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Publicado em: 05/07/2007  Atualizado em: 01/05/2005
Autor: Solange Arruda

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O diagnóstico precoce do câncer de mama traz uma grande possibilidade de cura, mudando a visão que se tem da doença

As mamas representam a mais forte evidência da feminilidade. Não apenas são a marca aparente de que uma garota deixou a infância para trás, como também a pura expressão da maternidade. Apesar de toda a aura de beleza que cerca o assunto, essa região tem sido cada vez mais alvo do câncer. A incidência mundial dos tumores mamários está projetada para 1,45 milhão de novos casos em 2010. Segundo os especialistas, o aumento, de 82% sobre o número observado em 1990, está relacionado com a mudança do perfi l da mulher, que hoje menstrua mais cedo e tem fi lhos mais tarde, fi cando mais exposta ao estrógeno, o hormônio feminino que, paradoxalmente, é o grande vilão dessa história.

O Brasil, infelizmente, tem participação expressiva nessa projeção. Aqui, o câncer de mama já é a segunda causa de morte entre as brasileiras. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, em 2003, houve 41,6 mil novos casos e 9.335 óbitos, que muito provavelmente seriam evitados se a doença tivesse sido diagnosticada em seu estágio inicial, quando a possibilidade de cura ultrapassa os 90%, garante a radiologista do Grupo de Mama do Fleury, dra. Marília de Campos. “O que determina a alta mortalidade no País é a fase avançada do câncer no momento em que as mulheres sesubmetem ao primeiro tratamento”, assinala a médica. De acordo com o Hospital do Câncer, 70% dos casos são detectados em estágios mais evoluídos, quando existe mais chance de o tumor se espalhar.

Cuide-se, mulher

Contra esse avanço, a “prevençãoprimária” é fundamental. Em matéria de câncer de mama, isso se resume a praticar atividade física, não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas com freqüência e controlar o peso, por causa do estrógeno. “A gordura é um lugar de depósito desse hormônio”, explica a dra. Marília. Aliado a tais cuidados, convém usar anticoncepcionais com parcimônia, assim como a terapia de reposição hormonal. “Mas só essas medidas não bastam”, é categórica a radiologista do Fleury. O câncer, afinal, não é como os problemascardiovasculares, que as pessoas realmente conseguem prevenir com uma mudança profunda de hábitos. A grande arma da mulher é a detecção precoce do câncer, preferencialmente durante o estágio em que, muitas vezes, ele nem sequer tomou a forma de um nódulo e ainda se encontra dentro dos ductos mamários, responsáveis pelo transporte do leite materno.

Além da enorme perspectiva de cura, o tratamento, nessa fase, não signifi ca mais a extração imediata da mama, a chamada mastectomia. “Em tumores de, no máximo, três centímetros, podemos fazer cirurgias conservadoras, que mantêm as mamas e permitem a preservação parcial dos gânglios”, conta o chefe da disciplina de Mastologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dr. Luiz Henrique Gebrim.

Há pouco mais de dez anos, mesmo em cânceres no estágio inicial, todos os gânglios linfáticos da axila eram retirados com a mama acometida, o que também comprometia a sensibilidade e o movimento do braço da mulher. “Hoje, usando uma técnica especial, conseguimos localizar o sentinela, ou seja, os primeiros gânglios afetados quando as células malignas escapam da mama”, esclarece o mastologista. Se esses linfonodos não estão comprometidos, os demais permanecem e o tratamento pós-operatório prossegue somente com radioterapia. “Com o conhecimento de como a doença evolui, temos uma especificidade terapêutica muito maior, já que tratamos as pessoas de forma personalizada, sem lançar mão da mastectomia e da quimioterapia como padrão”, observa o dr. Gebrim.

Rastreamento

O que observar no auto-exame: examine as mamas em frente ao espelho, deitada ou no banho, procurando sentir se existe algum caroço palpável. Por fora, observe a simetria dos seios, o aspecto da pele e a existência de algum inchaço. Por fim, aperte os mamilos em busca de alguma secreção
Mas só mesmo a investigação periódica das mamas pode levar o processo de abordagem do câncer de mama a ser, assim, mais promissor e menos agressivo. A Finlândia, por exemplo, conseguiu uma redução de 44% na mortalidade causada pela doença com um amplo rastreamento da população feminina, efetuado apenas com os métodos convencionais – auto-exame, avaliação clínica e mamografia. Claro que a ciência já criou recursos mais sofisticados, como os testes genéticos para detectar a predisposição a desenvolver tumores mamários, mas eles são recomendados em situações bem particulares. “Em torno de 95% dos casos de câncer de mama não têm a ver com a genética”, justifica o mastologista da Unifesp.

O melhor é que o rastreamento do câncer de mama é quase tão simples quanto a prevenção do câncer ginecológico. O auto-exame deve ser feito todo mês, já entre 20 e 25 anos, logo depois da menstruação – pois antes as mamas costumam conter alterações normais para a época do ciclo, explica a dra. Marília. Apesar de ser a chance de a mulher notar alguma diferença interna ou externa, sozinho o método tem baixa eficácia, porque pode gerar muita ansiedade ou uma sensação de falsa segurança, aponta o dr. Gebrim. Por isso mesmo, a medida não substitui o exame clínico, que precisa ser realizado anualmente por um médico bem treinado, de preferência um mastologista. A investigação se completa com uma mamografia anual, a partir dos 40 anos, segundo recomendação do Colégio Americano de Radiologia e Cirurgia. “Nos casos de histórico familiar (parentes de primeiro grau, mãe ou irmã), sugere-se que a primeira mamografia ocorra dez anos antes da idade em que a parente detectou seo tumor”, lembra a radiologista. Se a mãe teve câncer aos 45 anos, a filha deve começar a avaliação aos 35. “Nos Estados Unidos, o consenso tem sido de considerar 25 anos como idade mínima para o rastreamento mamográfico nessas situações”, complementa a dra. Marília.

A grande arma da mulher é a detecção precoce do câncer, preferencialmente durante o estágio em que, muitas vezes, ele nem sequer tomou a forma de um nódulo
A periodicidade da mamografia foi estabelecida conforme o intervalo em que um câncer ainda não palpável demora para crescer e se transformar em um nódulo, o que, nas mais jovens, leva em torno de 1,7 ano – menos tempo que nas mais velhas. Outro motivo para se submeter sistematicamente ao exame, alerta a dra. Marília, pois só esse recurso detecta as chamadas microcalcificações, que representam o câncer no estágio inicial. Essas minúsculas alterações, no entanto, são difíceis de ver e de interpretar. “As calcificações são como pintas na pele: dependem do tamanho, do aspecto e do crescimento”, atesta o dr. Gebrim. Assim, é vital fazer a mamografia em um bom serviço e, mais que isso, contar com um especialista para examinar em detalhes os achados.

Evolução

Se ainda não inventaram nada melhor que a mamografia para o rastreamento do câncer de mama, não dá para dizer o mesmo dos métodos para extrair parte da lesão encontrada com o intuito de estudar a natureza de suas alterações – a chamada biópsia. No começo da década passada, a mulher com suspeita de tumor maligno tinha de se submeter a uma cirurgia para retirar o nódulo e possibilitar sua análise. Se o exame do material retirado confirmasse o câncer, a paciente voltava ao hospital para completar o tratamento cirúrgico. Hoje é diferente, garante a dra. Marília. Existem recursos diagnósticos minimamente invasivos para efetuar a biópsia da mama, como a punção aspirativa por agulha fina, a biópsia de fragmento e a mamotomia. Em comum, os três recursos colhem células e/ou fragmentos do nódulo ou das microcalcificações por meio de uma punção na área da lesão, guiada por mamografia ou ultra-som, e podem ser realizados no laboratório, apenas com anestesia local.

Dessa maneira, só vai para cirurgia quem realmente precisa. Mesmo assim, a intervenção demanda somente dois dias de internação, segundo o dr. Gebrim, e, se a mulher desejar, já pode entrar na sala de operação com o cirurgião plástico para fazer a simetria das mamas. O fato é que, embora o diagnóstico de câncer de mama continue naturalmente assustador, ainda que no estágio inicial, há sempre um lado positivo a explorar. “Detectar essa doença precocemente muda seu prognóstico, muda a visão que a gente tem dela”, assinala a dra. Marília. Se antes o câncer era uma sentença de morte, hoje, quanto mais cedo se sabe de sua existência, mais ele é, ao contrário, uma sentença de vida.

"Há vida depois do câncer"
diz Maria Adelaide Amaral

“Sempre achei a mamografia um exame pré-histórico, muito incômodo, muito chato. Mas, se não fosse por ele, talvez não estivesse aqui”. Assim a escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral resume a importância do rastreamento do câncer de mama, doença que ela enfrentou em 1998, depois que a mesma mamografia apontou uma alteração em um nódulo já detectado três anos antes. “É sempre uma notícia ruim e difícil de ser digerida”, admite. “As mamas, afinal, são um ícone da feminilidade”.

Mesmo assim, Maria Adelaide preferiu ser operada no dia seguinte ao do resultado da biópsia. Como o câncer estava em fase inicial, a escritora passou por uma cirurgia conservadora e não precisou de quimioterapia. Uma semana depois, já estava na estréia de uma peça de sua autoria, no Rio de Janeiro, e 15 dias mais tarde, participava de uma reunião na Rede Globo. “O fato de ter um trabalho tão interessante e absorvente como o meu também ajuda a tocar a vida para frente”, atesta.

A experiência, contudo, mudou seu jeito de encarar a vida. “Aprendi a dar importância às coisas que realmente são importantes”. Hoje, quase sete anos depois, Maria Adelaide não só já ouviu de seu médico que está curada, como se sente curada de fato. Até fica apreensiva na hora de fazer os exames anuais, o que considera natural... “Rezo a Santa Terezinha, a quem fui agradecer minha cura no ano passado, em Lisieux, na França”, conta. “Só posso dizer que há vida depois do câncer”.

 

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