Atitude é fazer | Revista Fleury Ed. 37

O título do seu último livro, Não há tempo a perder (Tordesilhas, 2016), já diz muito a respeito do seu caráter. Na obra, lançada em novembro do ano passado, o navegador, escritor e empresário Amyr Klink descreve os caminhos que percorreu para realizar seus projetos, que até hoje já resultaram em mais de 250 mil milhas exploradas e muitos barcos construídos.

Para o navegador Amyr Klink, planejamento é importante, mas não é nada sem capacidade de execução

O título do seu último livro, Não há tempo a perder (Tordesilhas, 2016), já diz muito a respeito do seu caráter. Na obra, lançada em novembro do ano passado, o navegador, escritor e empresário Amyr Klink descreve os caminhos que percorreu para realizar seus projetos, que até hoje já resultaram em mais de 250 mil milhas exploradas e muitos barcos construídos.

Como descreve a orelha do livro, “ele tem um vínculo radical com algumas decisões que toma, mergulha nelas”. A ponto de dizer que, “se tiver que morrer no caminho, paciência, é outro problema”. O mais importante para ele, porém, é executar os projetos, o que significa nunca esmorecer diante das dificuldades, que sempre foram muitas: recursos escassos, excesso de burocracia, desconhecimento técnico.

Essa obstinação o levou longe. Amyr Klink Já fez mais de 40 viagens para a Antártica e, hoje, é um grande empresário do mundo náutico, que tem sob seu comando cerca de 700 funcionários na Marina do Engenho, em Paraty (RJ). A seguir, ele conta um pouco do que o levou em suas jornadas.



Você diz que, em alto mar, ninguém pode dormir antes de resolver um problema, senão todos podem morrer. Se as pessoas adotassem esse lema em suas vidas, seriam mais eficientes?

É mais do que poder. No barco, ninguém tem o direito de dormir enquanto não resolver os problemas do dia! Se todos fizessem isso, acho que o mundo seria mais equilibrado. Teríamos menos coisas por fazer e viveríamos melhor. Cometeríamos menos erros. Por que existe esse lema no barco? Porque todo mundo que está lá dentro percebe que o barco afunda. Você não precisa pedir empenho, dedicação, compromisso, todo mundo abraça a solução do problema até resolver. No dia a dia, a gente não tem essa certeza da punição, do desfecho dramático. Uma empresa não afunda de uma hora para a outra, o processo é lento e pouco perceptível.



No livro Não há tempo a perder, você relembra momentos difíceis que precisou enfrentar ou driblar para realizar seus planos. Quais eram esses planos? Por que decidiu se dedicar à navegação?

Fiquei muito frustrado com a minha opção acadêmica, economia e administração. Eu gosto de executar, e vivemos num país onde se fala muito e se faz pouco. Nenhuma cidade brasileira está pronta. Tudo é mais ou menos. Então, fui trabalhar numa área – contabilidade financeira – que era pior ainda. Para que serve um analista financeiro num país com quatro dígitos de inflação? Para nada! Resolvi voltar para Paraty e mexer nas terras do meu pai, que estavam abandonadas. Comecei a mexer com búfalos, para produzir leite. Eu sonhava em fazer muçarela de búfala, e acabei fabricando por dez anos. Até que surgiu a primeira travessia [do Atlântico Sul a remo]. Eu me encantei pela ideia de remar pelo Atlântico. Vários já haviam tentado e fracassado. Resolvi estudar os fracassos e acabei montando uma espécie de biblioteca só de naufrágios. É bom aprender com os próprios erros, mas a gente tem um limite. Tem erros que a gente não pode cometer. Aí nasceu a ideia de fazer o barco e aconteceu a viagem, que durou cem dias. Até o 70º dia, parecia impossível cumprir a meta. Tive de levar 270 litros de água e, no começo, com o peso, não conseguia cumprir a meta de 33,7 milhas diárias. Mas não me apavorei, porque a cada dia fui conseguindo um incremento adicional de desempenho. No início, eu estava mais gordo, tinha 100% dos suprimentos. À medida que fui avançando, fui ganhando desempenho físico, perdendo peso, a água e os suprimentos foram diminuindo, e o barco foi ficando mais leve e eficiente. No final cheguei seis dias antes da data prevista.



Em algum momento, diante de uma dificuldade, você pensou em desistir?

Milhares de vezes. Nunca fui obcecado; fui obstinado, mas não obcecado. A obsessão é o caminho certo para o desastre. Houve várias coisas que eu quis fazer e percebi que não tinha como. Mas teve muita coisa que eu fiz que parecia utopia. A travessia a remo, no começo, parecia utópica. A minha atividade hoje: eu queria ter um negócio sobre o mar, flutuante. Hoje eu tenho 700 pessoas trabalhando sobre o mar, o meu escritório, a fábrica de gelo, a oficina, tudo é em cima do mar. A agência de locação de barcos é sobre o mar. Mas era uma utopia, porque, no Brasil, ninguém sabia administrar o manejo das embarcações. Barco não precisa de praia ou de cais. Barco precisa de flutuante para parar. Existe norma para isso, mas no Brasil nem as seguradoras sabiam como tratar as embarcações. Fui resolvendo esses problemas. Fazer tudo levou muito tempo. Não tinha fornecedor de plataformas flutuantes; importar era muito caro, fui fabricar.



Você sempre foi determinado, desde criança?

Não é que eu seja determinado. Quando gosto de alguma coisa insisto muito, vou até onde o bom senso me deixa ir. Uma característica interessante que uma pessoa pode ter é a competência executiva. Tem de acontecer. A febre do planejamento e da estratégia não adianta nada sem a capacidade de executar, sem a proatividade. A gente planeja as viagens para a Antártica com anos de antecedência, mas o legal mesmo é quando a gente mete a proa do barco num iceberg baixo e desce para caminhar no gelo flutuando. É o primeiro sinal de que a gente colocou a temporada em pé.

Quando cometia erros, você ficava desanimado ou tentava aprender e seguir em frente?

Tirava uma bela de uma inspiração para não cometer mais a mesma besteira. Eu cometi alguns erros. Por exemplo: fiquei preso num pedaço de gelo na Antártica e perdi o bote. Daí apareceu um veleiro pela primeira vez em um ano naquele local. E se esse veleiro não tivesse aparecido? Eu teria morrido! Estava sozinho e fui pegar água no iceberg para fazer um café. Sem querer, não amarrei o bote e ele foi embora. Foi um quase acidente. Mas por que eu cometi esse erro? Pela excitação! Depois disso, eu aprendi que é exatamente quando tudo parece tranquilo e perfeito que os erros acontecem. Com o tempo, você vai ganhando essa prática de controlar a angústia, a emoção, a euforia. E de tomar cuidado até o último milímetro. Um dos maiores erros que eu cometi foi por orgulho. Na minha primeira volta ao mundo, eu não quis contratar um escritório de meteorologia, porque eu tenho os modelos matemáticos e sei fazer análise. Foi um erro. Esse ambiente [da navegação] quebra a gente, faz com que sejamos um pouco mais humildes.



Que preço você paga por ser uma pessoa de atitude?

Eu acho que não há ônus em ter atitude. Tenho muito prazer em saber o que eu quero, ter discernimento para nem sempre concordar e também para reconhecer quem sabe menos do que eu ou quem não sabe quase nada, mas pode me ensinar muito, que é uma das coisas que eu adoro na minha atividade. Eu lido com engenheiros ultracompetentes que têm muito pouca sabedoria e quase nada para ensinar, e com caras que não têm dentes na boca e são gênios. E muitas vezes faço projetos sofisticados, para clientes muito exigentes, em que uso essa engenharia autóctone ou primitiva, de quem só tem a sabedoria, mas não tem a formação. E isso ajuda muito a criar projetos diferentes. Fizemos os primeiros barcos que foram para a Antártica sem estaiamento, com mastros autoportantes. Fizemos o primeiro barco no mundo sem lastro e o primeiro com três anos de autonomia.



Mas não tem ônus nenhum? Não desperta nem inveja?

Inveja não é um ônus, eu acho engraçado! Talvez eu tenha deixado de fazer muitos projetos porque tenho certas posições das quais não abro mão. Deixei de fazer contratos com grandes empresas porque simplesmente não gostava da atitude delas.



E quais as recompensas?

A credibilidade que você vai conquistando; o apoio das pessoas que autenticamente se desdobram até a alma para ajudar você. Eu sou famoso hoje por às vezes desagradar pessoas que, se eu adulasse, conseguiria favores financeiros ou econômicos interessantes. Mas eu não abro mão das minhas convicções.



Medo e coragem são excludentes ou são dois lados da mesma moeda?

Eu tenho muito medo da coragem excessiva. Coragem não é a atitude de se lançar no vazio, ser o primeiro a sair arrebentando no peito. Coragem é muito mais a capacidade de perseverar, de recomeçar, de insistir, de não abrir mão, de não ceder, de admitir os erros... E o medo é importante. Faz parte do problema. É um dos problemas que precisam ser enfrentados. O medo pode ser altamente produtivo. Ele passa a ser perigoso quando se torna um inibidor de atitudes, quando paralisa. Eu não sou muito engraçado no dia a dia, mas fico engraçado quando estou com medo, começo a fazer piadas! Esse bom humor em relação a uma situação crítica ajuda você a encontrar uma solução mais rapidamente.



Como fortalecer a resiliência, uma qualidade que você diz que é pouco valorizada, mas muito importante para a vida?

Quando você está inspirado com alguma coisa, tem convicção de que é possível, mesmo que haja muita dificuldade, é uma forma de você valorizar essa capacidade de resiliência. Mas acho perigoso você ser resiliente num ambiente hostil, onde não tem chance de ir para frente. É perigoso ser resiliente diante de um exército inimigo muito maior que o seu.



Você poderia contar o episódio de um profissional de TI que queria muito sair em viagem com você e precisou passar por uma prova de insistência para conseguir?

Foi o Igor [Alexandre Souza]. Era um moleque de 18 anos, que foi fazer uma instalação de rede no barco e começou a insistir em zarpar comigo. Ele não tinha calos na mão! Perguntei se ele já tinha andado de barco. Não. Ele não tinha perfil. Mas me atormentou tanto que, um dia, falei pra ele: “No ano que vem, se você me ligar toda segunda-feira antes das 7:00, eu te levo no final do ano.” Ele ligou. No final do ano, tive de levá-lo. Foi o melhor tripulante que já tive. Ele trabalhava na HP, tinha um megassalário e, por causa da viagem comigo, pediu demissão. O pai dele queria matá-lo e me acusou de ter destruído a carreira do filho. O que ele fez? Montou uma empresinha de TI, abriu o primeiro escritório nos Estados Unidos, o segundo na Austrália e, hoje, é muito bem-sucedido. Viramos sócios em dois projetos! Ele acabou comprando o meu barco vermelho! Hoje, ele é um supergestor. O desafio dos telefonemas das segundas tinha o propósito de ver se ele era persistente mesmo, se queria mesmo ir. E ele estava convicto. Mostrou que era um cara de atitude.



Estaria correto dizer que você é obsessivo com detalhes, planejamento e controle? Navegar é lidar com o incerto, com o imprevisto. Como você transita entre esses dois estados?

Eu não diria que sou obsessivo, mas presto muita atenção no processo que vem antes. Mas, ao mesmo tempo, eu gosto do imprevisto. Se eu soubesse sempre tudo o que vai acontecer, nada teria graça na vida. O fato de eu me preocupar muito com o processo todo, com os detalhes, e o fato de eu gostar de ter um plano bem factível me dão muita segurança quando a situação muda de figura, porque eu sei que mudou. Eu sei quanto estou perdendo de um lado e quanto estou ganhando de outro. Essa é a função de planejar. O mais importante não é alcançar aquilo que você determinou, é saber para onde você está indo.

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