
Estatisticamente, temos maior chance de viver mais que nossos pais e avós. Mas chegar bem aos 60, 70, 80, 90 anos vai depender do que fazemos hoje
Quanto mais vivemos, mais queremos estar vivos e, na prática, as estatísticas demonstram que, de fato, a expectativa de vida aumenta à medida que os anos passam. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quando nascemos, temos uma esperança de viver até os 68 anos e, quando chegamos aos 80, podemos vislumbrar pelo menos mais seis anos pela frente. "Isso justifica todas as ações preventivas voltadas à saúde do idoso", observa o geriatra responsável pelo Check-Up Fleury, Nelson Carvalhaes Neto.
Acontece que, assim como na profissão ou nas finanças, o bem-estar futuro depende do presente. O que freqüentemente os médicos percebem é que as pessoas passam a primeira metade da vida comprometendo a saúde com hábitos errados e a segunda tentando consertar os danos. Mas essa máxima precisa ser substituída na flor da idade. "Cada um deve desejar seriamente envelhecer com saúde e, com base nisso, prevenir desde cedo o aparecimento ou o agravamento das principais doenças e se aprimorar na manutenção de suas capacidades funcionais, físicas, mentais e sociais", enumera o professor de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP, o médico Wilson Jacob Filho.
Esse compromisso tem de ser levado a sério em um país como o nosso. Ao contrário das nações desenvolvidas, que enriqueceram antes de envelhecer, o Brasil está envelhecendo antes de enriquecer. "Houve uma transição epidemiológica muito rápida, sem o suporte financeiro adequado, ou seja, passamos de um perfil de doenças infecto-contagiosas, típicas dos países subdesenvolvidos, para um perfil de doenças crônico-degenerativas, como diabetes, hipertensão, artrose e Alzheimer, típicas de países desenvolvidos", explica o geriatra do Fleury. A questão é que, nos males agudos, ou o indivíduo se cura ou sucumbe, enquanto os crônicos exigem controle, atenção médica constante e medicamentos - portanto, custam mais. "E não estamos preparados para os estados de grande dependência", continua.
Assim, o médico Carvalhaes Neto entende que a medicina e a sociedade devem perseguir o chamado envelhecimento bem-sucedido, de modo que as pessoas sejam autônomas até seu último dia de vida. Viver mais parece inevitável para todos nós. O IBGE calcula que, em 2020, o número de brasileiros com 60 anos ou mais vai dobrar, passando dos atuais 15 milhões para 30 milhões. Esse crescimento tem muita relação com a diminuição dos níveis de fecundidade e igualmente com a longevidade permitida pela melhora dos indicadores de saúde, tais como avanços sanitários e um melhor controle das doenças crônico-degenerativas.


Genética em segundo plano
Na prática, são nossos hábitos que determinam a quantidade e a qualidade da vida com o avançar da idade, explica Jacob Filho como, por exemplo, não fumar, exercitar-se com regularidade, controlar o peso e gerenciar os problemas de saúde que podem interferir negativamente nesse processo. Embora o patrimônio genético seja importante, ele contribui com apenas 25% da longevidade.
Da mesma maneira, não dá para esperar uma fórmula mágica para a prevenção das doenças crônicas, não obstante a evolução da ciência. Como os males mais comumente implicados com a terceira idade envolvem vários genes, ainda não é factível o desenvolvimento de medicações que possam corrigir todas as alterações genéticas que os desencadeiam. "Temos de agir sobre os fatores passíveis de mudança", resume o geriatra do Fleury.
Para a medicina, isso significa fazer a chamada prevenção primária, que efetivamente depende de cada um de nós. Nesse capítulo, valem todos os esforços de saúde que se somem às iniciativas pessoais, como campanhas de vacinação, políticas antifumo e estímulos diversos ao exercício. Como de praxe, a atividade física tem um papel fundamental na vitalidade. "Quanto mais ativo for o indivíduo que envelhece, maiores serão sua longevidade e funcionalidade", assinala o professor Jacob Filho. Segundo ele, a habilidade de uma pessoa de 60 anos que pratica exercícios regulares se cuidar e viver independente é a mesma de um sedentário de 40.
Médico todo ano
Associado ao que está ao alcance de todos, deve existir também a prevenção secundária, que consiste na detecção de doenças antes do surgimento dos sintomas, esclarece o geriatra do Fleury. Em alto e bom som, as pessoas precisam visitar um médico pelo menos uma vez por ano para uma avaliação geral.
Isso faz todo o sentido quando se constata que boa parte das enfermidades que causam conseqüências ao idoso - como hipertensões, diabetes e distúrbios do colesterol - é silenciosa e pode começar muito antes dos 60. Descobrir-se, por exemplo, hipertenso aos 35 faz toda a diferença no futuro, uma vez que vai permitir o controle da pressão arterial e, assim, a redução das conseqüências da doença 30 anos depois.
Completa o arsenal de cuidados para promover um envelhecimento bem-sucedido a prevenção terciária, fundamental para quem já teve alguma doença mais séria. Um exemplo clássico seria a fisioterapia no caso de um acidente vascular cerebral, o derrame. Segundo Carvalhaes Neto, essas medidas não apenas integram o tratamento, como mantêm ou restabelecem os movimentos do indivíduo, contribuindo para devolver-lhe a autonomia.
Junto com as ações preventivas, envolver-se com alguma atividade prazerosa e desafiadora é fundamental para o equilíbrio do corpo e da mente ao longo de toda a vida. Até porque, depois dos 60, ter algo a mais que não apenas a aposentadoria para usufruir contribui com a continuidade da nossa inserção social.
O fato é que, em matéria de longevidade e vitalidade, a forma como aproveitamos o tempo conta muito.
|
Nas finanças, a mesma independência A autonomia perseguida na saúde deve valer também para a vida financeira. Os especialistas recomendam começar a poupar o mais cedo possível para garantir uma renda adequada na aposentadoria. "Até porque grande parte da poupança que uma pessoa acumula aos 60 anos vem de retorno financeiro, e não do valor que ela guarda", atesta a consultora Carolina Mazza Wanderley, da Mercer Human Resource Consulting. O importante é criar uma reserva calculada sobre uma projeção realista do que se quer para o futuro. Aí, pode ser caderneta de poupança, plano de previdência ou investimento, desde que haja disciplina para só se lembrar desse dinheiro no momento certo. |
|
Exemplos de vitalidade Nicette Bruno e Paulo Goulart chegaram a este mundo no mesmo mês e ano, com apenas dois dias de diferença. Setenta e três anos depois continuam no auge, unidos pelo amor e pela carreira. Tanto que, em abril, serão homenageados pelo Prêmio Shell de Teatro, junto com filhos e netos, por suas vidas dedicadas à cultura brasileira. A verdade é que eles não param.
Em fevereiro, quando atenderam à reportagem da Fleury.com.você, Paulo ainda fazia a minissérie JK e Nicette, a novela Alma Gêmea, ambas da Globo. Paralelamente às gravações, Nicette brilhava em São Paulo na peça "Quarta-Feira, sem Falta, lá em Casa", ao lado de Beatriz Segal. Fora dos holofotes, a atriz ainda arruma tempo para dirigir um trabalho social na Casa da Fraternidade, em Pirituba (SP). Lado a lado, marido e esposa produzem e apresentam espetáculos no projeto Teatro nas Universidades, que em 2005 levou cultura gratuitamente a 40 mil estudantes de 37 faculdades, em três cidades. É agenda de dar inveja a qualquer executivo, mas que cumprem com prazer e disposição. De onde sai tanta energia?
O casal entende que a vitalidade e a vontade de realizar vêm de várias fontes. Do lado do corpo, os dois consultam regularmente uma geriatra há 18 anos e garantem: fazem toda a lição de casa em matéria de exames e tratamentos preventivos. Do lado da mente, vários fatores convergem para resultar nesse equilíbrio. Paulo afirma que, com a maturidade, enxerga o mundo de maneira mais compreensiva e dá menos valor ao que antes o incomodava. "Uma das coisas fundamentais para mim é ter a possibilidade de exercitar a alegria de viver", sublinha.
Nenhum dos dois esconde a importância da espiritualidade em suas vidas, assim como o estímulo do relacionamento que mantêm há 52 anos: "somos companheiros, parceiros, e quando um não está bem, o outro o leva para cima", conta Nicette. E completa: "é uma parceria de vida". Ator e atriz, no entanto, concordam que sua profissão contribui muito com o pique que demonstram e, de fato, sentem. "Somos como árvores: nosso ofício nos mantém em pé", resume Paulo. |