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Publicado em: 12/06/2007  Atualizado em: 01/03/2007
Autor: Por Solange Arruda

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O visto da saúde

Antes de fazer as malas, convém arrumar espaço para algumas medidas indispensáveis à manutenção do bem-estar durante a viagem e no retorno para casa

No filme Encontros e Desencontros, da diretora Sofia Coppola, os protagonistas não conseguem se adaptar ao fuso horário e à vida de Tóquio. Ao longo de toda a projeção, Bill Murray e Scarlett Johansson quase não dormem e vagam pelo hotel ou pelos canais de tevê, agravando o sentimento de estarem esquecidos do outro lado do mundo. Parecem viver um jet lag crônico, aquele desconforto causado por viagens que determinam uma mudança forte no ciclo de sono-vigília.

Se, contudo, eles tivessem recebido aconselhamento profissional, talvez pudessem se sentir menos desorientados - mas aí a história seria outra... Ocorre que pouca gente pensa nesses problemas antes de viajar.

Ainda que seja a trabalho, trata-se de uma hora feliz, de fazer planos, superar desafios, traçar roteiros, experimentar coisas novas. Mas é justamente para manter esse alto-astral que o preparo para uma grande viagem passa obrigatoriamente por alguns cuidados anteriores. A começar pela informação. "É impensável alguém viajar para um local sobre o qual não tenha nenhuma informação", sustenta o infectologista e coordenador do Centro de Informação em Saúde para Viajantes (Cives) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fernando Martins.

Em relação à saúde, o próximo passo está mesmo em um consultório. "Recomendamos que as pessoas procurem orientação médica especializada pelo menos um mês antes de embarcar, pois podem ser necessárias algumas vacinas, e que façam uma avaliação odontológica", resume o infectologista Jessé Reis Alves, que responde pelo Check-up do Viajante e pelo Serviço de Vacinação do Fleury.

A avaliação clínica pode ser feita por um médico de confiança, até porque as estatísticas mostram que o maior motivo de morte entre viajantes não é nenhum vírus estranho, mas as doenças cardiovasculares (49%), seguidas dos traumas (25%), causados principalmente por acidentes de trânsito e afogamentos.

Apesar disso, há outros riscos que, se não chegam a ser fatais, têm potencial para atrapalhar - e muito - a viagem e a volta. E são eles que tornam útil a orientação de um especialista em Medicina do Viajante.

O passo a passo para uma boa viagem

  • Informe-se sobre o local para onde quer ir e, pelo menos, um mês antes de partir, passe por avaliação médica especializada e Check-Up odontológico
  • Verifique a cobertura de seu plano de saúde no exterior e preencha a última página do passaporte com os dados da pessoa a ser avisada em emergências. Alguns países europeus estão exigindo a comprovação de cobertura de plano de saúde
  • Antes de viajar converse com seu médico para obter orientações sobre medicações a serem levadas em caso de necessidade. Deve-se ter o cuidado de portar quantidades a mais de remédios de uso crônico, devido à possibilidade de imprevistos e dificuldade de comprá-los em outros países. Esse tipo de medicação deve ter as prescrições em inglês, preferencialmente
  • Se o vôo for muito longo, movimente-se durante a viagem para melhorar a circulação e evitar a formação de coágulos nas pernas - a trombose venosa profunda
  • Uma vez em seu destino, tome cuidado com animais silvestres, peçonhentos e até domésticos, sobretudo se levar crianças
  • Respeite os limites naturais: esteja pronto para enfrentar mudanças bruscas de temperatura, use protetor solar invariavelmente e tenha cuidado com altitudes
  • Não pratique atividades esportivas sem preparo e equipamentos adequados, a exemplo de natação, mergulho e alpinismo
  • Em um país de mão invertida no trânsito - como Austrália, Japão, Índia e Inglaterra -, não dirija sem antes passar por um período de adaptação
  • Falando nisso, conheça e respeite as leis e costumes locais
  • Procure ter à mão endereços e telefones das representações diplomáticas do Brasil mais próximas na(s) cidade(s) que visitar
  • Fontes: Jessé Reis Alves (Fleury) e Fernando Martins (Cives-UFRJ).

    Mapa epidemiológico do planeta

    O mapa epidemiológico do planeta

    Veja, no mapa acima, os problemas mais comuns em diferentes países e as medidas de proteção preconizadas pelos especialistas em Medicina do Viajante. Convém lembrar que a indicação de vacinas precisa levar em conta o estado geral de saúde de cada indivíduo e o histórico de imunização.

    Febre amarela - Vacina*

    Malária - Orientações específicas: aplicação de repelentes especiais e uso de medicamentos

    Encefalite japonesa - Vacina (não aplicada no Brasil)

    Gripe aviária - Vacina contra a gripe humana e orientações específicas: não consumir aves e ovos malcozidos e evitar áreas com grande concentração de aves

    Febre tifóide - Vacina e medidas de proteção contra a diarréia

    Sarampo - Vacina

    Encefalite do carrapato - Vacina (não aplicada no Brasil) e orientações específicas: proteção em áreas rurais

    Poliomielite - Vacina

    Meningite meningocócica - Vacina

    Hepatite A - Vacina

    Dengue - Orientações específicas: uso de repelentes e medidas contra a entrada de insetos no interior dos ambientes

    Cólera - Medidas de proteção contra a diarréia

    Raiva - Vacina

    Doenças sexualmente transmissíveis - Preservativo**

    Diarréia - Medidas de proteção**

    (*) Alguns países exigem o certificado de vacinação contra a febre amarela para o turista proveniente de áreas endêmicas. É o caso da Índia e da Austrália, por exemplo.
    (**) Em qualquer região do mundo

    Educação

    Independentemente do roteiro, qualquer pessoa que cruza os ares está exposta a uma série de doenças infecciosas que podem ser transmitidas por insetos, animais, ingestão de água e alimentos contaminados, por via respiratória e até contato sexual, enumera a infectologista e responsável pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Melissa Mascheretti. Felizmente é possível prevenir todas essas moléstias, algumas com imunização e a grande maioria com orientações específicas.

    "As vacinas são importantes, mas envolvem apenas um segmento da Medicina do Viajante, cujo principal objetivo é mesmo a educação", sustenta Melissa. "Quem sabe que está em uma área de risco para alguma doença não vai negligenciar a própria saúde diante de qualquer sinal de alerta", entende.

    Assim, o especialista consegue relacionar o histórico de saúde e de vacinação do turista com o roteiro, fornecendo recomendações personalizadas que consideram escalas e etapas intermediárias, estação do ano, clima da região e locais a serem visitados, além das atividades que serão realizadas - de esqui e mergulho a trabalhos voluntários. Até os riscos de natureza sociopolítica são levados em conta. "O médico que trabalha nessa área está sempre em contato com fontes de informação simultânea sobre a existência de surtos e de problemas de saúde em qualquer local do mundo", adiciona Jessé Alves. Na mala, esses dados viram proteção.

    Sem dor de barriga

    Segundo alguns estudos, sete em cada dez pessoas que viajam têm diarréia, um mal corriqueiro que é causado, sobretudo, por agentes infecciosos que ingressam no organismo por meio de alimentos ou água contaminada. Acontece que os turistas ficam mais vulneráveis a bactérias comuns, vírus e parasitas. "Quando você vive em um lugar, seu corpo está equilibrado em relação aos microorganismos desse local, mas não quando vai para uma outra região, na qual há microorganismos diferentes", explica o infectologista Fernando Martins. Assim, qualquer descuido facilmente pode roubar alguns dias das férias ou atrapalhar a viagem de negócios. Portanto:

    • Lave bem as mãos sempre, especialmente antes das refeições
    • Procure não comer alimentos crus ou malcozidos, sobretudo carnes e ovos, assim como derivados de leite
    • Tome apenas água mineral e bebidas engarrafadas, sem pedras de gelo
    • Tenha cuidado com a água usada em sorvetes e sucos. Na dúvida, opte por produtos industrializados
    • Em qualquer cidade do mundo, evite consumir bebidas e alimentos ofertados por vendedores ambulantes

    Para driblar a diferença de fuso

    Antes de viajar para um local com diferença importante de horas, os especialistas recomendam iniciar a adaptação do organismo com antecedência para minimizar os efeitos da mudança de fuso, conhecidos como jet lag. Quem vai para a Europa, por exemplo, deve começar a jantar e a dormir um pouco mais tarde nos dias anteriores à partida. Se, contudo, a viagem for para um país do outro lado do mundo, a regra é procurar seguir o ritmo do local, avisa o coordenador do Cives, Fernando Martins.

    Chegando de manhã ao destino, permaneça ativo e exponha-se à luz solar.

    Se houver algum compromisso previamente marcado, como uma reunião, convém não viajar em cima da hora. Alguns indivíduos também podem se valer de indutor do sono, lembra o infectologista Jessé Reis Alves, o que, no entanto, precisa ser prescrito por um médico.

     

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