O visto da saúde
Antes de fazer as malas, convém arrumar espaço para algumas medidas indispensáveis à manutenção do bem-estar durante a viagem e no retorno para casa
No filme Encontros e Desencontros, da diretora Sofia Coppola, os protagonistas não conseguem se adaptar ao fuso horário e à vida de Tóquio. Ao longo de toda a projeção, Bill Murray e Scarlett Johansson quase não dormem e vagam pelo hotel ou pelos canais de tevê, agravando o sentimento de estarem esquecidos do outro lado do mundo. Parecem viver um jet lag crônico, aquele desconforto causado por viagens que determinam uma mudança forte no ciclo de sono-vigília.
Se, contudo, eles tivessem recebido aconselhamento profissional, talvez pudessem se sentir menos desorientados - mas aí a história seria outra... Ocorre que pouca gente pensa nesses problemas antes de viajar.
Ainda que seja a trabalho, trata-se de uma hora feliz, de fazer planos, superar desafios, traçar roteiros, experimentar coisas novas. Mas é justamente para manter esse alto-astral que o preparo para uma grande viagem passa obrigatoriamente por alguns cuidados anteriores. A começar pela informação. "É impensável alguém viajar para um local sobre o qual não tenha nenhuma informação", sustenta o infectologista e coordenador do Centro de Informação em Saúde para Viajantes (Cives) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fernando Martins.
Em relação à saúde, o próximo passo está mesmo em um consultório. "Recomendamos que as pessoas procurem orientação médica especializada pelo menos um mês antes de embarcar, pois podem ser necessárias algumas vacinas, e que façam uma avaliação odontológica", resume o infectologista Jessé Reis Alves, que responde pelo Check-up do Viajante e pelo Serviço de Vacinação do Fleury.
A avaliação clínica pode ser feita por um médico de confiança, até porque as estatísticas mostram que o maior motivo de morte entre viajantes não é nenhum vírus estranho, mas as doenças cardiovasculares (49%), seguidas dos traumas (25%), causados principalmente por acidentes de trânsito e afogamentos.
Apesar disso, há outros riscos que, se não chegam a ser fatais, têm potencial para atrapalhar - e muito - a viagem e a volta. E são eles que tornam útil a orientação de um especialista em Medicina do Viajante.
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O passo a passo para uma boa viagem
Informe-se sobre o local para onde quer ir e, pelo menos, um mês antes de partir, passe por avaliação médica especializada e Check-Up odontológico
Verifique a cobertura de seu plano de saúde no exterior e preencha a última página do passaporte com os dados da pessoa a ser avisada em emergências. Alguns países europeus estão exigindo a comprovação de cobertura de plano de saúde
Antes de viajar converse com seu médico para obter orientações sobre medicações a serem levadas em caso de necessidade. Deve-se ter o cuidado de portar quantidades a mais de remédios de uso crônico, devido à possibilidade de imprevistos e dificuldade de comprá-los em outros países. Esse tipo de medicação deve ter as prescrições em inglês, preferencialmente
Se o vôo for muito longo, movimente-se durante a viagem para melhorar a circulação e evitar a formação de coágulos nas pernas - a trombose venosa profunda
Uma vez em seu destino, tome cuidado com animais silvestres, peçonhentos e até domésticos, sobretudo se levar crianças
Respeite os limites naturais: esteja pronto para enfrentar mudanças bruscas de temperatura, use protetor solar invariavelmente e tenha cuidado com altitudes
Não pratique atividades esportivas sem preparo e equipamentos adequados, a exemplo de natação, mergulho e alpinismo
Em um país de mão invertida no trânsito - como Austrália, Japão, Índia e Inglaterra -, não dirija sem antes passar por um período de adaptação
Falando nisso, conheça e respeite as leis e costumes locais
Procure ter à mão endereços e telefones das representações diplomáticas do Brasil mais próximas na(s) cidade(s) que visitar
Fontes: Jessé Reis Alves (Fleury) e Fernando Martins (Cives-UFRJ). |

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O mapa epidemiológico do planeta
Veja, no mapa acima, os problemas mais comuns em diferentes países e as medidas de proteção preconizadas pelos especialistas em Medicina do Viajante. Convém lembrar que a indicação de vacinas precisa levar em conta o estado geral de saúde de cada indivíduo e o histórico de imunização.
Febre amarela - Vacina*
Malária - Orientações específicas: aplicação de repelentes especiais e uso de medicamentos
Encefalite japonesa - Vacina (não aplicada no Brasil)
Gripe aviária - Vacina contra a gripe humana e orientações específicas: não consumir aves e ovos malcozidos e evitar áreas com grande concentração de aves
Febre tifóide - Vacina e medidas de proteção contra a diarréia
Sarampo - Vacina
Encefalite do carrapato - Vacina (não aplicada no Brasil) e orientações específicas: proteção em áreas rurais
Poliomielite - Vacina
Meningite meningocócica - Vacina
Hepatite A - Vacina
Dengue - Orientações específicas: uso de repelentes e medidas contra a entrada de insetos no interior dos ambientes
Cólera - Medidas de proteção contra a diarréia
Raiva - Vacina
Doenças sexualmente transmissíveis - Preservativo**
Diarréia - Medidas de proteção**
(*) Alguns países exigem o certificado de vacinação contra a febre amarela para o turista proveniente de áreas endêmicas. É o caso da Índia e da Austrália, por exemplo. (**) Em qualquer região do mundo |
Educação
Independentemente do roteiro, qualquer pessoa que cruza os ares está exposta a uma série de doenças infecciosas que podem ser transmitidas por insetos, animais, ingestão de água e alimentos contaminados, por via respiratória e até contato sexual, enumera a infectologista e responsável pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Melissa Mascheretti. Felizmente é possível prevenir todas essas moléstias, algumas com imunização e a grande maioria com orientações específicas.
"As vacinas são importantes, mas envolvem apenas um segmento da Medicina do Viajante, cujo principal objetivo é mesmo a educação", sustenta Melissa. "Quem sabe que está em uma área de risco para alguma doença não vai negligenciar a própria saúde diante de qualquer sinal de alerta", entende.
Assim, o especialista consegue relacionar o histórico de saúde e de vacinação do turista com o roteiro, fornecendo recomendações personalizadas que consideram escalas e etapas intermediárias, estação do ano, clima da região e locais a serem visitados, além das atividades que serão realizadas - de esqui e mergulho a trabalhos voluntários. Até os riscos de natureza sociopolítica são levados em conta. "O médico que trabalha nessa área está sempre em contato com fontes de informação simultânea sobre a existência de surtos e de problemas de saúde em qualquer local do mundo", adiciona Jessé Alves. Na mala, esses dados viram proteção.
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Sem dor de barriga
Segundo alguns estudos, sete em cada dez pessoas que viajam têm diarréia, um mal corriqueiro que é causado, sobretudo, por agentes infecciosos que ingressam no organismo por meio de alimentos ou água contaminada. Acontece que os turistas ficam mais vulneráveis a bactérias comuns, vírus e parasitas. "Quando você vive em um lugar, seu corpo está equilibrado em relação aos microorganismos desse local, mas não quando vai para uma outra região, na qual há microorganismos diferentes", explica o infectologista Fernando Martins. Assim, qualquer descuido facilmente pode roubar alguns dias das férias ou atrapalhar a viagem de negócios. Portanto:
- Lave bem as mãos sempre, especialmente antes das refeições
- Procure não comer alimentos crus ou malcozidos, sobretudo carnes e ovos, assim como derivados de leite
- Tome apenas água mineral e bebidas engarrafadas, sem pedras de gelo
- Tenha cuidado com a água usada em sorvetes e sucos. Na dúvida, opte por produtos industrializados
- Em qualquer cidade do mundo, evite consumir bebidas e alimentos ofertados por vendedores ambulantes
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Para driblar a diferença de fuso
Antes de viajar para um local com diferença importante de horas, os especialistas recomendam iniciar a adaptação do organismo com antecedência para minimizar os efeitos da mudança de fuso, conhecidos como jet lag. Quem vai para a Europa, por exemplo, deve começar a jantar e a dormir um pouco mais tarde nos dias anteriores à partida. Se, contudo, a viagem for para um país do outro lado do mundo, a regra é procurar seguir o ritmo do local, avisa o coordenador do Cives, Fernando Martins.
Chegando de manhã ao destino, permaneça ativo e exponha-se à luz solar.
Se houver algum compromisso previamente marcado, como uma reunião, convém não viajar em cima da hora. Alguns indivíduos também podem se valer de indutor do sono, lembra o infectologista Jessé Reis Alves, o que, no entanto, precisa ser prescrito por um médico. |