A educação como regra | Revista Fleury Ed. 19

O psiquiatra Içami Tiba afirma que a escola e os pais dividem o papel de formadores das crianças, mas que estes erram ao terceirizar a educação dos filhos

O psiquiatra Içami Tiba afirma que a escola e os pais dividem o papel de formadores das crianças, mas que estes erram ao terceirizar a educação dos filhos

O psiquiatra Içami Tiba, de 68 anos, é um dos profissionais mais respeitados e populares do país em matéria de formação de crianças e jovens. Seus 27 livros, que orientam pais e filhos, já venderam mais de 4 milhões de exemplares – o mais famoso deles é Adolescentes: quem ama educa!. O curioso é que o sucesso de Tiba não se apoia em vender facilidades ou apresentar conselhos agradáveis. Ao contrário. Ele é severo, aponta erros cometidos pelos pais na formação de seus filhos e prega mudanças de comportamento. Às crianças, ressalta o psiquiatra, os pais devem impor limites e dizer “não”. É o fim do reinado dos pequenos. “Hoje, ser educado é estar na contramão”, ressalta. Na entrevista a seguir, Tiba fala sobre o papel das escolas e dos pais na educação das crianças e sentencia: em tempos de abundância de tecnologia e informação, os pais precisam aprender a ensinar.
Fleury: Em linhas gerais, qual é o papel da escola e qual é o dos pais na educação das crianças?
Içami Tiba: Ambos são muito importantes, e um não substitui o outro. São complementares. A escola lida com a parte lógica da criança, um pouco com a relacional, social, mas não com a parte individual, da formação da personalidade e da civilidade. Essas questões têm, desde o início, de ser praticadas em casa, com uma educação contemporânea.

Fleury: Os pais estariam, então, delegando à escola o papel de educador de maneira excessiva?
IT: Sim, porque, em geral, os pais atravessam uma fase difícil de início de carreira, quando têm de investir na profissão e trabalhar mais, competir e se habilitar para empregos melhores. Assim, acabam por ter muito pouco tempo para a formação das crianças – e é preciso preparo para educar. Então, os filhos são deixados com babás ou em creches que não os instruem. Isso é um grande desperdício, porque o período em que o ser humano mais aprende na vida ocorre até os 3 anos: se até esta idade não for desenvolvido todo o potencial de que é capaz, vai ser difícil recuperar isso mais tarde. Acho que os pais não estão aplicando o que chamo de “sustentabilidade”: estão apenas vendo as necessidades imediatas, deixando de construir o cérebro e a personalidade do filho no momento em que ele mais precisa. Quando convive com os pais, uma criança de 3 ou 4 anos desenvolve um vocabulário de aproximadamente 10 mil palavras. E isso não vale só para palavras, mas para o comportamento em geral. Que comportamento os pais pretendem ensinar a seus filhos, se estes são deixados unicamente com a babá, que muitas vezes não tem educação nenhuma?

Fleury: O senhor costuma dizer que “não basta ser pai: é preciso saber como educar”. Como isso se dá no cotidiano?
IT: Os pais precisam se educar para ser educadores, construtores de cidadãos éticos. Isto é, a educação hoje é um projeto. Um exemplo: se o pai vai procurar um emprego novo porque o ramo em que atuava se tornou obsoleto, precisará aprender coisas novas; caso contrário, ficará fora do mercado. Então, por que, quando adquire um emprego novo chamado “paternidade”, ele não se prepara para isso?

Fleury: Vivemos em dias de alta tecnologia, abundância de informações e rápida mudança de costumes. A diferença de gerações entre pais e filhos atualmente é maior do que foi no passado?
IT: É muito maior, por dois motivos. Primeiro porque os filhos não convivem com os pais. Segundo porque o mundo mudou. A tecnologia faz com que hoje a criança esteja mais próxima de um computador. Então, é preciso que os pais usem a linguagem que os filhos estão aprendendo. Não me refiro à gíria, mas à tecnologia. Senão, os pais ficam obsoletos, e ninguém respeita como autoridade quem é obsoleto. Quando compram um brinquedo ou um equipamento para o filho, é preciso que se atualizem sobre aquela tecnologia. Pai não senta para brincar de carrinho com o filho? Então, tem que sentar também para brincar de game.
Fleury: Em suas obras, parece clara a noção de que os pais devem impor limites aos filhos – para o bem deles próprios, da família e também da sociedade. Como os pais devem dosar sua autoridade, evitando cair em extremos como relaxamento total, por um lado, ou tirania, por outro?IT: Há crianças que precisam de mais limites, outras, menos. Não se pode dar a mesma regra a todos. Há crianças que obedecem a partir da primeira ordem dos pais; já outras, não: com estas, é preciso insistir muito. A primeira coisa que os pais devem aprender é que a noção de limite não é absoluta: para cada filho, há uma. Mas é preciso que sejam estabelecidos, porque a falta de limites é um veneno. Sem limite, um filho vai a lugares e faz coisas para as quais não tem competência. À medida que se torna capaz de fazer determinadas coisas, os pais devem ampliar os limites. Esta é a medida certa.

Fleury: Em suas obras, o senhor diz também que as famílias precisam formar mais cidadãos éticos do que filhos. O que, afinal, o senhor define como “cidadania familiar”?
IT: É não poder fazer em casa o que não se pode fazer na rua. A criança tem que começar a praticar em casa as suas obrigações: não pode jogar lixo no chão em casa, como não pode jogar lixo na rua.

Fleury: A julgar pela educação que temos atualmente, seja nas escolas, seja nas famílias, que tipo de país podemos esperar no futuro?
IT: Tomara que haja uma reviravolta, porque hoje ser educado é estar na contramão. Mas há muita gente acordando para o problema.

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