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9 meses de equilíbrio | Revista Fleury Ed. 28

A dentista Beatriz é mãe da Isabel, de 5 anos, e de Cecília, de cinco meses

A dentista Beatriz é mãe da Isabel, de 5 anos, e de Cecília, de cinco meses
9 meses de equilíbrio
Ter uma gestação tranquila depende muito das características físicas e emocionais de cada mulher - mas seguir algumas regrinhas ajuda a passar por esse período com mais leveza
por mila vanícola

A advogada Regina Abbud, de 37 anos, viveu a experiência de uma gestação tão tranquila que, se pudesse, “ficaria grávida 20 vezes”. “Foi tudo muito leve, só senti coisas boas”, lembra. Sabrina Grunwald Forte, gerente de recursos humanos de 35 anos, só tem lembranças positivas desse período. “Adorei minhas gestações. Apesar da grande doação física e psicológica, elas foram gostosas e tranquilas”, conta. Já a dentista Beatriz Queiroz, de 38, precisou lidar com alguns percalços: teve fortes enjoos durante a primeira gravidez e diabetes gestacional na segunda.

Mulheres diferentes, vivências diferentes, é claro. Mas, do ponto de vista médico, o que pode contribuir para que essa fase tão importante seja mais leve e equilibrada para a gestante? Mario Burlacchini, obstetra do Fleury Medicina e Saúde, comenta a experiência dessas três mães e dá algumas orientações para quem pretende gestar sem sofrer.

Regina e Maria Eduarda
Antes de engravidar de Maria Eduarda, de 1 ano, Regina tinha medo por conta da idade

Não vale comer por dois

Cuidar da alimentação na primeira gestação era uma preocupação constante de Sabrina. “Eu estava num ano muito produtivo no trabalho, tinha uns horários malucos e muita fome. Tentei manter o equilíbrio.” Ainda assim, depois do nascimento do bebê, ela teve dificuldade para perder o peso ganho durante os nove meses. Quando resolveu engravidar pela segunda vez, decidiu emagrecer antes. “Consultei um nutrólogo, emagreci bastante e mantive a dieta com alguns diferenciais durante a gravidez.” Para Mario Burlacchini, nada mais louvável. “O sobrepeso é um perigo para a mãe e o bebê, pois há um risco muito maior de complicações, como hipertensão e diabetes, que podem acarretar um parto prematuro”, explica. “Além disso, há maior chance de macrossomia [excesso de peso do recém-nascido]”, afirma o médico.

Enjoo engorda?

Beatriz engordou 30 quilos na primeira gravidez. “Até o quinto mês tive muitos enjoos, que só melhoravam quando eu comia. Mas, em vez de comer uma fruta, eu optava por alimentos gordurosos e com muito carboidrato.” Segundo Burlacchini, o ideal é que a mãe ganhe, no máximo, de 9 a 12 quilos até o fim da gestação. Para reduzir os enjoos, não vale exagerar na comida. O recomendado é respeitar as refeições principais e comer pequenas porções a cada duas ou três horas. Além de, claro, ter paciência – o mal-estar melhora por volta da 12ª semana. “A grávida também tende a ficar com o intestino mais preso. Para driblar o problema, é importante beber bastante água e adotar uma dieta balanceada com vegetais, folhas e frutas.”

Equilíbrio emocional

Segundo Burlacchini, a qualidade da alimentação também depende muito do equilíbrio materno. “Muitas gestantes comem em excesso por pura ansiedade.” Por isso, é importante estar bem preparada emocionalmente e escolher um bom profissional para acompanhar esse período. “O obstetra tem de tentar identificar essas angústias. É fundamental um pré-natal adequado, em consultas bem feitas e sem pressa, nas quais haja tempo para ouvir a paciente.” Além disso, dentro de casa, é preciso cultivar um ambiente saudável para a futura mamãe. “Os aspectos familiares que envolvem a gravidez também geram ansiedade. Uma mulher que teve apoio e foi bem acolhida pela família pode chegar ao final da gravidez até mais disposta”, explica Burlacchini.

Já estou velha?

Regina, de 37 anos, teve uma gravidez planejada. “Três ou quatro meses antes parei com os métodos anticoncepcionais e engravidei muito rápido. Mas eu tinha medo por causa da minha idade”, conta. Essa preocupação tem mesmo razão de ser. “A fertilidade é reduzida ao longo dos anos e, conforme o tempo passa, é maior a dificuldade para engravidar. Quando a gravidez acontece, é maior o risco de aborto e de doenças genéticas. A síndrome de Down é a mais comum”, diz Burlacchini. Segundo o médico, é mais recomendado engravidar antes dos 35 anos. “Cada ano que passa, o risco aumenta.”

Posso me exercitar?

Regina faz exercícios regularmente desde os 22 anos e, até a 38ª semana de gestação, frequentou a academia quatro vezes por semana. “Continuei com a mesma rotina, mas com adaptações ao longo dos meses. Em vez de correr, passei a caminhar. Depois, apenas pedalava. Os pesos usados na musculação também eram mais leves.” Mas tudo supervisionado. “Controlava minha frequência cardíaca dentro da faixa estipulada pela minha obstetra.” Na segunda gestação, Beatriz passou a fazer caminhadas três vezes por semana, sob recomendação da obstetra. Além disso, fazia aulas de dança e decidiu manter a atividade até quando se sentiu bem. Para Burlacchini, a grávida pode sim realizar atividades físicas – só não vale resolver entrar em forma e fazer exercícios pesados justamente nesse período. “Há maior risco de lesões osteomusculares, pois o equilíbrio do corpo está diferente. A coluna se modifica, as estruturas e os ligamentos estão mais frouxos e com sobrecarga.” Para ele, vale investir em caminhadas leves, dança e exercícios de baixo impacto.

Beatriz, Isabel e Cecília
Sabrina , mãe da Marina, de 2 anos, e de Felipe, de 4 meses, decidiu mudar de médico na segunda gestação
Diabetes gestacional?
Na segunda gravidez, Beatriz teve diabetes gestacional. “Não queria usar insulina. Fiz acompanhamento com uma nutricionista e tirei totalmente o carboidrato da minha dieta.” A dentista teve de controlar a dosagem de glicose todos os dias em jejum e duas horas depois das principais refeições até o final da gravidez. “A gravidez deixa a mulher resistente à insulina, hormônio responsável pela redução da glicemia. O diabetes pode ser genético, surgir com o aumento de peso ou em mulheres acima dos 35 anos”, afirma Burlacchini. Segundo ele, o acompanhamento nutricional é fundamental nesses casos. “Se o diabetes estiver sob controle, é possível esperar o parto normal. Mas, caso contrário, ele deverá ser programado.”

Difícil escolha?

Durante a gravidez, é imprescindível ter acompanhamento de um obstetra, responsável pela saúde da mãe e do bebê ao longo de todo o pré-natal. E a escolha desse profissional passa pela cautela de toda mãe. “Troquei cinco vezes de médico durante minha primeira gravidez, pois queria um parto humanizado”, diz Beatriz. “Imediatamente após meu primeiro parto, eu já queria outra médica. E tive uma segunda experiência super feliz”, conta Sabrina. “Conhecer o médico e ter empatia é muito importante”, diz Regina. Mario concorda. “Humanização do parto, do pré-natal, acolhimento, atenção, e um bom vínculo médico e paciente precisam existir para gerar uma relação de confiança e de respeito, assim como a escolha do hospital e dos locais para realizar os exames”, lembra Burlacchini.

Inchaços

Regina e Sabrina quase não sofreram com inchaços. Beatriz precisou usar meias de compressão para melhorar a circulação e tentar amenizar o problema. O ganho de peso acima do recomendado pode piorar bastante o quadro – mas inchar um pouco nos pés é natural até para quem engordou pouco, especialmente no final da gravidez. “É recomendável passar um tempo com as pernas levantadas e se movimentar, evitando ficar o dia todo na mesma posição”, recomenda Burlacchini. “Quem sentir que está inchando muito precisa ficar atenta à possibilidade de um quadro de hipertensão”, lembra.

Cansaço extra

No começo da gravidez, cansaço e sonolência são alterações fisiológicas naturais, com as quais as grávidas se adaptam logo nos primeiros meses. Mas sentir ou não esses problemas no final da gestação depende de como foram os meses anteriores. “Trabalhar demais ou desrespeitar os limites do corpo interferem no estado em que a grávida vai chegar em casa no final do dia”, diz Burlacchini. “É importante que a paciente reserve um tempo para descansar. Porque depois vem uma fase ainda mais trabalhosa, a de cuidar da criança”, afirma o obstetra.
Os aspectos familiares que envolvem a gravidez geram ansiedade. Uma mulher que tem apoio pode chegar ao final da gestação mais disposta

de até hoje elas ainda não conseguiram sair. Depois disso, as coisas assumiram o poder das palavras restantes, que eram poucas. O tempo enfraqueceu, pois ele era uma das palavras que foram para o labirinto. As coisas perdoaram o tempo, com a condição de que elas mantivessem a soberania sobre ele, e ele não fez senão concordar. Desde então, o tempo só aparece nos ovos, nas plantações, nos ventres e nos tambores.”
Na obra de Noemi Jaffe, a mistura entre leveza e densidade se dá de maneira natural, da mesma forma que a mistura entre gêneros como poesia, contos e crônicas, que se sobrepõem. Além de crítica literária do jornal Folha de S.Paulo e professora de escrita criativa, a paulistana Noemi é autora do volume de poemas Todas as pequenas coisas, das crônicas de Quando nada está acontecendo, de O que os cegos estão sonhando? e, mais recentemente, de A verdadeira história do alfabeto, um divertido compilado que explica como cada letra foi criada. Falar sobre leveza, para ela, é lembrar de simplicidade, humor e imaginação – na escrita e na vida.

Uma das frases mais conhecidas de Noemi nasceu em um de seus cursos. “Simplicidade não se opõe à complexidade: um texto deve ser complexo em sua leveza.” É que, para ela, ser leve tem relação com alguns excertos de Italo Calvino sobre o assunto no livro Seis propostas para o próximo milênio. “Ele fala sobre dois tipos de leveza: a leveza da pluma e a leveza do pássaro. Diz que é importante ser leve como o pássaro, não como a pluma, porque a pluma é leve, mas não tem direção, é aleatória, cai de acordo com a direção do vento. O pássaro, não: ele é leve, mas tem direção, tem decisão”, lembra a escritora. “Falo nos meus cursos que o tipo de leveza interessante na literatura é esse. Não é uma leveza fútil. Se pensarmos em termos físicos, a leveza e a densidade se opõem. Mas, na literatura, não: uma coisa pode ser densa e leve nesse sentido de decisão, de escolha, mas sem perder a simplicidade e a clareza”, completa.

Contraponto

São conceitos tão complementares quanto contraditórios, que ela própria enxerga, de fato, em suas obras. Noemi começou escrevendo sobre temas um pouco menos densos, mais cotidianos, como no livro Quando nada está acontecendo, que traz o olhar da autora sobre as coisas mais singelas de cada dia. “Sempre falo para meus alunos que as coisas que as pessoas falam e fazem, os gestos, os olhares, as palavras são muito legais. Se você quer dar dinâmica, vivacidade e verossimilhança a um texto, precisa prestar atenção aos detalhes das pessoas, uma pinta no rosto, um jeito de segurar a xícara...” Noemi lembra, ainda, que essa afeição pela leitura do cotidiano vem também do apreço pela poesia de Manuel Bandeira, da crônica de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, de alguns poetas como William Carlos Williams e Wallace Stevens. “Sempre me senti muito atraída por esse tipo de leitura”, diz.


“A literatura contemporânea fala muito da problemática urbana burguesa, muito do dia a dia, de questões verossímeis, realistas, individuais... Mas eu não gosto disso. Acho que falta imaginação”


No entanto, em O que os cegos estão sonhando?, o tema é bem mais denso. O ponto de partida para o livro foi o diário escrito pela mãe, Lili Jaffe, após ser salva pela Cruz Vermelha do campo de concentração nazista de Auschwitz, onde foi prisioneira por um ano. Mas o retorno dos leitores, segundo ela, não reflete tanto o peso da história. “As pessoas têm me dito que sentem que é um livro positivo, que fala de superação e não é melodramático”, conta Noemi. “O assunto pode ser bem denso, mas tento sempre colocar principalmente a autoironia, alguma personagem meio desajeitada... Tento passar reflexões profundas sobre a existência sem apelar para recursos que deixem aquele texto muito incompreensível.”

Durante o processo de criação de O que os cegos estão sonhando?, Noemi precisou lidar com a forte carga emocional da questão familiar. Ela diz que todo o processo foi dolorido – e continua sendo. “É um processo de recuperação. A escrita me obrigou a ir para Auschwitz, a levar minha filha para lá também, e a ver outros lados da história, visitar vários museus do Holocausto... Você precisa se confrontar com a história ali, cara a cara. E tive que conversar várias vezes com minha mãe, fazer ela reviver coisas que já tinha apagado”, recorda.

A mãe parece ser uma inspiração muito forte para a escritora e sua forma de lidar com questões tão difíceis. Noemi não queria que a dor de ambas fosse determinante no livro. “Eu não queria mais um livro de autovitimização. Uma das coisas que minha mãe me ensinou é a não se autovitimizar. É uma coisa que ela não fez. E se ela, que passou por isso, não se vitimizou, não tem cabimento eu me fazer isso”, diz. Segundo Noemi, a mãe tem um jeito muito leve de lidar com a dor. “Queria que as pessoas também prestassem atenção na construção da superação dela, na ideia da memória, da sobrevivência. Eu não tive só dor nesse processo. Também tive muito aprofundamento, muito prazer e muita superação”, conta.


“Minha mãe nos criou – nós somos três irmãs – de um jeito muito sem frescura, porque ela tinha que trabalhar para se sustentar. Ela confiava na gente e realmente aprendemos a nos virar, sem superproteção. Somos mulheres muito batalhadoras. Acho que minha escrita também é assim, sem frescura”


Outras histórias

Encontrar o tom certo entre as linhas tão tênues da vida também foi um grato desafio na mais recente obra de Noemi, A verdadeira história do alfabeto. Mais imaginativo e cheio de bom humor, ele traz a genealogia ficcional das letras do alfabeto e de algumas palavras da língua portuguesa. A ideia do livro veio da paixão de Noemi por línguas e dicionários. “Fico até lendo livros em outras línguas só para sentir o sabor e o som das palavras, atribuo significados às palavras que não conheço só pelo som delas.” Ela conta que estava lendo um livro de Davi Grossman [escritor israelense], que fala de uma brincadeira de duas crianças em que elas “hospitalizam” as palavras doentes, aquelas que perderam o significado de tanto serem usadas. “Pensei: 'Ah, vou inventar uma brincadeira de criar a origem das letras do alfabeto'. Eu ia no dicionário, escolhia uma palavra que já existe, por exemplo, átomo, e pensava: 'Como alguém precisaria ter criado a letra A e a palavra átomo?'. E assim fui fazendo com todas as letras”, explica.

Apesar do tom divertido do livro, há quem o considere difícil. Noemi discorda. “Acho que é preciso se permitir entrar naquele jogo absurdo de se apropriar de realidades que já existiram e aceitar que haja coisas completamente absurdas dentro dessa realidade. Precisa saber jogar. É uma questão de aprender as regras do jogo.”

Já em Todas as pequenas coisas, Noemi faz uso de diálogos em poemas. Um contraponto de gêneros que ela credita não apenas à intenção, mas também à maneira como exerce o ofício de escritora. “Não sou uma pessoa de escrever durante muito tempo. Escrevo por uma hora, paro, retomo mais meia hora... Acho que a mistura vem por causa desses lapsos de tempo. Acabo fazendo a prosa de um jeito mais poético e a poesia de um jeito mais prosaico.”

Em todas essas histórias em prosa e verso, talvez seja a maneira bem-humorada e simples da autora de viver e passar pelos dias o principal ponto em comum. “Não gosto de causar problemas e sofrer muito por coisas que não merecem. Não gosto de caprichos inúteis, não tenho vocação nem paciência para isso. Não consigo o tempo todo, não sou uma super-heroína para conseguir sempre encontrar leveza em São Paulo! Mas se estou parada no trânsito, por exemplo, fico observando as pessoas...”