A cidade é minha galeria | Revista Fleury Ed. 26

Eduardo Srur expõe sua arte a céu aberto e movimenta o cenário de cidades brasileiras com instalações bem-humoradas

Eduardo Srur expõe sua arte a céu aberto e movimenta o cenário de cidades brasileiras com instalações bem-humoradas

Quem vive e circula pela capital paulista já viu ao menos uma das obras do artista plástico Eduardo Srur. Basta citar, por exemplo, os caiaques espalhados pelo rio Pinheiros, as garrafas PET gigantes às margens do rio Tietê ou a carruagem com quatro cavalos instalada na ponte estaiada Octávio Frias de Oliveira. A criatividade desse paulistano para interferir no cenário urbano e fazer pensar gera obras grandes, coloridas e chamativas, que incentivam um questionamento capaz de ultrapassar as barreiras da cidade cinza e cheia de esigualdades. Sua arte está ali, a pleno alcance, exposta em locais de grande circulação e visibilidade, de modo a despertar nas pessoas a vontade de olhar para a paisagem de sempre de forma diferente.

Uma arte democrática, inspirada pela própria cidade e que traz sempre uma pitada de humor para falar de assuntos espinhosos – como a poluição que tornou inviável a prática dos esportes náuticos que coloriam a superfície do rio Tietê até a década de 1970. “A intervenção urbana cumpre um papel de educar, de formar o olhar do público. Uma vez inserida no cotidiano, ela aproxima arte e vida, atinge um número maior de pessoas e gera mais reflexão”, acredita Eduardo.

O artista recebeu a equipe da Revista Fleury no prédio onde nasceu, que hoje abriga o ateliê onde suas obras começam a ganhar forma. Lá, numa área aberta e com vista privilegiada da Marginal Pinheiros, de bom humor e feliz com suas mais recentes criações – as obras da exposição Sonhos e Pesadelo –, ele falou sobre seu processo de criação e sua relação com a cidade.

Fleury: Por que você optou pelas intervenções urbanas e não expõe suas obras em museus e galerias?
Eduardo Srur: São linguagens diferentes. Para participar de qualquer atividade, você tem de entender as regras, para fazer parte delas ou quebrá-las. A intervenção urbana é uma possibilidade de quebrar diversas regras, e por isso optei por ela.

FL: Como sua trajetória começou?
ES: Comecei com a pintura. Tenho formação acadêmica, trabalho com pintura há mais de 16 anos, e hoje vejo o mundo e a paisagem da cidade como um pintor. As intervenções urbanas invadiram minha produção por uma necessidade muito clara de ampliar minha presença na sociedade, no sistema. O ateliê e o circuito tradicional de arte começaram a ficar pequenos para as minhas manifestações artísticas, e passei a usar a cidade como plataforma de trabalho. A cidade é a minha galeria.

FL: Quais são as possibilidades que a intervenção urbana oferece para o artista?
ES:Essa manifestação artística permite transitar entre todas essas linguagens consideradas plásticas. Posso lidar com pintura, escultura, fotografia e performance, como a que fiz na inauguração da exposição “Sonhos e Pesadelo” [Srur aplicou 60 quilos de graxa sobre os ratos da obra O Farol, com a participação espontânea do público]. A intervenção urbana cumpre um papel de educar, de formar o olhar do público. Uma vez inserida no cotidiano, ela aproxima arte e vida, atinge um número maior de pessoas e gera mais reflexão. Você democratiza a mensagem, possibilita diferentes interpretações e um maior número de respostas – tantas que até o artista é pego de surpresa.

FL: E você tem contato com o público para obter esse retorno?
ES: O tempo inteiro. Sempre me perguntam se eu tenho alguma referência histórica, artística. Mas tenho muito mais referência do cotidiano, da vida e da forma como as pessoas se movimentam na cidade. Aproprio-me de elementos e objetos muito próximos desse dia a dia do que de uma história propriamente dita. Essa vivência, essa experimentação que a intervenção urbana propõe para o artista e para o público, me aproxima das respostas. E elas vêm de diferentes formas – você pode atingir uma pessoa altamente intelectual, que conhece o sistema da arte, e gerar ali certa interpretação. E, ao mesmo tempo, você pode tocar e sensibilizar pela primeira vez um público ainda não preparado, não formado para esse universo das artes plásticas, e gerar uma espécie de curto-circuito. Você consegue provocar o olhar. E, com sorte, trazer uma nova perspectiva de pensamento.

FL: O impacto que suas obras causam nas pessoas pode ser perene, já que elas ficam expostas apenas por um período?
ES: Não. A natureza da intervenção urbana é a mesma da cidade: é a dinâmica, o movimento e a mutabilidade. Ela tem certo período de vida, para depois desaparecer e se transformar em outra coisa. Uma grande recompensa para mim acontece quando as pessoas enxergam o rio Pinheiros anos depois de Caiaques, por exemplo, e não conseguem mais dissociar, separar a imagem do rio e da intervenção que o ocupou durante 60 dias. E na cidade de São Paulo tudo muda o tempo inteiro e em todos os lugares ao mesmo tempo.

FL: Você fez as pessoas se movimentarem pela cidade durante a exposição “Sonhos e Pesadelo a partir de um bike tour pelas suas obras. Mobilizar as pessoas dessa forma é também um objetivo claro da sua arte?
ES: Eu utilizo a arte como um campo de experimentação. Toda vez que consigo fazer com que a arte destrua a fronteira institucional, a parede museológica, a partir de uma interferência direta no cotidiano e no sistema, sinto que algum campo de energia está sendo movido. O bike tour, ou #pedalasrur, como a gente chamou o passeio, mostra um pouco essa tentativa, esse caminho alternativo, em que a arte sai da zona de conforto e vai mostrar uma mudança de fato social. Você mobiliza as pessoas, leva-as até a área expositiva, conta e compartilha essa história. É uma proposta de vivência em que a arte e a vida estão fundidas ali, por determinado período de tempo.

FL: Como é o seu processo de criação?
ES: O livro que lancei no final do ano passado, Manual de intervenção urbana, desde o começo teve um motor de propulsão que não era direcionado para o circuito artístico ou para história da arte, mas muito mais ligado a esse convívio que eu tenho com a cidade e a natureza. Os elementos água, fogo, ar e terra são muito presentes no processo de criação das obras. Quando me refiro à natureza, falo de uma visão macro – a cidade também é natureza, mas transformada pelo homem. E o papel do artista é, muitas vezes, tentar responder a essa paisagem alterada de alguma forma. As minhas intervenções propõem essa resposta a uma paisagem que me foi imposta no campo de visão e do pensamento.

FL: É possível uma cidade ideal para se morar? Como ela seria?
ES: Não existe cidade ideal. O barato da arte é justamente mostrar os erros, os vácuos da cidade. O artista entra exatamente onde a coisa não está funcionando, e é ali que ele gera crítica, faz humor. Minhas obras são carregadas desses dois elementos, sempre: trazem crítica e contestação, mas também cor, humor e certa dose de ironia. E, quando eu consigo equacionar esses dois elementos, percebo que a obra tem uma absorção melhor do público.

FL: Você já abordou o consumo desenfreado, a falta de desenvolvimento e de valorização das esculturas, a poluição dos rios, os problemas da mobilidade urbana... O que falta fazer?
ES: Tudo. Eu penso o tempo inteiro em arte. Arte e vida para mim são as mesmas coisas.


Corpo em movimento

Nem só de arte vive o artista. E Eduardo Srur vive de muito mais. “Tenho algumas válvulas de escape”, diz ele, um praticante assíduo de muitos esportes. Srur faz natação no Clube Pinheiros, na região oeste de São Paulo, vai à praia para surfar sempre que possível e também é adepto de um jeito diferente de fazer ioga.

“Vou cedo para o parque Alfredo Volpi, um núcleo de Mata Atlântica nativa na cidade de São Paulo, e faço ioga dentro da sauna. Em uma viagem ao Marrocos conheci o Hamman, que é uma sauna com uma temperatura não tão alta, de no máximo 45 graus, e adorei fazer”, conta.
O artista também gosta de ciclismo de lazer – mas não pratica com a frequência que gostaria. “Ando muito pouco de bicicleta em São Paulo. Salvo as atividades na ciclofaixa, onde a bike é usada como objeto de mobilidade e lazer, aqui ainda não é um espaço que recebe essa atividade calorosamente. É muito morro, um lugar ingrato para isso.”


“Quando me refiro à natureza, falo de uma visão macro – a cidade também é natureza, mas transformada pelo homem.”

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