Curiosidade para transformar

Por: Vinicius Medeiros && Flavio Santana

Edição: 38

 

Para Marcelo Tas, o mundo ainda guarda milhares de caminhos a serem explorados, muito embora a era digital insista em nos apontar o contrário

Marcelo Tristão Athayde de Souza é um sujeito inquieto. Aos 15 anos, largou Ituverava (SP) para ser aviador e conhecer o Brasil. Descobriu o Rio de Janeiro e São Paulo e, na intimidade dessas duas metrópoles, viu que o mundo era realmente muito maior do que imaginava. Encantou-se pela arte, pelo teatro e pelo cinema, dando outra guinada na vida, não sem antes arrumar tempo para ganhar um canudo de Engenharia Civil. A partir dali, deixou de ser o aluno Athayde e virou Marcelo Tas, aquele da TV, repórter intrépido, comunicador de primeira, professor de toda uma geração.

Hoje, em meio a atividades simultâneas no rádio, na TV e na internet, retorna à sala de aula com uma função dupla, de aprender e ensinar, e nunca pareceu tão motivado. O que o impulsiona nessa nova etapa? Sua intensa curiosidade, seu desejo de conhecer o novo e de explorar o mundo digital.

Faz tudo isso sem nunca deixar de lado seu passado, sem esquecer a infância na roça, as grandes descobertas nas Forças Armadas, as intensas e únicas emoções proporcionadas pela televisão. Nesta conversa, ele fala de tudo isso, mostrando como a curiosidade moldou – e continua a delinear – sua trajetória.

No dicionário, há várias definições para curiosidade e quase todas esbarram no que o senso comum fala sobre a palavra; mas o que ela significa para você?

É olhar para as coisas como criança, um olhar que rastreia e vasculha o que a gente ainda não viu, e isso aparentemente é muito difícil hoje em dia, porque tudo parece estar disponível para a gente. Então, em meio a essa era digital, temos uma tarefa extra de exercitar a curiosidade e não deixá-la desaparecer. Embora pareça que não há mais nada a ser revelado atualmente, na realidade, é justamente o contrário. Agora, neste exato momento, é que existe muito mais para descobrirmos. O mundo ainda está cheio de coisas que não podemos prever, e isso vale para todas as áreas de atuação.

E o Marcelo Tristão Athayde de Souza é um ser curioso? Quando e como teve certeza disso?

Sou muito curioso, mas fui desafiado a exercitar minha curiosidade. Não adianta ser curioso e ficar sempre preso ao seu mundinho. Agradeço à minha infância, que foi muito legal, em meio a galinhas e muito verde na fazenda do meu avô, em Ituverava (SP). Com uma riqueza muito grande de estímulos, a roça é um lugar perfeito para quem é curioso. Aos 15 anos, entretanto, percebi que já tinha explorado todo aquele universo e que o mundo era muito maior. Vi um panfleto sobre a prova de seleção da Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), para pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB), resolvi me inscrever e acabei passando. Era minha maior curiosidade naquele momento: eu queria conhecer o Brasil. E, de fato, foi um mundo totalmente novo: eram 370 alunos de todos os estados brasileiros, de todas as classes sociais. Ainda assim, 60% das pessoas eram cariocas, entre elas, o sambista Arlindo Cruz, conhecido entre nós como aluno Cruz. Na Epcar, vi que o mundo era realmente muito maior do que imaginava, e isso nunca mais terminou na minha vida. Hoje, por exemplo, estou preparando um curso sobre aceleração digital. Diariamente, nas minhas pesquisas, vejo como o mundo é vasto. Essa é a beleza das coisas: entender que a gente só enxerga um viés dos muitos existentes. O segredo é procurar aprender e, principalmente, respeitar o viés dos outros. Essa é a grande tarefa que temos atualmente, em especial nesses tempos de intolerância e polarização.

Então, agora, conte-nos uma história realmente curiosa.

Há alguns anos, fui convidado para fazer fotos para um livro sobre personalidades que interpretavam personagens que gostariam ser. O Washington Olivetto, por exemplo, foi um baixista de jazz dos anos 1930. Contei ao fotógrafo sobre meu passado na Epcar e sugeri a ele uma imagem com traje do piloto que nunca fui. No dia da sessão de fotos, quando cheguei ao estúdio, tinha um carro da Aeronáutica estacionado, o que já mexeu comigo. Quando entrei, havia um sargento lá dentro com uma roupa da Esquadrilha da Fumaça para mim. Nesse dia, retomei um namoro suave com a Aeronáutica e, pouco tempo depois, surgiu um convite para fazer a palestra inaugural da turma de 2010 da Epcar. Falar em um cinema de mil lugares lotado foi uma das maiores emoções da minha vida. Anos mais tarde, quando já estava no CQC, fui convidado para voar com a Esquadrilha da Fumaça. Quando cheguei à Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga (SP), revivi meus tempos de Epcar e voltei a ser criança. O programa encheu o avião de câmeras já prevendo que eu passaria mal, porque as manobras realizadas não são para qualquer um. Decolei com muito medo, com certeza absoluta de que não deveria estar ali, mas é por isso que estou contando essa história. A curiosidade me puxou. Quando eu teria uma experiência como essa novamente? Uma frase do comandante me marcou muito: “Aviadores, estamos aqui para fazer o que a gente mais gosta. O dia está perfeito, então, agora é hora da diversão”. E aí começou a brincadeira, o medo foi embora e relaxei. Aguentei mais do que uma manobra e, com certeza, foram os 50 minutos mais incríveis que já vivi.

Ser curioso é uma qualidade? Ou curiosidade demais acaba matando, como diz o ditado?

É mais do que uma qualidade, é uma necessidade. É uma virtude exigida em qualquer área de atuação, justamente porque as mudanças são exponenciais hoje em dia. Não basta só ser curioso. Veja essa área a que venho me dedicando, a ciência dos dados. Não basta olhar para esse conjunto de informações, é preciso gerar valor a partir dele. Então, mais do que ser curioso, é preciso produzir conhecimento, gerar resultados e também atritos a partir disso. Para chegar lá, é vital se colocar no lugar do outro, ouvi-lo atentamente. Só assim é possível mudar a maneira como você vê a realidade e criar um atrito criativo com pessoas que pensam diferente de você e, de uma maneira mais ampla, com a sociedade. Só assim se consegue mudar a realidade ao lado de outras pessoas. Enfim, não adianta ficar com a “curiosidade de freezer”, com tudo guardado lá dentro. Você tem que botá-la na rua, compartilhá-la, ver o que funcionou ou não e, eventualmente, levar umas pauladas por conta disso. Faz parte!

“Se nós não virarmos uma espécie de aplicativo de nós mesmos, que precisa ser constantemente atualizado, as chances de ficarmos preguiçosos são grandes.”

“O poder de decisão está cada vez mais em nossas mãos. Se o indivíduo tomar ciência disso, ele impulsionará as empresas a serem mais responsáveis, éticas e transparentes.”

Hoje, aos 57 anos, o que desperta sua curiosidade?

Vivo o cume de uma curiosidade que começou quando dei meus primeiros passos na televisão. O que me atrai muito na TV é o fato de você conversar com uma lente e imaginar que um monte de gente está assistindo. Ou seja, mesmo tendo poucas pessoas no estúdio, você precisa falar como se estivesse conversando com milhares de pessoas ao mesmo tempo. Desde essa época, convivo com um desejo de saber que me persegue: quem são essas pessoas? Por que elas estão me ouvindo? Essa é uma curiosidade que todo comunicador precisa ter, porque comunicação não se limita ao que estou falando, mas engloba como os interlocutores entendem essa mensagem. Hoje, o que me move é entender esse grande volume de informações para poder atender melhor ao cara que está do outro lado. Ganhei uma grande tarefa na minha vida, que é começar a falar sobre isso com diferentes atores, como escolas e corporações, entre outros, com o curso que estou criando. Mostro como o consumidor mudou nesses últimos anos. É, portanto, um curso sobre gente, sobre mudanças dentro das pessoas. Quero levar essa mudança para mais gente, para que um número ainda maior de pessoas participe das grandes transformações que a tecnologia vem promovendo. Não tenho ideia de aonde isso vai me levar, mas estou muito entusiasmado. De verdade!

Com a internet, hoje basta “googlar” para matar quase todas as nossas curiosidades. Qual será o impacto disso na sociedade: ficaremos mais preguiçosos ou menos curiosos?

A resposta depende da gente, e essa é a beleza do jogo. Se nós não virarmos uma espécie de aplicativo de nós mesmos, que precisa ser constantemente atualizado, as chances de ficarmos preguiçosos são grandes. Infelizmente, essa condição leva ao desaparecimento, à perda da aderência com a realidade. Com isso, as pessoas deixam de ser relevantes para os meios onde estão, e o mesmo vale para qualquer organização.

A internet também vem provocando mudanças significativas na educação. Hoje, o professor cumpre um papel diferente de no passado, não sendo mais o único repositório do conhecimento. Sua função hoje é provocar reflexões e despertar a curiosidade dos alunos. Em cima disso, como seria fazer hoje, 20 anos depois, o Professor Tibúrcio (personagem do programa Rá-Tim-Bum da TV Cultura nos anos 1990)?

De fato, no passado, ele era um repositório de informação e, coitado, tinha que carregar vários livros debaixo do braço para colocar esse conteúdo na lousa. E os alunos faziam o quê? Um “copy paste” desse material. Portanto, o papel de provocador da curiosidade era limitado, pois havia muita coisa para passar. Os professores mais habilidosos, entretanto, conseguiam provocar o estudante o tempo todo, e são justamente eles que mais marcam nossa vida estudantil, já que aguçavam nossa curiosidade e interesse por aprender. Hoje, na revolução digital, temos cada vez mais a chance de ter na sala de aula aquele professor provocador, porque o que temos aqui na tela do celular não é conhecimento, apenas informação. O professor continua, portanto, no mesmo papel de transformar informação em conhecimento e, por isso, acho que o Professor Tibúrcio seria exatamente igual. Foi um personagem que sempre provocou discussões, e essa é também uma bandeira descarada do meu canal no YouTube, o #descomplicado.

Neste mundo em transformação, onde a curiosidade humana nos levará? Será um mundo melhor ou pior?

Não estou fugindo da resposta, mas essa construção de mundo depende de cada um de nós. Temos uma mania horrível de botar a responsabilidade para fora da gente. A política é um exemplo claro disso. Criticamos tanto os políticos, mas esses sujeitos que estão sendo condenados por corrupção não foram eleitos por extraterrestres. Precisamos assumir nossa responsabilidade, porque os donos do destino desse barco somos nós. O que está no horizonte são possibilidades. Temos a prerrogativa do uso da tecnologia, da escolha de onde jogar o lixo ou da maneira de utilizar a água e a energia. Então, a gente pode detonar o planeta ou fazer dele um lugar incrível. O poder de decisão está cada vez mais em nossas mãos. Se o indivíduo tomar ciência disso, ele impulsionará as empresas a serem mais responsáveis, éticas e transparentes. Para isso, no entanto, precisamos gerar e compartilhar mais educação. Eu sofro, entretanto, da doença do otimismo e talvez este seja o segundo e último capítulo da minha vida, que é oferecer uma colaboração na área de educação. É onde posso ajudar a colocar mais gente para participar do jogo.

Para fechar, complete a frase: um ser humano sem curiosidade é...

Alguma coisa que não é um ser humano. A única coisa que nos diferencia dos demais seres é a curiosidade. E não estou aqui falando mal dos nossos colegas insetos, por exemplo, que são seres incríveis. Eles têm uma vida absolutamente adequada ao presente deles. As abelhas, por exemplo, nasceram para construir sua caixa de mel. Elas não precisam ser curiosas. Já nasceram em outro estado, altamente elevado por sinal, em contato com a natureza, o que não demanda criação. Não precisam inventar nada, diferentemente de nós.

“Não adianta ficar com a ‘curiosidade de freezer’, com tudo guardado lá dentro. Você tem que botá-la na rua, compartilhá-la,ver o que funcionou ou não e, eventualmente, levar umas pauladas por conta disso. Faz parte!”

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