Vaivém conturbado
Varizes nas pernas são causadas pela dificuldade do sangue em retornar ao coração
Você já deve ter ouvido falar que o coração bombeia o sangue para as artérias e vasos situados em todo o corpo. Se, na ida, tudo transcorre com facilidade, na volta, a missão de fazer o sangue venoso retornar dos pés e das pernas para o coração, vencendo a força gravitacional, é dependente da musculatura e facilitada pelo sistema de válvulas que dificulta a volta do fluxo sangüíneo para as extremidades.
Quando, porém, as paredes das veias são menos resistentes e, sobretudo, quando há um funcionamento inadequado das válvulas do sistema venoso, surgem as varizes, que nada mais são do que veias superficiais dilatadas de forma irreversível, nas quais o sangue tem dificuldade de retornar para o coração. "Trata-se de uma condição exclusiva de quem anda sobre as duas pernas", assinala o cirurgião vascular e professor-assistente da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Baptista Muraco Netto. De acordo com o radiologista do Fleury e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Roberto Bastos, especializado em ultra-sonografia vascular, as varizes são a conseqüência do comprometimento das válvulas em veias maiores dos membros inferiores.

No entanto, o médico lembra que diversos fatores igualmente podem contribuir para a ocorrência, tais como gestação, atividade ocupacional e obesidade.
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Fatores de risco para varizes
Sexo feminino
Hereditariedade
Idade avançada
Alterações hormonais (como ocorre na puberdade, gravidez, menopausa e vigência do uso de anticoncepcionais e de reposição hormonal)
Sedentarismo
Obesidade
Ocupação que exija grande esforço ou a permanência em pé por muito tempo
Traumatismos
Exercícios físicos muito intensos, como musculação com peso excessivo
Formação prévia de coágulo nos membros inferiores - a chamada trombose venosa
Uso constante de salto alto |
Na prática, a combinação de tais variáveis leva muita gente a desenvolver essa doença vascular. Alguns estudos apontam que as varizes incidem em quase metade da população adulta. De qualquer modo, há um consenso de que a condição atinge mais as mulheres e de que sua freqüência aumenta à medida em que a idade avança. Além disso, as mulheres tendem a procurar atendimento médico mais precocemente do que os homens que costumam postergar o tratamento. "Essa predominância feminina também se torna evidente pelo fato de a mulher procurar tratamento por razões estéticas, enquanto o homem tende a recorrer ao médico apenas quando tem dores e outros sintomas", analisa Roberto Bastos.
Quanto antes
Todavia, ainda que o objetivo seja estético, buscar orientação precocemente representa a medida mais acertada. "Uma veia superficial dilatada pode ser apenas o sinal de um problema venoso maior, que deve ser devidamente diagnosticado antes do planejamento terapêutico", resume o radiologista. Após a avaliação clínica inicial, os exames complementares de imagem têm papel fundamental na avaliação da doença varicosa.
Entre esses exames, destacam-se a ultra-sonografia com Doppler colorido, procedimento não invasivo, acessível e de grande precisão diagnóstica; a flebografia, que auxilia na avaliação de doença varicosa; as angiografias por tomografia computadorizada e a ressonância magnética, que permitem a avaliação de imagens tridimensionais e podem determinar com precisão a existência de eventuais tromboses, por exemplo.
Feito o diagnóstico, o que funciona para o tratamento, na opinião do cirurgião Muraco Netto, ainda são os métodos tradicionais, no caso, a cirurgia convencional para remover as veias varicosas de maior calibre, sobretudo as do sistema venoso superfi cial, onde se concentram as varizes. Felizmente, as inovações da medicina simplificaram as intervenções nessa área.
O cirurgião vascular e professor-assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Alexandre Fioranelli, conta que, entre as décadas de 1970 e 1980, as questões estéticas passaram a dividir a atenção dos vasculares, junto com a preocupação com a eficácia, e aceleraram a busca de técnicas que exigissem cortes menores. "Através de uma microincisão na pele, retiramos o vaso anormal" explica Fioranelli, que também opera no Fleury Hospital-Dia. Ainda que essa remoção quase artesanal dos vasos possa demorar, hoje os anestésicos são programados para o tempo do procedimento. Assim, quando a cirurgia acaba, o efeito da anestesia igualmente já está no fim.
Com isso, a pessoa vai para casa no mesmo dia e tem uma recuperação muito rápida - em até uma semana, já dá para retomar as atividades. "O fato é que hoje as operações não são mais radicais, como acontecia no passado, mas seletivas, só retirando as veias doentes", adiciona Muraco, da FMUSP. Desde que estejam sadias, portanto, as safenas são preservadas pois podem no futuro ser utilizadas para fazer reparos em vasos obstruídos de outros órgãos, como o coração.
O tratamento ainda pode incluir medicamentos para atenuar os sintomas e, na maioria das vezes, implica o uso de meias elásticas. Aliás, essas meias também previnem a formação de varizes, aponta Muraco, uma vez que contribuem com o retorno venoso e comprimem as veias. Outra medida preventiva universal está na prática de atividade física - movimentar-se, afinal, ajuda os músculos dos pés e pernas a bombear o sangue para cima. "A atividade muscular faz com que a panturrilha seja considerada nosso segundo coração, sendo um fator determinante no retorno venoso adequado e na prevenção das varizes. Esse também é um dos motivos da predominância de varizes nas mulheres que, de forma geral, apresentam menor massa muscular que os homens", arremata Roberto Bastos.
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E para os incômodos vasinhos?
Embora não causem dores, as microvarizes comprometem a boa aparência das pernas e levam muitas mulheres a procurar um especialista pela primeira vez para resolver o problema. Para eliminar esses vasinhos, os especialistas concordam que a técnica mais indicada é a escleroterapia, que consiste na aplicação de substâncias esclerosantes diretamente nos vasos dilatados. Uma vez injetados, esses fármacos produzem uma infl amação na parede interna da veia que, então, se fecha. De acordo com o cirurgião vascular Baptista Muraco Netto, o procedimento pode ser também efetuado por laser, porém em casos muito selecionados. |