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Um alerta para a saúde da Terra 
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Publicado em: 17/03/2008   

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Estudioso de longa da ta do meio ambiente e das mudanças climáticas , o jornalista Washington Novaes diz que o planeta é um organismo vivo, como o corpo humano, e explica de que forma o aquecimento global pode afetar a saúde da população.

Muito antes de o aquecimento global entrar na ordem do dia, virar tema de livros e filmes e motivar até a escolha dos vencedores do prêmio Nobel da Paz de 2007 (Al Gore e os cientistas do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU), o jornalista Washington Novaes já era um estudioso do assunto. Aos 73 anos, Novaes foi um dos primeiros brasileiros a se interessar por ecologia e um dos pioneiros no trabalho de divulgação dos problemas que o homem vem causando ao meio ambiente. Jornalista há 50 anos, Novaes já passou pelas redações dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, da revista Veja, do Globo Repórter e do Jornal Nacional. Dirigiu as séries de documentários Xingu (1984) e Xingu – A Terra Ameaçada (2007), e atualmente é comentarista do programa Repórter Eco, da TV Cultura. Radicado há 25 anos em Goiânia, ele acompanha de perto os efeitos do aquecimento global: onde mora, vem notando o desaparecimento da vegetação típica do cerrado. Nesta entrevista à Fleury Saúde em Dia, Novaes fala sobre os principais desafios para salvar o meio ambiente e os efeitos diretos que as mudanças climáticas têm na saúde da população.

Fleury Saúde em Dia: Como surgiu seu interesse por ecologia e meio ambiente?
Washington Novaes: Nasci no interior de São Paulo (em Vargem Grande do Sul) e pude ver o cerrado daquela região desaparecer. Mais tarde, já estudante de Direito na USP, na capital paulista, vi a cidade crescer descontroladamente e acompanhei os problemas resultantes dessa ocupação – os impactos no meio físico, na água, no solo e nos outros seres vivos. Apesar de o assunto estar em evidência atualmente, os problemas sempre existiram.

Fleury: Quais são os principais problemas no momento?
Novaes: Desde os anos 80, o IPCC vem alertando para as mudanças climáticas. Recentemente, os cientistas previram que a temperatura da Terra pode aumentar entre 1,5 e 4,5 graus Celsius neste século. Para quem acha que isso é pouco, basta lembrar o efeito que tem o aumento de 1 grau Celsius na nossa temperatura. A Terra também é um organismo vivo. Esse aumento de temperatura já está produzindo e produzirá secas, inundações, furacões. Além disso, hoje já se sabe que a população do planeta consome 25% a mais de recursos naturais do que a biosfera terrestre é capaz de repor, entre eles a água. Isso causa processos de desertificação e perda dos recursos hídricos.

Fleury: Quais as conseqüências do aquecimento global para a saúde da população?
Novaes: O aumento na temperatura da Terra e o desmatamento são bons exemplos. Os dois fenômenos fazem com que a distribuição do habitat de diversos animais mude e chegue cada vez mais perto de áreas urbanas. Com isso, parasitas e mosquitos transmissores de doenças como leishmaniose, dengue e malária começam a surgir em regiões onde não eram encontrados antes. O lançamento de esgoto não tratado em rios e oceanos é outro problema. Além de afetar as condições da fauna e da flora aquáticas, esse processo polui águas que muitas vezes são usadas para consumo. E isso é um problema de saúde pública em muitos países, inclusive no Brasil. E há ainda a poluição do ar, com índices preocupantes de doenças respiratórias nas grandes cidades.

Fleury: De que forma os padrões de produção e consumo afetam nossa alimentação?
Novaes: Atualmente, a população consome grandes quantidades de agrotóxicos, produtos químicos e aditivos. Não é à toa que a obesidade está se tornando um problema tão grave quanto a fome. E o aquecimento global traz ainda danos que têm custos difíceis de avaliar: qual é o impacto, para as crianças, de não ter mais a possibilidade de conviver com a natureza? Estamos privando as novas gerações do contato com o solo, a água, as matas. Isso certamente terá conseqüências.

Fleury: É possível reverter a situação?
Novaes: O Brasil é extremamente privilegiado do ponto de vista da natureza e dos recursos naturais. Estima-se que 12% da água superficial do planeta esteja aqui, temos entre 15% e 20% da biodiversidade do globo, sol o ano inteiro e somos um país de dimensões continentais. Temos condições de construir uma matriz energética totalmente limpa, não apenas por conta dos biocombustíveis, tecnologia que já possuímos, mas também por causa das excelentes condições de usar energias alternativas e ecológicas, como a eólica (que provém dos ventos), a solar e a das marés.

Fleury: De que forma as pessoas podem ajudar?
Novaes: É interessante ressaltar que quase todas as práticas benéficas para o meio ambiente significam mais dinheiro no bolso do cidadão. Um bom exemplo é a troca de lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes, mais econômicas. Pode ser que a pessoa tenha de fazer um investimento inicial, mas muito em breve essa mudança será refletida na conta de luz. Atualmente já existem vários eletrodomésticos eficientes, com baixo consumo de energia. E há ainda medidas simples, como desligar aquela luzinha vermelha de stand-by da televisão ou do aparelho de som. Tudo isso faz diferença.

Fleury: E a reciclagem do lixo?
Novaes: Isso é fundamental. É preciso haver leis que tornem os geradores de lixo responsáveis pelos próprios resíduos – tanto o gerador industrial quanto o residencial. Nos países onde isso é lei, como a Alemanha, as taxas de reciclagem são altíssimas e a população já está acostumada.

Fleury: O senhor fez dois documentários no Xingu, com uma diferença de mais de 20 anos entre a produção da primeira e da segunda série de programas. O que aprendeu com os índios, e de que forma as mudanças climáticas estão afetando a vida dessas populações?
Novaes: Na minha última estadia no Xingu, em 2006, vi que a população está sendo afetada pelo desmatamento, que afasta animais, pela poluição das águas do rio Xingu, que causa a mortandade dos peixes, e pela destruição das matas ciliares. Minha experiência por lá me fez ver que deveríamos ter mais respeito pelos hábitos das populações indígenas.Temos a tendência de observar os índios como gente primitiva. No entanto, eles têm uma organização social e uma relação com a medicina e a natureza que deveriam servir de exemplo para nós. Um índio jamais pode dar uma ordem a outro. O que há é a transmissão de conhecimento por parte dos mais velhos. Um índio adulto, sozinho, é capaz
de fazer a própria casa, cultivar uma roça, colher os alimentos de que precisa, caçar, pescar. É um tipo de consumo que respeita a natureza. Deveríamos aprender com eles.

 

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