Leishmaniose

A leishmaniose é uma moléstia infecciosa, considerada primariamente uma zoonose, que afeta os animais, sobretudo os cães, só acometendo o homem quando este entra acidentalmente no ciclo de transmissão do parasita. Ganhou essa denominação por causa do sobrenome do cientista inglês que descreveu o agente etiológico da doença pela primeira vez, William Leishman.

É causada por protozoários do gênero Leishmania e transmitida por mosquitos chamados flebotomíneos. Uma das seis mais importantes doenças tropicais, segundo a Organização Mundial de Saúde, essa infecção pode ter duas apresentações distintas: a leishmaniose tegumentar, ou ferida brava ou úlcera de Bauru, que se manifesta na pele e nas mucosas, e a leishmaniose visceral, ou calazar, que acomete órgãos internos, como a medula, o baço e o fígado.

A forma visceral é bastante grave e faz milhares de vítimas ao redor do globo, inclusive no Brasil, o que, contudo, se deve à ausência de diagnóstico e à conseqüente falta de tratamento.

Na tegumentar, por sua vez, o maior risco está na possibilidade de haver deformidades e complicações respiratórias provenientes do comprometimento de mucosas.

A doença ocorre com mais freqüência em áreas rurais. O Brasil registra o maior número de casos no Norte – na forma tegumentar – e no Nordeste – na forma visceral –, mas, nos últimos anos, devido ao crescimento desordenado de nossas cidades, a leishmaniose tem aparecido também em locais próximos a áreas urbanizadas, em Estados do Sudeste e do Sul.

Causas e sintomas

A leishmaniose tegumentar é caracterizada pelo aparecimento de pequena lesão no local da picada do mosquito vetor, que evolui em aproxidamente 4 semanas para um nódulo com uma crosta central que pode atingir cerca de 1 cm de diâmetro. A perda desta crosta dá origem a uma úlcera, que evolui para a úlcera leishmaniótica clássica, de formato arrendondado, com bordas elevadas como uma moldura e indolor. A lesão inicial pode ser única ou múltipla, dependendo do número de picadas infectantes. A mucosa mais freqüentemente acometida é a da região nasal, sendo os principais sinais e sintomas sangramento nasal, eliminação de crostas pelo nariz e obstrução nasal.

Existem duas formas extremas de leishmaniose tegumentar: a ulcerativa e não ulcerativa e as formas intermediárias. Além das lesões nasais, podem ocorrer lesões em lábios, língua, céu da boca, boca e garganta. Estas úlceras ou infiltrações são crônicas, ou seja, não cicatrizam, pelo contrário, progridem, podendo causar a destruição dos tecidos. Já a forma visceral ou calazar, palavra de origem hindu que significa “febre negra”, determina sinais clínicos que progridem por período prolongado, como febre irregular persistente, perda de peso muito acentuada, intensa palidez devido à profunda anemia, prostração, desnutrição, diarréia, queda importante da imunidade, dificuldade de coagulação do sangue e aumento do volume abdominal, devido ao crescimento anormal do baço e do fígado. A leishmaniose visceral tem alta letalidade, principalmente em indivíduos não tratados, crianças desnutridas e em pessoas portadoras da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).

A doença tem como causa protozoários do gênero Leishmania, que são transmitidos ao homem pela picada de insetos chamados flebotomíneos, popularmente conhecidos como cangalha, cangalhinha, mosquito-palha, birigüi, tatuíra, entre outros nomes. Esse vetor, que costuma atacar no início da noite e ao amanhecer, carrega o parasita ao picar animais infectados.

A leishmaniose visceral é causada apenas pelas leishmânias da espécie donovani. Entre a picada do vetor e o surgimento dos sintomas pode transcorrer um período que varia de dez dias até 24 meses, com média de três a quatro meses. Já a tegumentar pode ser provocada por vários tipos de leishmânia, que, por sua vez, são disseminados por pelo menos 15 espécies diferentes de mosquitos do gênero Lutzomyia. Qualquer que seja a forma da doença, pelo menos no Brasil não há casos de transmissão da infecção de pessoa para pessoa.

Exames e diagnósticos

O médico suspeita de leshmaniose tegumentar a partir da história do doente, se o mesmo procede de área endêmica e das características da(s) úlcera(s). O diagnóstico definitivo pode ser feito a partir da pesquisa direta do parasita na lesão, em material obtido por raspado, punção ou biópsia. Este exame parasitológico direto é o método de primeira escolha, por ser o mais rápido, de menor custo e de fácil execução. Outros métodos incluem inoculação de material biológico do paciente em animais de laboratório, teste imunológico, conhecido como teste ou Intradermorreação de Montenegro e pode-se ainda fazer o cultivo de material da lesão para isolamento do protozoário.

Para diagnóstico do calazar, além dos sinais clínicos indicativos da doença, como febre persistente acompanhada de aumento do baço e do fígado, sobretudo em pessoa procedente de região onde houver casos da doença, pode-se utilizar exames sorológicos específicos, como a Imunofluorescência Indireta (IFI) e o Ensaio Imunoenzimático (ELISA). Também pode-se utilizar a Intradermorreação de Montenegro ou ainda a pesquisa direta ou cultura do parasita em material de aspirado de medula óssea ou do baço. Outros exames apoiam o diagnóstico e graduam a gravidade da doença, como o hemograma, que revela anemia e contagem baixa de glóbulos brancos e plaquetas. Outros exames mostram alterações das proteínas do sangue, das enzimas do fígado e na velocidade de sedimentação do sangue (VHS).

Recursos mais sofisticados, a exemplo dos testes moleculares, que pesquisam o DNA do agente infeccioso em diferentes materiais clínicos, embora constituam-se em uma nova perspectiva para o diagnóstico da leishmaniose visceral, pois apresentam 94% de sensibilidade, seus resultados ainda dependem de muitas variáveis como procedência do doente; tipo de amostra; alvo do DNA utilizado para amplificação; método de extração do DNA, etc.

Tratamento e prevenções

O tratamento de qualquer forma da leishmaniose é feito inicialmente com injeções de uma droga chamada antimonial pentavalente. No Brasil, o Sistema Único de Saúde fornece esse medicamento, que deve ser aplicado diariamente durante um período de no mínimo 20 e no máximo 40 dias.

O tratamento com antimonial deve ser feito com controle rigoroso, pois trata-se de medicação que pode apresentar efeitos tóxicos no rim, fígado e pâncreas, mas sobretudo no coração, levando à arritmias que podem ser graves e até fatais. Caso a resposta não seja adequada, existem remédios de segunda escolha, entre eles a Anfotericina B. Além da terapêutica, o portador da infecção deve se manter em repouso por período determinado pelo médico e receber boa alimentação. Nos casos de leishmaniose tegumentar, recomendam-se também cuidados locais com as lesões para evitar infecções secundárias. 

Por enquanto, os métodos de prevenção da doença continuam bastante básicos, incluindo dedetização das áreas de risco, destinação adequada do lixo, uso de mosquiteiros impregnados de inseticidas, aplicação de repelentes sobre a pele nos locais endêmicos, busca ativa de casos pela vigilância epidemiológica, diagnóstico precoce e tratamento adequado dos casos humanos, vacinação de cães, além do sacrifício dos cães doentes e controle de outros animais que atuam como reservatório do parasita.

Contudo, a imunização para humanos deve ser uma realidade nos próximos anos, uma vez que há promissoras iniciativas em fase de desenvolvimento e aprovação, inclusive dentro do Brasil. Até lá, porém, além dos cuidados para evitar a proliferação e a picada do mosquito que transmite a leishmaniose, é fundamental procurar atendimento médico imediato diante dos primeiros sintomas da infecção, sobretudo nas regiões de maior risco.

Fonte: Assessoria Médica Fleury