Talento nato

Por: Fleury Medicina e Saúde

Edição: 30

​Antes mesmo da adolescência, eles descobriram que uma boa performance também tem a ver com paixão pelo que se faz

Fazer um jantar refinado, com seis pratos (incluindo entradas e sobremesas), para quatro pessoas, é tarefa que poucos adultos aceitariam sem tremer nas bases. Aceitar encomendas de vários bolos e tortas por dia, assados na cozinha de casa e entregues em domicílio também não. Para João Camargo, 13 anos, tudo isso é só parte da rotina. João é dono da marca de doces Do João (facebook.com/dojoaodocesartesanais), criada por ele.

O objetivo do menino, que é ajudado em tudo por sua mãe, Maria Camargo – e ocasionalmente até pelos irmãos, que às vezes viram assistentes de cozinha –, é um só: juntar dinheiro suficiente para estudar gastronomia em Paris. A obsessão com a culinária não é de hoje, conta a mãe. “O João desde muito pequeno tinha um paladar diferente da média das crianças – adorava rabanete com aceto balsâmico! – e tinha facilidade para reconhecer sabores”, diz. A paixão por colocar a mão na massa, porém, surgiu aos 8 anos, quando ele fez, na escola, um biscoito amanteigado. Animado com os resultados, aprendeu logo receitas mais difíceis, como alfajores argentinos e uma torta criada por ele, com biscoito e sorvete. “Aí, com uns 9 anos, ele já começou a dizer que aceitava encomendas, e conseguiu dinheiro suficiente para comprar um cachorro”, lembra Maria.

Cerca de um ano depois, João decidiu que queria aprender mais. Mas nada de cursos de culinária para crianças: ele estava interessado em estudar com a chef carioca Roberta Sudbrack. Apesar de o curso dela não permitir crianças, a chef abriu uma exceção ao receber de presente de João um bolo e um ramalhete de flores. “Ele mesmo tomou a iniciativa de mandar esses presentes. Para outras coisas ele é muito tímido, mas em relação à gastronomia ele sempre foi abusado”, lembra Maria, que fala com orgulho sobre acompanhar a paixão do filho de perto. “Ao mesmo tempo, não quero pressionar, então digo que ele tem opções, que é muito jovem e pode mudar de ideia e fazer outras coisas. Mas ele nem gosta que eu diga isso. Para ele, deixar de cozinhar está fora de cogitação!”


Ás da matemática




Natan criou um aplicativo para calcular a nota necessária para passar de ano na escola

A ideia de Natan Gorin, criador, aos 12 anos, do aplicativo iBoletim – que calcula para os alunos a nota que eles precisam para passar de ano –, veio naturalmente. “Meus amigos me consideravam o melhor e mais rápido de matemática na turma e pediam para eu calcular quanto eles precisavam tirar no último boletim. A conta era simples, o problema era que na minha série tinha 40 alunos e 10 matérias cada um, então eu acabava ficando com muitas contas para fazer”, lembra. Para resolver isso, ele desenvolveu um app, que fazia as contas para ele.

Ele mesmo aprendeu a programar o app, sozinho. “Aprendi tudo na internet, e também li livros sobre programação”, diz. O iBoletim entrou na AppStore no início de 2013 e hoje já tem 100 mil downloads e chegou à terceira posição no ranking de aplicativos nacionais mais baixados. O sucesso foi tanto que Natan já lançou também o MathYou, que usa algoritmos para gerar milhões de exercícios de matemáticas para professores e alunos.

Segundo Ilan Gorin, pai de Natan, o filho sempre demonstrou atitude empreendedora e, principalmente, muita maturidade. “Ele já tem bom senso para escolher a maioria das opções que lhe aparecem, mas acrescentamos uma pitada de experiência de vida”, explica.


O vendedor




Davi criou uma plataforma online para pais e mães comprarem materiais escolares e receberem em casa

O alagoano Davi Braga, de 13 anos, é hoje dono – com mais dois sócios – de um negócio chamado List-It. Trata-se de uma plataforma online onde mães e pais podem comprar, com entrega em casa, uma lista completa de materiais escolares, selecionados por cidade e escola. Não é à toa que Davi está à frente desse negócio: desde os 8 anos ele tem habilidade natural para a venda.

Desde o quarto ano da escola (ele hoje está no oitavo), Davi vendia produtos para os colegas. Começou com chicletes importados; passou para itens da loja da mãe; e chegou ao ápice com os cupcakes feitos pela irmã. “No primeiro dia vendendo cupcakes já ganhei 80 reais. Depois, comecei a lucrar de verdade: com o dinheiro das vendas comprei, no ano passado, minha primeira televisão!”, diz. Aí, não teve volta: ele nunca mais parou de trabalhar. “Rapaz, como é bom trabalhar, conseguir seu próprio dinheiro, comprar suas próprias coisas!”, diz Davi.

Ajuda de ouro
Para encabeçarem negócios de sucesso aos 13 anos, João, Natan e Davi contam com a ajuda preciosa dos pais. “Eu anoto encomenda, pego recados, faço entregas e sou uma espécie de agente: vejo o que acho importante o João fazer e o que tem que deixar passar, porque ele não consegue cumprir tudo”, explica Maria Camargo. “Dentro das possibilidades, estimulo bastante. A cozinha da minha casa ficou tomada pelo João, e vou fazer uma reforma para ele ficar com uma parte.”

No caso de Natan, já que é ele quem programa e cuida de tudo, a ajuda dos pais vem de outra forma: “Damos apoio com elogios, atenção aos seus temas, troca de ideias e ajuda com equipamentos, cursos ligados à área dele...”, conta Ilan.

Como o pai de Davi, João Kepler, é investidor-anjo, o garoto contou com uma ajuda importante – além do investimento inicial em material, João indicou sócios (todos jovens, com no máximo 21 anos) e fez de seu escritório o QG do List-It. “Meu pai sempre me levou para congressos e encontros de empreendedores e investidores. Então, quando identifiquei um problema, lembrei de tudo o que tinha aprendido e criei a start-up”, conta Davi.

Escola x negócios
Os pais dos três adolescentes são categóricos: trabalhar, por enquanto, tem de ficar em segundo plano. Para isso, cada um estabeleceu um conjunto de regras que mantém a rotina funcionando bem. 

Ilan Gorin explica que uma das coisas mais importantes que ele e a ex-esposa fizeram para o sucesso do filho foi flexibilizar as exigências em relação à escola. “Passamos a aceitar como meta apenas passar de ano, e não tirar notas acima de 9, impossíveis em função do tempo necessário para ele se dedicar aos seus aplicativos”, diz.

Já na casa de Davi, a flexibilidade não chega a tanto. “Ele sabe que o principal objetivo dele é o estudo, que tem de vir em primeiro lugar. Ele tem de tirar notas boas e só pode trabalhar em horários determinados com nossos acordos”, diz Cristiana. É o mesmo caso de João, que tem horário para dormir – cozinhar de madrugada, só em fim de semana – e não pode aceitar encomendas em semana de prova.

Mesmo assim, o estímulo ao empreendimento do filho é o maior possível. “Conseguir se encontrar, hoje em dia, é tão difícil. É muito importante achar o que gosta e trabalhar com isso, e ele descobriu cedo o que quer. Então, vamos focar!”, diz Cristiana.


Vocação para a música





Lucas já ganhou muitos concursos de música e considera que aprender desde criança foi fundamental para seu sucesso como solista    ​

Incentivar a criança desde cedo muitas vezes é crucial para o bom desempenho em uma futura carreira. O pianista Lucas Thomazinho, de 19 anos, foi para o conservatório já aos 7 anos de idade. Antes disso, aprendia notas no piano de casa, com os pais. “Quanto mais cedo, melhor”, avalia Lucas, que hoje segue tocando, correndo atrás de bolsas de estudos e participando de concursos – já venceu muitos deles desde o primeiro ano de conservatório, em 2003. No momento, ele estuda para o vestibular, já que pretende cursar a faculdade de Música na Universidade de São Paulo (USP). “Ter começado cedo foi super importante. Quando se inicia mais tarde, aos 13, 14 anos, acaba sendo mais difícil seguir carreira como solista”, diz. A mãe, Loana Magalhães Thomazinho, conta que percebeu o interesse de Lucas quando ele tinha apenas 2 anos. “Desde pequeno, quando a gente tocava, ele batia o ritmo com o pé. Com 3 anos, já dedilhava, brincava, tocava de ouvido “O Bife” [valsa originalmente intitulada “Chopsticks”, de Arthur de Lulli, pseudônimo da compositora britânica Euphemia Allen]”, conta. “Dava para perceber que ele tinha facilidade, agilidade, um conjunto de dons e habilidades mesmo.”

Incentivo com equilíbrio
Encontrar o equilíbrio entre o estímulo ao talento precoce e as atividades comuns da infância é o grande desafio dos pais. Conversamos sobre esse assunto com Irene Maluf, especialista em psicopedagogia, educação especial e neuroaprendizagem.

Qual a origem de um talento precoce?
Há um movimento interno do indivíduo, de ter uma consciência maior de responsabilidade, querer ser alguma coisa, ser independente, criar coisas e oportunidades. São movimentos raros, que alguns formam cedo. A educação dos pais não é decisiva. Eu não crio um empreendedor. 
O que eu posso fazer é favorecer.

Como os pais podem favorecer, sem prejudicar a infância?
O trabalho dos pais é, primeiro, ver até que ponto a atividade do filho está dentro da lei. Segundo, ver se não está prejudicando a vida dele. Ele tem de estudar, ter amigos, curtir a vida. Terceiro, perceber se não está psicologicamente gerando prejuízo, expondo o filho a riscos desnecessários. 

Acontece dos pais incentivarem em excesso?
Tem pais que pegam isso como se fosse fonte de renda da criança. O menino escreve uma música, por exemplo, e eles supervalorizam o que, às vezes, era só uma experiência. Tem de ter o cuidado de não enxergar genialidade onde não existe. Observar se ele faz por conta própria, se não está sendo pesado. Os pais devem conduzir tudo para que o filho vivencie a idade, mas ao mesmo tempo continue a vocação que está se manifestando.

Segundo a psicopedagoga Irene Maluf, os pais devem agir como orientadores e conduzir o processo para que a criança vivencie a idade e, ao mesmo tempo, dê continuidade à vocação que está se manifestando​
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