Uma nova aliada
Vacina contra o HPV é importante instrumento na prevenção do câncer de colo uterino
Ao longo da história da humanidade, dezenas de doenças transmissíveis foram controladas ou sumiram do mapa graças à possibilidade de estimular as defesas naturais contra determinados agentes infecciosos, o que é conseguido com as vacinas. A mais recente novidade nessa área foi o lançamento da vacina contra o papilomavírus humano (HPV), um patógeno sexualmente transmissível que está relacionado com mais de 95% das ocorrências de câncer de colo de útero. No Brasil, ainda são registrados mais de 19,2 mil casos dessa doença a cada ano.
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| Luisa Lima Villa, diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer |
O produto, que está chegando ao País, é uma imunização quadrivalente que protege a mulher de quatro subtipos do HPV (6, 11, 16 e 18), sendo os dois primeiros associados a 90% das verrugas genitais e os últimos responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo uterino. Em breve, também deverá chegar em solo nacional outra vacina, com cobertura para os tipos 16 e 18 (Vacina Bivalente contra o HPV ou Cervarix, no exterior). "As duas, porém, conferem imunidade de praticamente 100% contra a evolução maligna das lesões causadas por esses subtipos de HPV relacionados com o câncer feminino", sustenta o infectologista responsável pelo Serviço de Vacinação do Fleury, Jessé Reis Alves, acrescentando que quem mais se beneficia dessa proteção é a mulher que nunca se expôs ao vírus.
A probabilidade de ter tido contato com o HPV é grande para quem já iniciou sua vida sexual. Estima-se que 50% das pessoas sexualmente ativas vão adquirir o vírus em algum momento, embora apenas uma pequena parte desse grupo, formada, sobretudo, por mulheres, irá desenvolver lesões precursoras de câncer. "A anatomia dos genitais masculino e feminino, entre outros fatores, pode explicar essa agressividade diferente: na mulher, o órgão de choque, o colo uterino, é interno e a mucosa é mais delicada, ficando em meio úmido e sob a ação cíclica dos hormônios femininos, o que a torna mais propensa à atividade viral", explica o assessor médico da Urologia do Fleury e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o urologista Homero Guidi.
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| Homero Guidi, assessor médico da Urologia do Fleury |
O foco da novidade, portanto, está na população feminina que ainda não tem atividade sexual. Na prática, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a imunização de meninas e jovens mulheres de 9 a 26 anos, faixa etária na qual os estudos demonstraram a eficácia do produto. "Mas há dados preliminares que indicam que a vacina é eficaz também em pessoas previamente expostas a algum tipo de HPV, que, assim, ficariam protegidas contra os demais tipos", informa a diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, Luisa Lina Villa, que coordenou o trabalho de alguns centros de pesquisa brasileiros em duas fases dos ensaios clínicos da vacina da Merck. Por outro lado, pondera Luisa, a imunização não possui efeito terapêutico.
Sem preconceito
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| Jessé Reis Alves, responsável pelo Serviço de Vacinação do Fleury |
Para quem torce o nariz ao fato de vacinar uma garota de 10 ou 12 anos contra uma doença sexualmente transmissível (DST), Jessé Alves faz um lembrete oportuno: "A hepatite B é basicamente uma DST e ninguém questiona a vacinação de recém nascidos, que inclusive está no calendário oficial". A preocupação - se existir - deve estar mesmo na abordagem do assunto com as jovens que não podem achar que a imunização dispensa o uso de preservativo, o rigor na escolha dos parceiros e o acompanhamento ginecológico anual. "A vacina é um avanço aguardado há anos, mas seria um grave engano descuidar das outras medidas de proteção contra as DSTs", sustenta Guidi. Afinal, é a associação dos cuidados, que agora contam com esse importante reforço, reduzindo a quase zero o risco de apresentar graves complicações da infecção pelo HPV.
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Esse tal de HPV
Da família Papilomaviridae, os papilomavírus humanos abrangem mais de 200 subtipos. Boa parte produz apenas verrugas pelo corpo, mas cerca de 20 a 30 tipos se alojam na área genital. Dois deles, o HPV-16 e o HPV-18, estão mais implicados com o câncer de colo uterino. A forma mais comum de transmissão é o contato sexual. Mas também costuma ser encontrado vivo e viável em roupas íntimas, sabonetes, objetos, instrumentos médicos e até nas mãos, o que explica a possibilidade de contrair mesmo em relações sexuais com preservativo. O vírus causa coceira e irritação, na fase inicial, até verrugas genitais, que podem sangrar. Tudo perfeitamente tratável, convém acrescentar. Contudo, nem sempre a infecção traz sintomas. Daí a importância do acompanhamento ginecológico periódico. |
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Ficha técnica da vacina anti-HPV
Nome: Gardasil Fabricante: Merck Sharp & Dohme Público-alvo: população feminina de 9 a 26 anos, antes do início da vida sexual Doses: três (0, 2 e 6 meses) Eficiência: 100% de proteção contra verrugas e lesões pré-cancerosas causadas pelos subtipos 6, 11, 16 e 18 do HPV Efeito colateral: dor de pequena intensidade e calor no local da aplicação Reforço: inicialmente, a cada cinco anos |