domésticos.
Qualquer que seja o mal, o principal sintoma será sonolência durante o dia, associada evidentemente à percepção de que o sono foi curto e ruim, ainda que as medidas necessárias para dormir bem estejam sendo tomadas. Parece pouco, mas só isso já é motivo para procurar um médico de confiança ou um especialista em sono. Além dos riscos inerentes a esse estado - nos EUA, 20,1% dos acidentes nas estradas são atribuídos à sonolência e à fadiga - a falta de um bom período de repouso leva embora nossa vitalidade. De acordo com a Sociedade Brasileira de Sono, as alterações hormonais e metabólicas observadas nos indivíduos após uma semana de restrição do tempo de sono assemelham-se às observadas em idosos.
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Os ladrões de sono
Conheça e corrija alguns fatores que podem levar seu sono embora |
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Ambiente inadequado O calor, a luminosidade e o barulho podem fazer você demorar para adormecer ou, ainda, despertar nos momentos do sono mais restaurador - a fase REM.
Medicamentos Converse com seu médico antes de começar um tratamento com um medicamento que nunca tomou. Muitos remédios interferem no sono.
Cafeína Presente no café, em alguns refrigerantes e chás, como o mate e o preto, funciona como estimulante.
Energéticos Tais produtos contêm uma boa parte de cafeína em sua composição e, portanto, só podem atrapalhar se o que você quer é dormir. |
Bebidas alcoólicas Apesar de causar um relaxamento muscular e sonolência, o álcool interfere na fase REM, além de piorar as crises de apnéia.
Atividade física noturna Exercícios físicos intensos antes de dormir só o fazem ficar mais acordado. Entretanto, atividades leves como alongamento, ioga, etc podem até ser benéficas e servir como relaxamento.
Computador e TV Os eletroeletrônicos são estimulantes. Atire a primeira pedra quem nunca foi madrugada adentro navegando na internet ou zapeando pelos canais de TV.
Livros A leitura dá sono quando integra um ritual. Ler aquele suspense na cama pode deixá-lo mais ansioso ou tentado a terminar o capítulo - ou o livro. |
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Para dormir como um bebê
• Deite-se e levante-se em horários regulares. • Vá para a cama somente quando estiver sonolento. • Use a cama para dormir - nada de ler, comer ou ver TV no quarto. • Evite ficar na cama sem dormir. Se preciso, levante-se e faça uma atividade calma até ficar sonolento novamente. • Evite álcool e cafeína nas seis horas que antecedem seu horário de ir para a cama. • Estabeleça um ritual de relaxamento antes de se deitar. • Não se alimente perto da sua hora de dormir. • Evite cochilar durante o dia. • Mantenha-se ocupado ao longo do dia. • Faça atividades físicas regularmente, mas nunca antes de dormir. | |

* Os percentuais se referem ao tempo do sono que cada fase ocupa