Eosinofilia: um achado comum, que merece ser investigado

Publicado em: 14/08/2009
Por:
Fleury Medicina e Saúde

Edição: 2009 - Edição Nº 5 - Boletim
 

Quando os exames gerais não explicam a ocorrência da condição, convém pensar também em doenças hematológicas neoplásicas.

Relativamente frequente na prática clínica, a eosinofilia, na maioria das vezes, é reacional a processos inflamatórios, tais como reação a medicamentos, inflamação inespecífica, infecção por vírus, fungos ou bactérias, infestações parasitárias, doenças autoimunes, afecções endocrinológicas, tumores e reações alérgicas. Nessas situações, a partir da história clínica detalhada e do exame físico cuidadoso, a avaliação do paciente deve incluir testes diagnósticos gerais, do hemograma à pesquisa de autoanticorpos. Por outro lado, a investigação de eosinofilia de causa inexplicada precisa considerar as doenças hematológicas e, para tanto, há necessidade de analisar a medula óssea por meio de testes específicos. Isso porque a condição pode ser também uma manifestação de diferentes neoplasias do sangue, como a leucemia eosinofílica crônica, que hoje conta com boas possibilidades terapêuticas (veja boxe).

Eosinófilo corado por Giemsa.

As faces neoplásicas da proliferação de eosinófilos

Classificação

Características
Neoplasia mieloide e linfoide com eosinofilia e anormalidades de PDGFR-alfa, PDGFR-beta ou FGFR1 (na qual se inclui a LEC com FIP1L1/ PDGFR-alfa) Mielo ou linfoproliferação, com eosinofilia persistente, em geral >1.500/μL, infiltração orgânica por eosinófilos ou mastócitos, rearranjos envolvendo PDGFR-alfa, PDGFR-beta ou FGFR1, ausência do cromossomo Philadelphia (BCR/ABL1), presença de blastos na medula óssea (<20%) e elevação da triptase sérica e dos níveis de vitamina B12
Leucemia eosinofilica crônica Eosinofilia persistente, >1.500/μL, endomiocardiofibrose, presença de blastos no sangue periférico ou na medula óssea (<20%), nenhum sinal de outras neoplasias mieloproliferativas crônicas ou de mielodisplasia e ausência de cromossomo Philadelphia (BCR/ABL1) e de alterações como rearranjos
PDGFR-alfa, PDGFR-beta e FGFR1, inv(16) e t(16;16) ou t(5;12)
Síndrome hipereosinofílica idiopática Semelhante à leucemia eosinofílica crônica não especificada, mas sem a presença de blastos nem de clonalidade e com mais de seis meses de eosinofilia
Eosinofilia nas neoplasias hematológicas Pode estar presente na leucemia mieloide crônica ou aguda, nas neoplasias mieloproliferativas crônicas, no linfoma, na leucemia linfoide aguda, na síndrome mielodisplásica e na mastocitose
Eosinofilia crônica idiopática Sem doença subjacente, organomegalia ou marcador molecular e com curso estável

FISH define terapêutica ideal na eosinofilia clonal
A leucemia eosinofílica crônica (LEC), também chamada de eosinofilia clonal ou, ainda, de neoplasia mieloide ou linfoide com eosinofilia e rearranjos nos genes FIP1L1 e PDGFR-alfa, caracteriza-se por proliferação autônoma e clonal de precursores eosinofílicos, resultando no aumento persistente dessas células na medula óssea, no sangue periférico e nos tecidos. Mais comum em homens, com pico de incidência ao redor dos 40 anos, a doença causa lesão orgânica decorrente da infiltração leucêmica ou da liberação de citocinas, enzimas ou outras proteínas pelos eosinófilos. O advento de terapia antitirosinoquinase, como o mesilato de imatinibe, abriu novas perspectivas para o controle da LEC. Esse tratamento tem boa resposta nos casos que apresentam o rearranjo envolvendo FIP1L1/PDGFR-alfa, que pode ser pesquisado pela técnica de hibridação in situ por fluorescência (FISH), já disponível no Fleury. A instituição de mesilato de imatinibe para os casos que apresentam essa alteração genética deve ser imediata, inicialmente com 100 mg por dia, podendo chegar a 400 mg por dia na falta de resposta ou na presença de doença residual. Em geral, os pacientes alcançam remissão hematológica em cerca de 30 dias, com completo desaparecimento dos sinais e sintomas.

Em busca das causas da condição

Exames gerais
• Hemograma
• Testes bioquímicos
• Imunoglobulinas, IgE inclusive
• Parasitológico de fezes
• Proteína C reativa
• Fibrinogênio
• Triptase sérica
• Vitamina B12
• Raios X de tórax
• Eletrocardiograma
• Ecocardiograma
• Ultrassom de abdome
• Pesquisa de doenças autoimunes

Exames específicos
• Mielograma
• Imunofenotipagem
• Cariótipo
• FISH para pesquisa de FIP1L1/PDGFR-alfa
• FISH para pesquisa de rearranjo PDGFR-beta
• Pesquisa da mutação JAK2
• Pesquisa da mutação KIT D816V
• Pesquisa de rearranjo BCR/ABL

Clique aqui para ver as doenças que podem cursar com eosinofilia.

Assessoria Médica
Dra. Maria de Lourdes Chauffaille: [email protected]