Um dia de cada vez

Por: Vinicius Medeiros

Edição: 37

 
A luta contra o câncer mudou por completo a vida da influenciadora digital Déborah Aquino. O esporte e sua capacidade de adaptação a ajudaram a moldar uma nova atitude frente ao mundo, permitindo que ela compreendesse que era muito mais resiliente e corajosa do que imaginava, mesmo diante da morte


No começo, o foco era apenas ter uma vida mais saudável e regrada. Correr, contudo, ofereceu a Déborah Aquino muito mais do que ela sonhou. Na corrida, conheceu seu marido e formou uma família. Também com o esporte, desenvolveu uma atitude completamente diferente frente ao mundo e compreendeu que é bem mais resiliente e corajosa do que imaginava, mesmo diante das situações mais difíceis. Hoje, restabelecida espiritual, mental e fisicamente, dedica-se a passar às pessoas o que aprendeu ao longo dessa renovadora maratona quem vem sendo sua vida.

Blogueira com milhares de seguidores nas redes sociais, Déborah tem uma trajetória é marcada por transformações pessoais e profissionais. “Sou o ser mais adaptável do planeta. Já morei em quatro cidades, larguei a odontologia e o sedentarismo, virei blogueira e empresária...”, gosta de dizer. “Acho realmente que é minha maior qualidade. Adapto-me com grande facilidade às situações.” Mas ter plena consciência dessa capacidade veio só depois de uma difícil prova.

Em dezembro de 2013, Déborah recebeu uma ligação de seu mastologista. O exame a que se submetera confirmava o diagnóstico que tanto temia: câncer de mama. “Já suspeitava, pois já havia sentido nódulos em meu seio. Ainda assim, receber essa notícia na frente da minha filha foi um choque muito grande”, relembra. “Mesmo abalada, me vi obrigada a me adaptar a uma nova realidade, mas tracei um objetivo claro: não iria desistir.”

Déborah divide sua vida entre antes e depois do câncer de mama. “E não falo apenas da transformação que superá-lo representou. Minha atitude frente ao mundo também mudou”, avalia a blogueira, que dá um exemplo sobre esse novo olhar. “Para mim, ter atitude é conseguir olhar para os problemas da vida como desafios, degraus para evoluir. Há três anos, eu certamente diria outra coisa. Talvez falaria que significava ter disciplina para manter uma rotina de corrida e de mãe, mas a vida me deu uma lapada e, hoje, encaro tudo de outra maneira.”

A mudança de atitude se materializou de diferentes maneiras, entre elas aproveitar cada momento que a vida proporciona. “Se pudesse voltar no tempo, curtiria muito mais o tempo com minha filha. No passado, não fazia isso como devia, o que me fez questionar: ‘Que legado teria deixado para ela?’. Hoje, acho que passo valores muito mais sólidos, como coragem, ser verdadeira, ser honesta e feliz”, comenta.

Déborah também se vê atualmente como uma pessoa muito mais tolerante. “Era um pouco intolerante com os problemas dos outros. Mudei completamente minha atitude em relação a isso, o que me possibilita dimensionar melhor cada inconveniente que a vida oferece para procurar uma solução, e ensino isso para minha filha”, afirma. Para ela, problema de verdade na vida são questões relacionadas à saúde. “Para o resto, arruma-se um jeito. Pois é aquilo: se não tem solução, solucionado está, não é verdade?”

Exemplos de vida

A blogueira, contudo, não aprendeu tudo sozinha. Exemplos aqui e ali ao longo da vida mostraram para ela atitudes que a influenciaram de maneira decisiva. Duas delas em especial, que ocorreram ao longo do tratamento do câncer, se tornaram referências. “A Elaine, conheci durante a quimioterapia. Sua determinação era impressionante. Ela morava longe, pegava ônibus para ir e voltar do tratamento, diferentemente de mim, que me transportava no conforto de um carro. Mesmo assim, e apesar dos efeitos da medicação, ela encontrava forças para fazer trabalho voluntário com outras pacientes. Criamos um vínculo muito forte, tanto que passei a fazer trabalhos voluntários também. Infelizmente, ela faleceu”, conta.

Em um desses trabalhos voluntários para pacientes de câncer, Déborah conheceu Marta. “Ela tinha um linfedema grande no braço, que deixou sua mobilidade limitada”, relembra. Segundo a blogueira, a empatia entre as duas foi imediata. “Ela conhecia o blog, disse que sempre acompanhava meus posts nas redes sociais e que admirava a maneira como eu encarava a luta contra a doença. O que mais chamou minha atenção é que, mesmo com o linfedema, ela fazia um trabalho voluntário confeccionando almofadas para obter recursos para o tratamento de outros pacientes. Sua coragem era tocante.”

Meses depois, prestes a embarcar para uma prova de corrida na Noruega, Déborah recebeu uma ligação da filha de Marta, que estava internada com complicações da doença. “Ela me pediu para enviar um vídeo motivacional para a mãe no hospital pelo WhatsApp. Como estava muito enrolada acertando os últimos detalhes da viagem, demorei uns dois dias para mandar. Infelizmente, foi tarde demais, e isso me deixou completamente arrasada”, lembra. “Depois disso, sempre que tenho vontade de fazer alguma coisa, faço na hora. Não espero mais nada. A Marta mudou essa minha atitude procrastinadora em relação à vida.”

Para Déborah, esse conjunto de acontecimentos em sua vida nos últimos anos ajudou a formar uma mulher com muito mais atitude do que no passado. Segundo ela, a geração atual valoriza pouco o que tem em mãos e pensa mais no agora do que em qualquer outra coisa. “Com isso, acabam se tornando eternamente insatisfeitas, não conseguem praticar a gratidão”, avalia a blogueira. “Hoje, gratifico tudo o que acontece em minha vida. Quando você faz isso de verdade, de coração aberto, é possível encontrar pontos positivos até nas piores situações. Se não fosse o câncer, eu teria uma personalidade muito diferente.”

 
“Para mim, ter atitude é conseguir olhar para os problemas da vida como desafios, degraus para evoluir.”

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