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Alta prevalência e longo período sem sintomas impõem rastreamento precoce do DM2

Publicado em: 01/11/2014
Por:
Dra. Milena Gurgel Teles Bezerra​

 
Na população geral, o diagnóstico da doença pode ser feito tanto pelos testes clássicos quanto pela dosagem de hemoglobina glicada, desde que observados alguns cuidados na interpretação.

A Federação Internacional do Diabetes estima que, em 2025, a prevalência de diabetes mellitus na população brasileira deva ficar em torno de 14% a 20%, superior à dos Estados Unidos no mesmo ano, calculada em 10% a 14%. Essas estimativas, combinadas ao longo período assintomático que caracteriza o tipo 2 da doença, fundamentam a necessidade de rastreá-la e diagnosticá-la precocemente. 

Ademais, a estratégia contribui para postergar e até evitar o aparecimento de complicações crônicas do diabetes, que estão diretamente relacionadas ao tempo de hiperglicemia, bem como para identificar e monitorar indivíduos com pré-diabetes. Nessas pessoas, afinal, medidas de modificação de estilo de vida, como a manutenção de uma alimentação saudável e a prática de atividade física, associadas a intervenções medicamentosas, podem retardar ou prevenir a evolução do quadro para diabetes. 

Com base nesses fatos, o rastreamento do DM2, segundo a American Diabetes Association (ADA), precisa ser feito em todos os indivíduos a partir de 45 anos de idade ou em pessoas de qualquer idade com IMC igual ou superior a 25 kg/m2, desde que haja algum fator de risco (tabela 1). 

A investigação pode ser realizada por meio da medida da glicemia de jejum (GJ), do teste oral de tolerância à glicose com 75 g (TTGO) e, mais recentemente, da dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c) (tabela 2). Na ausência de hiperglicemia inequívoca, resultados condizentes com o diagnóstico em qualquer um desses testes requerem confirmação por uma segunda dosagem. Da mesma forma, o achado de valores discordante implica a repetição do exame alterado.

E diante de alteração na glicemia casual?

Em pacientes com sintomas de diabetes, tais como poliúria, polidipsia e perda de peso inexplicada, valores de glicemia maiores que 200 mg/dL configuram o diagnóstico da doença, razão pela qual não há necessidade de repetição do exame nessa situação. Nos demais casos, porém, uma dosagem alterada deve ser confirmada em outra ocasião. 

Tabela 1. Fatores de risco para o DM:

• História positiva de diabetes em parente de primeiro grau
• Sedentarismo
• Grupos étnicos de maior risco (afro-americanos, latinos, índios, asiáticos e moradores das ilhas do Pacífico)
• Hipertensão arterial sistêmica (=140/90 mmHg ou uso de anti-hipertensivo)
• Dislipidemia (HDL-colesterol =35 mg/dL e/ou triglicérides =250 mg/dL)
• Antecedente de diabetes gestacional ou parto de bebê com peso >4 kg
• Síndrome dos ovários policísticos
• História de doença cardiovascular
• Presença de sinais de resistência à insulina (acantose nigricans)

Tabela 2. Interpretação dos testes para rastreamento de DM2:

  Glicemia de jejum Glicemia aos 120
minutos após 75g
de glicose
HbA1c
  Normal <100 mg/dL <140 mg/dL <5,7%
Pré-diabetes Glicemia de
jejum
alterada
100-125 mg/dL <140 mg/dL 5,7-6,4%
Tolerância
diminuída à glicose
<100 mg/dL 140-199 mg/dL
  Diabetes
mellitus
=126 mg/dL =200 mg/dL =6,5%