Do lado de fora da bolha

Por: Débora Rubin && Mauro Takeshi Kawasaki

Edição: 38

 

A curiosidade é um item de fábrica do ser humano. Vem no mesmo pacote do sentimento e do pensamento. Mas enquanto os outros itens são aperfeiçoados ao longo da vida, a curiosidade parece arrefecer conforme nos tornarmos adultos. Aquela criança que pegava um objeto e virava do avesso até saber do que se tratava é gradualmente substituída por um adulto cheio de opiniões e certezas absolutas. Sem curiosidade, nos enfiamos em bolhas e nos acomodamos nas nossas zonas de conforto. O que acontece com a nossa criança curiosa quando crescemos?

“Vamos adentrando em um mundo tão engessado e com expectativas de como devemos nos comportar que entramos no piloto automático, sem questionar mais o porquê das coisas”, explica a coach Mari Cordeiro. E não questionar pode ser algo um tanto perigoso. Afinal, esse mundo engessado, cercado de expectativas e hoje vigiado e punido pelos tribunais virtuais faz com que nos fechemos em zonas seguras, cercados de amigos que pensam parecido com a gente.

O problema, segundo Sharon Sanz Simon, psicóloga pós-doutoranda na Universidade de Columbia e especialista em neurociência cognitiva e envelhecimento, é que, se acreditarmos que a nossa visão das coisas é a única correta, provavelmente seremos menos curiosos em relação ao que o outro tem a dizer. “Em tempos de polarização política, sem dúvida, esse é um aspecto relevante. Quanto mais flexíveis, empáticos, tolerantes, e quanto mais questionarmos as nossas certezas, mais curiosos seremos a respeito do mundo e dos outros”, destaca Sharon. “Gosto muito da frase do Rubem Alves que diz que ‘a curiosidade é a coceira das ideias’.”

O que fazer, então, para lubrificar essa peça enferrujada da curiosidade, manter-se criativo e olhar do lado de fora da bolha? É um trabalho árduo, que requer energia e postura ativa. Primeiro, é preciso se conhecer bem: o que você gosta de fazer, o que lhe dá prazer e o deixa relaxado? O segundo passo é não ter medo de questionar tudo, mesmo que seja sobre o que você acredita conhecer bem. Também é fundamental vivenciar as próprias emoções, inclusive as negativas, para aprender com essas experiências. Por fim, provar coisas diferentes (como as ideias sugeridas a seguir) também ajuda a perceber que o mundão lá fora é mais vasto do que se acredita.

“Cada vez mais, me parece que o segredo está nesse delicado equilíbrio entre nosso sistema de crenças e o questionamento dele – como continuar nos deslumbrando com as coisas apesar de já termos conhecimento acumulado sobre o mundo?”, desafia Sharon. “É preciso ter coragem para se libertar um pouco, a cada dia, do que a gente vai aprendendo ao longo da vida como ‘o certo’ por meio do nosso sistema familiar, educacional e cultural”, complementa Mari. Em suma, tudo é uma questão de manter a mente aberta, o espírito inquieto e o coração cheio de emoção.

 

O mapa da mina

Imagine ter à sua disposição uma curadoria online que, a partir de uma análise cuidadosa do seu perfil e das suas necessidades, recomenda filmes, artigos, palestras e podcasts que você dificilmente encontraria de outra forma? Pois essa ferramenta já existe: o Mappa, criado pela Inesplorato, faz isso por meio de uma assinatura de R$ 10 por mês. “Todos os dias, toneladas de livros, artigos, pesquisas, filmes, dados, palestras são publicados. No entanto, estamos perdidos em meio ao excesso”, explica Débora Emm, uma das sócias da Inesplorato, que faz curadoria de conhecimento para pessoas e empresas desde 2010. Para piorar, estamos sendo cada vez mais conduzidos por algoritmos caça-cliques. “Quando você se deixa levar pelas recomendações da sua linha do tempo ou pelos filmes e livros da moda, reduz as possibilidades de encontrar conteúdos que realmente vão colaborar para o seu desenvolvimento.”

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Outros sabores

Fazemos ao menos três refeições por dia e, em geral, de forma automática e apressada. Que tal ousar fazer uma refeição completamente diferente? Se você quer ser surpreendido, uma boa dica é o Jantar Secreto, criado pelo casal Gustavo Rigueiral e Larissa Januário, ele, chef, ela, jornalista especializada em gastronomia. Nas mãos da dupla, até o local onde será realizada a refeição é secreta (a comida, claro, também é uma surpresa). “A ideia é não ter cara nem proposta de restaurante. Queremos que seja uma experiência completamente nova” explica Larissa. A casa acolhe entre 14 e 24 pessoas, e os ingressos são adquiridos pelo site.

Se a ideia é sair da correria e comer uma comidinha caseira com ares de mãezona pernambucana, a Casa Choppanildo é a pedida. Thiago Beltrão recebe as pessoas em sua própria casa, na esquina da avenida Paulista com a Consolação, e prepara pratos inspirados em sua infância no Recife. “Comi muito arrumadinho e caranguejada na casa da minha mãe, que adorava receber amigos aos domingos.” Além de comer bem, o cliente pode descansar no sofá, deitar na rede e fazer um carinho no Choppanildo, coelho de estimação que dá nome ao projeto. O cliente pode definir o que deseja comer, pedir cardápio-surpresa e até decidir o valor que quer gastar.

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Turista sem sair de casa

O Turista Literário é mais que um clube do livro: é um passaporte para conhecer novos mundos sem sair de casa. Os assinantes recebem, a cada mês, uma mala com um livro e uma série de objetos que levam o leitor ao universo retratado em determinada obra. Quando O1 canto mais escuro da floresta, de Holly Black, foi o livro escolhido da vez, uma noz em formato de sabonete, com o cheiro da tal floresta, era um dos itens da mala. A empreitada foi criada pelas irmãs cariocas Priscilla e Mayra Sigwall, inspirada em uma brincadeira de infância. Priscilla, seis anos mais velha, criava um ambiente fantasioso como pano de fundo ao ler historinhas para a irmã. “É uma boa forma de sair da zona de conforto literária: em vez de ir à livraria e comprar sempre os mesmos tipos de livro, nosso cliente está aberto a receber algo desconhecido e a se deixar levar por uma viagem sensorial completa”, diz Priscilla que celebrou com a irmã, em junho de 2017, um ano da empresa com 1.500 assinantes.

Saiba mais:

www.turistaliterario.com.br

Muito além do resort

Viajar é bom. Viajar e curtir uma linda paisagem, à beira-mar, tomando bons drinques, é melhor ainda. Mas viajar e conhecer algo totalmente inusitado pode ser uma experiência transformadora. O Airbnb, maior site de hospedagem do mundo, criou a plataforma Experiências, onde é possível escolher um destino junto de uma atividade oferecida naquele lugar, como caçar e degustar trufas em Praga, aprender a manejar espada com um “samurai de verdade” em Tóquio ou se vestir como drag na Cidade do México. No Brasil, a única cidade a oferecer essa possibilidade, por enquanto, é o Rio de Janeiro, mas os brasileiros já podem usufruir de mais de 2.500 ofertas em mais de 35 destinos (e crescendo) mundo afora. Os preços das atividades são definidos por quem as oferece, de forma que há opções para todos os bolsos. Barcelona, Los Angeles, São Francisco, Paris e Tóquio são as cidades mais procuradas para as experiências.

Saiba mais:

www.airbnb.com.br

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