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'Ligado as 93'
O empresário e bibliófilo dá palestras pelo Brasil, acompanha o crescimento dos bisnetos e ainda sonha em mudar o País. E aconselha: os idosos devem buscar novos interesses para continuar ativos.
É comum que pessoas perguntem ao empresário e bibliófilo José Mindlin qual sua idade. Afinal, apesar dos cabelos ralos e brancos, ele está habituado a dividir uma mesma semana entre palestras em Belém, no Pará, e a organização de sua rica biblioteca, em São Paulo, além de reuniões com a família. Aos curiosos, ele costuma responder: “Olha, a minha idade cronológica está nos documentos, mas eu não fico pensando nela”. E aconselha: “A pessoa não deve se entregar ao fato de que é idosa: tem que continuar uma vida ativa”. Em tempo: os documentos de José Mindlin demonstram que ele tem 93 anos.
O segredo para driblar o tempo parece simples: manter o interesse pelo mundo ao redor. No caso de Mindlin, a paixão recaiu sobre os livros e os destinos do Brasil. Em oito décadas, ele formou uma das mais importantes coleções dedicadas à história e à literatura do país. Mergulhar nos 45 mil livros é uma grande motivação, mas também há outra: dividir com a sociedade o conhecimento que dorme em todos aqueles volumes. Por isso, no ano passado, parte da biblioteca foi doada à Universidade de São Paulo (USP) para consulta pública. “Tenho me concentrado na difusão da leitura. Acho que essa é a grande prioridade brasileira”, diz. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Mindlin concedeu à Fleury Saúde em Dia.
Fleury Saúde em Dia: O senhor mantém atividades sociais e intelectuais intensas. Qual a motivação para isso? José Mindlin: As atividades que exerci em paralelo à advocacia e à prática empresarial foram na realidade meus interesses centrais de vida. E continuam sendo até hoje. Me perguntam, às vezes, qual é a minha idade – eu digo: “olha, a minha idade cronológica está nos documentos, mas eu não fico pensando nela”. Eu continuo a viver normalmente, às vezes com a impressão meio pretensiosa de que sou muito mais jovem do que comprovam os papéis.
Fleury: Qual é o segredo disso? Mindlin: Eu continuo a me interessar pelo mundo, pela sociedade. Sou muito solicitado para dar palestras, e tenho me concentrado mais na leitura e na sua difusão. Acho que essa é a grande prioridade brasileira: não só a alfabetização total, mas também que os alfabetizados aprendam a ler, adquiram o hábito. Porque eu não vejo forma melhor de o país mudar, senão por meio da formação de um eleitorado consciente. Eu sei que isso tem um bom conteúdo de sonho, mas uma boa parte da realidade de hoje foram sonhos de ontem.
Fleury: A leitura tem sido a grande motivação? Mindlin: Ah, sem dúvida! Mantém aceso um interesse por um mundo diferente do real, em que a gente vive com rotinas inevitáveis. Numa cidade como São Paulo, em que a vida está ficando muito difícil, quando a pessoa mergulha numa história apaixonante, ela se esquece do resto. E, ao mesmo tempo, a leitura sempre ampliou minha capacidade de imaginar e sonhar. A rotina profissional é muito absorvente. Mas eu nunca me deixei absorver totalmente: sempre reservei uma faixa do meu tempo para cultivar a leitura.
Fleury: Um livro é um grande companheiro? Mindlin: Sim, desde a infância. E é uma coisa que deveria ser estendida a toda a população. O hábito de leitura muda a vida das pessoas. E eu, então, sempre tive o livro comigo. Quando estava na Faculdade de Direito – onde os professores liam durante 50 minutos as preleções que depois eu podia ler em casa em 15 –, eu me sentava no fundo da sala e ficava lendo boa literatura. Brinco sempre que aprendi mais literatura do que Direito na faculdade, e o que fiquei sabendo de Direito eu estudei em casa.
Fleury: O contato que o senhor mantém com os jovens também é motivador? Mindlin: Ah, isso é motivador. A gente vê o desenvolvimento da infância para a juventude por meio de filhos, netos e mesmo bisnetos. São coisas que mantêm vivo o meu interesse. Eu, a vida inteira, procurei inocular no maior número possível de pessoas o vírus do amor ao livro. É um vírus que faz se sentir bem, ao invés de se sentir mal, como os outros fazem. E, além disso, é incurável: quem pega esse vírus vai gostar da leitura e dos livros pelo resto da vida – como aconteceu comigo.

Fleury: O senhor faz atividades físicas? Mindlin: Caminho. Eu fiz muita ginástica na vida. E caminho aqui no jardim: uma volta em torno da casa completa 100 metros. E faço 20, 30, até 40 voltas.
Fleury: Atualmente, o senhor é presidente do Conselho Editorial da Editora da Universidade de São Paulo (USP). Quais outras atividades faz questão de cultivar? Mindlin: Tenho muito interesse em arte. Eu, há muitos anos, sou presidente da Sociedade de Cultura Artística. Fui eleito, sem ter procurado isso, para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Acho que a Academia pode exercer um papel muito ativo na difusão da cultura. E, com isso, já dá para encher a vida: eu viajei muito, tenho feito palestras até em Belém sobre livros e leitura.
Fleury: Recentemente, o senhor doou sua biblioteca, com um acervo rico e importante, para a USP. O que isso significa para o senhor? Mindlin: Eu sempre tive uma preocupação social. Mesmo nos 46 anos de empresa, eu defendia a tese de que a empresa não era uma finalidade em si mesma, que ela era um instrumento de desenvolvimento social. E, para cumprir essa missão social, é óbvio que ela precisava funcionar bem, gerar lucros, manter um relacionamento bom com os funcionários,pagar impostos sem restrição. Então, nós achamos aqui que a limitação da biblioteca à família – mesmo com acesso liberado para pesquisadores, que nós temos permitido durante anos – não teria o alcance coletivo suficiente. Nós nunca tivemos o fetiche da propriedade. Sempre acreditamos que éramos depositários de um acervo cultural de uma fonte de informação importante: tínhamos a obrigação de preservar o passado e transmitir esse acervo para o futuro.
Fleury: A população está envelhecendo no Brasil. Que conselho o senhor dá para que uma pessoa com mais de 60 anos se mantenha ativa? Mindlin: Bom, é preciso que a pessoa tenha interesses. Se ela exerceu um cargo público ou uma profissão na academia ou na empresa e concentrou seu foco apenas no trabalho, tem que buscar novos interesses. E, aí, a leitura, a meu ver, é o principal. E há as atividades complementares que a tecnologia desenvolveu: televisão, internet, continua a existir bom cinema. É preciso ver que o mundo proporciona não só entretenimento, mas informação que é útil e que preenche o tempo. A pessoa não deve se entregar ao fato de que é idosa: tem que continuar uma vida ativa. E, para isso, precisa ter determinação. Tem que cuidar da saúde. Mas eu acho que a pessoa preocupada com a idade passa a ter uma vida mais restrita: há coisas que não pode fazer, tem que criar muito mais juízo. E eu tenho evitado isso, não tomo conhecimento da idade, acompanho as atividades de meus filhos, netos e bisnetos - que ainda são pequenos, mas que já têm interesses que nos fascinam. |