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O código genético do Brasil 
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Publicado em: 14/08/2008   

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No bicentenário da chegada da família real ao Brasil, Fleury Saúde em Dia entrevista o jornalista Laurentino Gomes. Autor do livro 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil, gomes conta como esses personagens fizeram do Brasil o que ele ainda é hoje

Resultado de uma investigação de uma década, 1808, lançado em fevereiro de 2007, tornou-se a obra de não-ficção brasileira mais vendida nas livrarias de todo o país durante o ano. Foram mais de 200 mil exemplares em menos de quatro meses. A publicação também foi lançada em Portugal e ganhou selo oficial das comemorações do bicentenário da mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. No livro, o jornalista Laurentino Gomes conta em detalhes as razões, as conseqüências e as grandes transformações provocadas pela fuga da família real para o Brasil 200 anos atrás. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre a temporada que passou em Lisboa, as incríveis descobertas ao longo da pesquisa e o contato com raridades como o primeiro tratado de Medicina publicado no país, em 1808, de autoria de Manuel Vieira da Silva. “Para o bem e para o mal, somos herdeiros de 1808. É como se fosse o nosso código genético”, afirma o autor.


Fleury Saúde em Dia: O livro 1808 vendeu mais de 300 mil exemplares e é um sucesso editorial. Você esperava essa repercussão?
Laurentino Gomes: Confesso que fiquei surpreso. Não imaginava que um livro sobre história do Brasil permanecesse tanto tempo na lista dos mais vendidos. É um bom sinal. Significa que as pessoas estão buscando no passado explicações que precisam para entender o presente.

Fleury: A procura pela obra significa que as pessoas estão mais interessadas na história do Brasil?
Gomes: Problemas brasileiros que julgamos muito atuais – como a corrupção, a troca de favores, a criminalidade e a desigualdade social – já estavam profundamente fincados na realidade nacional 200 anos atrás. Os 13 anos que D. João e a corte portuguesa permaneceram no Brasil foram um período de muita corrupção e promiscuidade entre os negócios públicos e privados. Já naquela época, o Rio de Janeiro era uma cidade violenta, em que as pessoas eram assaltadas na rua ou podiam ser atingidas por pedradas disparadas ao acaso, tanto quanto hoje podem ser vítimas de balas perdidas. Mas também nasceu ali o país grande, integrado e relativamente tolerante que temos atualmente. Para o bem e para o mal, somos herdeiros de 1808. É como se fosse o nosso código genético.

Fleury: Como a vinda da família real portuguesa mudou nossos costumes?
Gomes: Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas e aceleradas. Elas começaram logo no ano da chegada da corte portuguesa, com a abertura dos portos, a autorização das manufaturas, a criação de escolas de medicina e engenharia e a inauguração da Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal a circular no Brasil. Com isso, o país se abriu para o mundo e passou a ter contato com as novidades que até então eram proibidas nas colônias portuguesas. De uma hora para outra, uma colônia atrasada começou a se transformar num país pronto para a independência.

Fleury: Se a família real não tivesse fugido de Portugal para o Brasil, como o país seria hoje?
Gomes: Sem a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, o Brasil provavelmente teria se fragmentado em três ou quatro repúblicas menores, a exemplo do que aconteceu com a América espanhola. Até 1807, as rivalidades regionais eram enormes e não havia um sentido de identidade nacional que unisse todas as províncias da colônia portuguesa. Ao desembarcar no Rio, a corte passou a funcionar, pela primeira vez, como um centro aglutinador dos interesses da elite colonial. Esse foi um dos fatores que contribuíram para a unidade nacional depois da independência, em 1822. Portanto, este país integrado e de dimensões continentais, que hoje é o grande herdeiro da cultura portuguesa no mundo, deve sua existência à fuga de D. João.

Fleury: Como era a medicina e a saúde pública no Brasil em 1808?
Gomes: No ano da chegada da corte, a saúde no Brasil era absolutamente precária. Não havia médicos formados e os poucos tratamentos disponíveis estavam confiados aos barbeiros-sangradores. Esses profissionais eram, na maioria, escravos que exerciam, simultaneamente, a função de barbeiros e uma forma rudimentar de medicina, que consistia em sangrar as pessoas usando ventosas na tentativa de purgar os fluídos corporais dos chamados “maus humores”. Era mais uma espécie de curandeirismo do que de medicina.

Fleury: E como a chegada da família real mudou essa realidade?
Gomes: O calor associado à falta de higiene gerava problemas colossais. Em 1798, dez anos antes da chegada da Corte, o relatório de um grupo de médicos dizia que as doenças mais comuns no Rio de Janeiro eram sarna, erisipelas, empigens, boubas, morphéa, elefantíase, formigueiro, bicho dos pés, edemas de pernas, hidrocele, sarcocele, lombrigas, hérnias, leuchorréa, dysmnorréa, hemorróidas, dispepsia, vários efeitos convulsivos, hepatites e diferentes sortes de febres intermitentes e remitentes. O pesquisador carioca Nireu Cavalcanti encontrou no Arquivo Nacional documentos que ajudam a dar uma noção do que era a medicina no Rio de Janeiro na época.
Os apetrechos usados incluem um serrote grande, chave de dentes, duas facas retas, duas tenazes, uma unha de águia, dois torniquetes, uma chave inglesa e uma tesoura grande. Outro inventário serve para dar uma idéia de como era o sortimento de uma farmácia daquele tempo. A lista inclui cascas, emplastos, fungos, minerais, óleos, raízes, sementes e um item chamado “animais e suas partes”, com “óleo humano”, “lixa de lagarto”, “olhos de caranguejos brutos”, “raspas de ponta de veado” e “dentes de javali”. Com a chegada da família real tudo isso começou a mudar. O saneamento, a saúde, a arquitetura, a cultura, as artes, os costumes, tudo mudou para melhor – pelo menos para a elite branca que freqüentava a vida na corte.

Fleury: Como foi conciliar o trabalho de jornalista com o livro?
Gomes: 1808 é a investigação jornalística mais longa, profunda e exaustiva que fiz nos meus 30 anos de carreira profissional (Laurentino Gomes era diretor da unidade da editora Abril responsável por revistas como Bravo!, Casa Claudia e National Geographic, entre outras). Foi uma aventura divertida e emocionante, em que me vi totalmente cativado e envolvido pelos personagens. Na Biblioteca Mindlin, passei muitas manhãs inesquecíveis de pesquisa e tive a oportunidade de consultar, entre outras raridades, o primeiro tratado de Medicina publicado no Brasil, em 1808, de autoria de Manuel Vieira da Silva, e a edição original de A concise and accurate account of the proceedings (...), do tenente da Marinha Britânica Thomas O’Neill, publicada em Londres em 1810. Livros como esses foram fundamentais na minha pesquisa.

Fleury: Em 1999, você morou quatro meses em Lisboa. Como foi a experiência e o quanto ela contribuiu para a pesquisa?
Gomes: Morar e trabalhar algum tempo em Portugal me ajudou a entender um pouco mais as origens da cultura brasileira. Basta você caminhar um pouco pelas ruas e ladeiras de Lisboa para perceber isso. A fachada das casas e das vitrines, o jeito de falar e se comportar das pessoas, a música, os sons, o ambiente, tudo lembra o Brasil. E não é por acaso que o Brasil é hoje o grande herdeiro da cultura portuguesa no mundo. Nossas raízes estão profundamente arraigadas em Portugal.

 

 

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