Mais do que incomodar as pessoas, este pode ser o alerta de um grave distúrbio respiratório
Você acabou de voltar de ótimas férias, raras vezes conseguiu se desligar tanto do trabalho. Mesmo assim, a fadiga e a dificuldade de concentração permaneceram. Pois saiba que uma das principais causas do cansaço crônico pode ser um distúrbio chamado apnéia obstrutiva do sono.
A boa notícia é que na maioria dos casos é possível perceber em casa se a pessoa sofre desse mal. O principal sintoma da doença, que atinge cerca de 3% da população (2% das mulheres e 4% dos homens), é o ronco. Não qualquer tipo, claro. "Roncar alto, associado à queixa de sonolência excessiva diurna, sugere o diagnóstico desse distúrbio respiratório", diz Rosana S. Cardoso Alves, assessora médica do Serviço de Polissonografia do Fleury e presidente da Sociedade Paulista de Medicina do Sono.
A relação entre esse ruído e a apnéia é enorme, já que o ronco está presente em 77% a 95% das pessoas que sofrem desse distúrbio - entre 35% a 44% são homens e 15% a 28% são mulheres.
Quando uma pessoa ronca, significa que ela está fazendo um esforço respiratório acima do normal. "O barulho ocorre pela vibração dos tecidos moles da região da garganta, provocado pelo fluxo de ar e esforço respiratório", explica Márcia Jacomelli, assessora médica do Serviço de Pneumologia do Fleury. "Há excesso de flacidez ou frouxidão nos tecidos da garganta. Não se sabe a causa exata do problema, mas fatores hereditários e físicos, como a obesidade, podem contribuir", completa.
A apnéia é a parada total da respiração, que perdura por, pelo menos, dez segundos e freqüentemente leva à queda na oxigenação do sangue. Nos casos classificados como graves, a diminuição de oxigênio fica acima de 3%. Entretanto, a interrupção respiratória, embora seja acompanhada de um microdespertar, na maioria das vezes, não é notada por quem sofre desse mal. "Isso pode ocorrer dezenas de vezes durante o sono sem que o indivíduo perceba", conta Márcia. E adverte: "Por causa desse sono interrompido e de péssima qualidade, no dia seguinte, ele sente sonolência e cansaço, sem entender por quê".
Para Rodrigo de P. Tangerina, médico do setor de Otorrinolaringologia do Fleury, além de afetar a saúde, a má noite de sono influencia negativamente no dia-a-dia da pessoa e pode ter sérias conseqüências.
"O indivíduo apresenta constante e excessiva sonolência diurna, que, além de diminuir a capacidade de trabalho, pode levar a acidentes de trânsito, por causa da falta de concentração e atenção". Segundo o médico Michel Burihan Cahali, otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas e do Hospital do Servidor Estadual de São Paulo, mais do que cinco microdespertares durante a noite já é um sinal considerado grave.
Além do cansaço, a apnéia tem outra conseqüência em longo prazo: prejudica o desempenho de alguns órgãos, como coração e pulmão. "A sobrecarga respiratória faz todos os outros sistemas do organismo sofrerem, principalmente o circulatório", explica Cahali. Entre as principais conseqüências de um sistema circulatório deficiente, ou seja, quando o sangue não chega aos órgãos do organismo no ritmo que deveria chegar, estão enfarte e derrame cerebral.
Onde está o problema?
A origem exata da apnéia ainda é desconhecida, mas se acredita que seja hereditária. Esse distúrbio aparece com mais freqüência em pessoas acima de 40 anos, quando a musculatura da faringe começa a perder naturalmente o tônus. Os obesos, principalmente aqueles que têm gordura em excesso na região do pescoço, também estão propensos a desenvolver esse mal. "Há mais pressão da gordura nos músculos da garganta, o que diminui o espaço da passagem de ar", detalha Cahali.
Fisicamente, de acordo com Rodrigo Tangerina, o típico paciente que procura atendimento devido ao ronco também possui pescoço curto e largo. No entanto, o especialista ressalta que a doença pode acometer qualquer pessoa, independente de estrutura corporal, sexo, idade e presença de alterações anatômicas.
O exame mais completo para avaliar a qualidade do sono é chamado de polissonografia, que realiza uma monitoração total do indivíduo enquanto ele dorme. No Fleury, o cliente passa a noite em um quarto especial, como se estivesse em um confortável apartamento de hotel. A monitoração é feita de forma não invasiva e indolor, por meio de pequenos eletrodos posicionados em algumas regiões do corpo.
No cérebro, por exemplo, servem para identificar as fases do sono, inclusive o microdespertar. Já os exames endoscópicos oronasais detectam eventuais disfunções das vias respiratórias e investigam desde as narinas até as pregas vocais. No coração, o equipamento acompanha a função cardíaca, e no dedo, mede a saturação de oxigênio do corpo (em quem sofre de apnéia, esse índice cai para até 70%, enquanto em pessoas sem distúrbios de respiração está entre 90% e 98%).
Já as cintas no tórax e no abdome detectam o esforço respiratório durante a passagem de ar. Por fim, um sensor calcula a intensidade do ronco, que será classificado de acordo com a intensidade: leve, quando é ouvido só no quarto, moderado, ouvido mesmo com a porta fechada, e forte, escutado fora da casa.
Eficiência dos tratamentos
Nas polissonografias realizadas pelo Fleury, são detectadas alterações respiratórias em cerca de 2/3 dos clientes. "Como a própria pessoa que ronca não percebe que tem a doença, quem procura ajuda médica, geralmente, tem sonolência constante ou porque o cônjuge reclama do barulho", relata Rosana.
Um dos tratamentos mais usados contra apnéia é a CPAP (em português, Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas). Trata-se de uma máscara de silicone acomodada no nariz, conectada a um aparelho, que deve ser usado durante a noite, e gera uma pressão transmitida à faringe que se abre para a passagem do ar. Outra medida, caso o CPAP não seja eficaz, é a cirurgia. Para tanto, a indicação desse procedimento pode ser diagnosticada por meio do exame de nasofibrocospia, que identifica eventuais alterações anatômicas na via nasal ou na faringe. "Esse exame é um importante recurso para revelar os fatores responsáveis tanto pela obstrução que gera a apnéia, como a intolerância de alguns clientes ao CPAP. Mais do que isso, ajuda na tomada de decisão cirúrgica, assim como o procedimento que deve ser realizado", explica Rodrigo Tangerina. O fato é que, em geral, a cirurgia tem mais efeito sobre o ronco do que sobre a apnéia.
Nem sempre o ronco é considerado um problema. Há pessoas que ressonam à noite, principalmente se estiverem deitadas de barriga para cima. Nessa posição, a língua cai um pouquinho para trás e a tendência é gerar um leve ruído.