Fleury
09/4/2026

Neurofilamentos de cadeia leve: novo biomarcador para doenças neurológicas

Neurofilamentos de cadeia leve: novo biomarcador para doenças neurológicas.

Principais proteínas estruturais que compõem o citoesqueleto neural, os neurofilamentos são essenciais para a estabilidade do axônio, possibilitando seu crescimento radial e garantindo a transmissão dos impulsos elétricos. A classificação dessas estruturas em cadeias leves, médias e pesadas varia de acordo com seu peso molecular. 

Sob condições fisiológicas normais, ocorre a liberação de pequenas quantidades de neurofilamentos dosaxônios para o fluido intersticial cerebral, para o líquido cefalorraquidiano (LCR) e, através da barreira hematoencefálica, para o sangue. Apesar de aumentar com o envelhecimento, esse processo é intensificado quando há danos ou degeneração neuronal. 

Os neurofilamentos de cadeia leve (Nf-L) têm, como característica, a alta solubilidade e, portanto, maior capacidade de passar para o sangue. Ainda assim, sua concentração nessa matriz biológica é cerca de 50 vezes menor do que no LCR. 

Até alguns anos atrás, esse aspecto restringia o estudo dos Nf-L, visto que os métodos de detecção não conseguiam mensurar quantidades tão pequenas. Atualmente, porém, o advento de técnicas ultrassensíveis, a exemplo da quimioluminescência, transpôs tal limitação, tornando os Nf-L um potencial biomarcador para a avaliação não invasiva de diversas condições neurológicas.

 

Aplicabilidade clínica em evolução


É importante assinalar que os Nf-L não são específicos para uma determinada doença e se elevam na circulação em diferentes quadros que cursam com dano axonal ou neurodegeneração, a exemplo de esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, doença
de Huntington e demências, incluindo doença de Alzheimer e frontotemporal, entre outras enfermidades. Ademais, situações agudas como traumatismo cranioencefálico e acidente vascular cerebral podem elevar a concentração do biomarcador nos dias subsequentes ao evento. Dessa forma, o uso dos Nf-L como recurso diagnóstico deve ser complementado com outros exames. 

Em contrapartida, os Nf-L podem ser úteis para o diagnóstico diferencial de algumas condições. Um exemplo é a demência frontotemporal, que pode cursar com manifestações que se confundem com um transtorno psiquiátrico primário – nesse cenário, esperam-se níveis mais elevados do marcador no quadro demencial. 

Além das finalidades diagnósticas, os Nf-L têm sido cada vez mais estudados como indicadores prognósticos e para a avaliação de eficácia terapêutica. A análise no sangue possibilita seguimento longitudinal com dosagens subsequentes do marcador. Pesquisas vêm mostrando, por exemplo, que, em pacientes com esclerose múltipla, uma elevação na concentração sérica dos Nf-L pode predizer recaída, assim como a resposta ao tratamento se associa à sua redução. 

Vale ponderar, contudo, que a interpretação dos resultados nas diferentes situações deve ser cautelosa e sempre embasada pelo contexto clínico. Uma vez que os níveis dos Nf-L no sangue aumentam com o envelhecimento, é preciso considerar a faixa etária na interpretação dos resultados. Além disso, comorbidades como insuficiência renal, diabetes mellitus e lesões cardiovasculares podem interferir nesses valores e igualmente têm de ser levadas em conta.

 

Ficha técnica
 
Dosagem de neurofilamentos de cadeia leve

Método: quimioluminescência

Amostra: sangue periférico

Resultados: em até 35 dias corridos
 

 

CONSULTORIA MÉDICA
Dr. Aurélio Pimenta Dutra - [email protected]
Dr. Caio Vinicius de Meira G. Simioni - [email protected]