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Biópsia de medula óssea (BMO) e sua relação com o aspirado de medula óssea (AMO) 
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Publicado em: 24/08/2007  Atualizado em: 05/11/2008
Autor: Assessores médicos em Hematologia e Hemostasia

Aspectos gerais
A avaliação ideal da medula óssea requer a integração das informações obtidas por ambos, o aspirado (AMO) e a biópsia por agulha (BMO), aliados ao reflexo da atividade deste complexo órgão traduzida pela avaliação do sangue periférico (SP).

De uma maneira geral, o AMO fornece informações mais precisas em relação às características citológicas e ao processo de maturação das linhagens hematopoéticas, determinações qualitativas/quantitativas dos blastos, avaliação semi-quantitativa dos depósitos de ferro.

Já a BMO oferece uma análise mais precisa da celularidade (relação tecido adiposo/tecido hematopoético), organização topográfica dos diferentes elementos celulares da MO, alterações do estroma (fibrose reticulínica e colagênica), alterações morfológicas/topográficas dos elementos maduros da linhagem megacariocítica  e lesões focais (metástases, infiltração por L. Hodgkin e L. não Hodgkin, granulomas).

A análise citológica do material de “imprint” da biópsia ou do coágulo obtido durante o procedimento podem complementar a análise mais acurada das características citológicas deste material, assim como fornecer material para técnicas moleculares como o FISH por exemplo. Este material é particularmente útil no caso dos aspirados “secos”, nos quais é difícil a obtenção de material, devendo complementar o procedimento da biópsia em todos os casos.

Embora ambos os materiais, AMO e BMO, sejam adequados para a realização de exames complementares, seja para a caracterização da linhagem de células anormais pela imunofenotipagem pelos métodos de citometria de fluxo (CMF) ou imunohistoquímica (IHQ), ou a caracterização de alterações genéticas, pelos métodos da citogenética convencional, FISH, ou outros métodos moleculares, cada material tem sua indicação prioritária para a utilização de cada uma destas técnicas.

Assim, a imunofenotipagem por CMF, por exigir que as células a serem avaliadas se encontrem em suspensão, é particularmente simplificada quando utilizada para avaliação de amostras já com células em suspensão, como o SP ou o AMO. E é particularmente útil na caracterização da linhagem dos blastos nas leucemias agudas, na avaliação dos linfomas de células precursoras B ou T, ou na definição da clonalidade e do perfil imunofenotípico nas diferentes formas de linfoproliferações crônicas como na LLC-B e nos linfomas não Hodgkin de células pequenas ou intermediárias, como o L. linfocítico de pequenas células, L. de células do manto, L. de células da zona marginal, Leucemia de células cabeludas e o L. esplênico de células vilosas.

Já os linfomas de alto grau, como os linfomas difusos de grandes célualas B, os  linfoma de células T, e o Linfoma de Hodgkin, são melhor avaliados na biópsia de medula óssea, com exame imunohistoquímico (IHQ) complementar.

O quadro 1 resume as principais diferenças entre as informações obtidas pelo AMO, BMO e exame do coágulo do material aspirado.

Quadro 1: Principais diferenças entre as informações obtidas pelo AMO, BMO e exame do coágulo do material aspirado

Componente / parâmetro

AMO

Imprints da BMO / coágulo

Coágulo

BMO

Razão gordura/células

inadequado

material ideal

Razão M:E

calculado pela contagem diferencial

valor estimado, menos preciso

Mielopoiese

estágios de maturação definidos com precisão

Blastos normais e pró-mielócitos não podem ser discriminados; entretanto estágios seguintes de maturação, ALIPS e blastos da LMA podem ser discriminados

Componente eritróide

estágios de maturação definidos com precisão

Identificável, mas os estágios de maturação não podem ser definidos

Megacariocitopoiese

estágios de maturação definidos com precisão

Megacarioblastos não identificáveis; todos os outros estágios são definidos como megacariócitos; ideal para identificar alterações morfológicas e de distribuição topográfica

Linfócitos

Pequenos e isolados, pode oferecer detalhes morfológicos; imunofenótipo e clonalidade pode ser determinado pela CMF

distribuição anômala, número e características morfológicas dos agregados linfóides; imunofenótipo pode ser determinado pela IHQ, mas não clonalidade

Plasmócitos

Facilmente identificáveis e enumerados, com acurácia na determinação de atipias e formas imaturas; clonalidade pode ser definida pela CMF

Podem ser contados

Facilmente identificáveis quando típicos. Importante a avaliação da distribuição e identificação de grupamentos (lençóis), anormais; clonalidade pode ser definifda pela IHQ

Tumor metastático

Menor sensibilidade (amostragem) e mais difícil a caracterização da histogênese

Identificável e quantificável

Reticulina

Inadequado

Ideal, quantificável*

Colágeno

Inadequado

Ideal, quantficável*

Granuloma

Raramente observados

Ideal, permite a pesquisa do agente etiológico

Reserva de ferro

Quantificável

Ideal para a detecção dos sideroblastos em anel

Não quantificável

Pode detectar sideroblastos em anel

Quantificação possível

Sideroblastos em anel - possível

Quantificação e detecção de siderblastos em anel – não é possível

Monócitos/Macrófagos

Identificáveis, passíveis de confirmação por histoquímica

Monócitos não identificáveis; macrófagos com corpos tingíveis identificáveis

Mesênquima e espaço estromal

Não avaliável

Pode ser identificado

Ideal

Vasos

Capilares podem ser vistos

Não identificáveis

Raramente vistos

Ideal, observados de rotina

Sinusóides

Não observados

Normalmente aparentes; dilatados nos casos de fibrose

Osso trabecular

Não avaliável

Presente, pode oferecer informação diagnóstica

Citoquímica

Ideal

Pode  ser realizada

Algumas colorações possíveis

CMF

Ideal

Inviável

Possível com desagregação de material não fixado

IHQ

Tecnicamente difícil, mas possível

Ideal

Diagnóstico molecular

Possível

Citogenética

Ideal

Inviável

Possível com material desagregado por vortex

*Score e Bouermaster para a graduação de reticulina e colágeno na MO

Grau

Características morfológicas

0

Ausência de reticulina demonstrável

1

Fibras finas individuais ocasionais e trama focal de fibras finas

2

Trama de fibras finas presente na maioria do fragmento. Fibras grossas ausentes

3

Trama de fibras finas difusa com fibras grossas esparsas. Ausencia de colágeno maturo

4

Trama de fibras grossas difusa com áreas de colagenização

Limites da normalidade: 0 e 1

Indicações para o exame combinado (AMO BMO)
1. Estadiamento, e eventualmente diagnóstico dos linfomas
2. Mieloma múltiplo e outras gamopatias
3. Doenças mieliproliferativas crônicas (DMC)
4. Síndrome mielodisplástica (SMD)
5. Pesquisa de metástases
6. Pesquisa de processo infeccioso (granulomas)
7. Citopenias de etiologia não esclarecida

Aspectos técnicos
1. O fragmento deve, idealmente ter 2 cm.
2. Manipular o fragmento com cuidado, evitando manobras bruscas (descolamento do tecido das trabéculas ósseas, hemorragia), e evitando o pinçamento.
3. Fixação curta (máximo 12 horas): formol tamponado a 10%, B5, e outros.
4. Descalcificação: EDTA parece ser o melhor método para a preservação dos antígenos para exame IHQ.
5. Biópsias bilaterais estão indicadas nos casos de estadiamento do L. Hodgkin, e quando o sangue periférico é normal e a biópsia de um dos lados revela aplasia.
6. Colorações de rotina: H&E, Gimsa, PAS, Reticulina, Tricrômico de Masson.
7. No estadiamento dos linfomas, cortar 6 níveis sempre que não for detectada infiltração na primeira lâmina

Exame imunohistoquímico complementar - cada vez mais útil na avaliação microscópica da MO

1. Principais indicações
• Leucemia aguda- identificar a linhagem dos blastos
• Metástase com tumor primário desconhecido
• Diagnóstico diferencial dos tumores de células  pequenas na infancia
• Linfomas – confirmação diagnóstica nos casos de dúvida e como auxiliar na classificação, particularmente nos linfomas de alto grau; a CMF é mais útil para os linfomas de baixo grau
• SMD – identificação da linhagem de células jovens para avaliação dos ALIPS, quantificação do CD34 (células progenitoras)
• Diferencial entre anemia aplástica e SMD – CD34 e PCNA

2. Painel básico de anticorpos
• Glicoforina ou hemoglobina
• Mieloperoxidase
• Fator VIII ou CD31 (MGC)
• CD61 (MGC)
• CD45
• CD20
• CD3
• CD34
• CD68
• CD15
• CD30
• CD56
• S100
• CD1a
• TdT
• CD99
• Citoqueratinas (AE1/AE3, 35Bh11, 34BE12

3. CD34 (normal até 1% das células nucleadas da MO)
• DMPC – Não estão aumentados, a menos na fase de aceleração ou de transformação para LA
• SMD – Aumentados na RAEB / RAEB-t; usualmente em níveis normais na AR / ARSA e LMMC

Referências
1. Cotelingam, JD. Bone marrow biopsy: interpretative guidelines for the surgical pathologist. Adv Anat Pathol 2003; 10:8-26.
2. Bartl R, Frisch B, Wilmanns W. Potential of bone marrow in cronic myeloproliferative disorders (MPD). Eur J Haematol 1993; 50:41-52.
3. Rosati S, Anastasi J, Vardiman. Recurring diagnostic problems in the pathology of the myelodisplastic syndromes. Seminars in Hematology 1996; 33:111-126.
4. Sah SP, Matutes E, Wotherspoon AC, Morilla R, Catovsky D.  A comparison of flow cytometry, bone marrow biopsy, and bone marrow aspirates in the detection of lymphoid infiltration in B-cell disorders. J Clin Pathol 2003; 56:129-32.

 

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