Bola sempre para o alto | Revista Fleury Ed. 39

Para José Roberto Guimarães, ser esportista significa uma contínua caminhada sobre a tênue linha que divide o fracasso da conquista. Ambos, contudo, ensinam muito.

Para José Roberto Guimarães, ser esportista significa uma contínua caminhada sobre a tênue linha que divide o fracasso da conquista. Ambos, contudo, ensinam muito.

Lauro queria os filhos engenheiros ou médicos. Ex-jogador de futebol profissional, só aceitaria os herdeiros seguirem o mesmo caminho se jogassem e, em paralelo, estudassem. O mais novo, José Roberto, seguiu à risca o pedido do pai, só que em outro esporte e em outro curso: vôlei e educação física. De início, a escolha não pegou bem em casa, mas as convocações para a seleção brasileira foram amolecendo o coração do velho. Pai e filho não têm do que se arrepender.

Único brasileiro tricampeão olímpico, único treinador campeão olímpico de vôlei tanto no masculino quanto no feminino, José Roberto Guimarães poderia facilmente se autoproclamar um vitorioso. Humilde e elegante, contudo, evita vestir-se com essa alcunha por aí, até porque sabe muito bem que, para chegar ao topo, muitas derrotas cruzaram seu caminho. Na verdade, seja na vida ou no esporte, o fracasso é muito mais comum.

Fracasso denota sempre algo negativo. É por aí mesmo?

Fracasso é um sonho não realizado. É também uma situação muito complicada de ser administrada, porque você acaba sucumbindo depois de ter se preparado e planejado visando ao sucesso. No caso do esporte, a linha entre o fracasso e a vitória é muito tênue. Ao longo da minha vida, aprendi muito com essas situações. Nunca conheci alguém que tenha tido sucesso sem ter fracassado. É possível aprender muito com as derrotas, principalmente, se você conseguir obter as respostas que as motivaram. Entender por que e como elas aconteceram é o handicap mais importante que o fracasso pode dar. Mais ainda, esse é o começo de uma grande vitória.

Como fazer essa transformação de derrota em vitória?

O primeiro passo é identificar não só os erros, mas também os acertos. Então, trata-se de uma busca incessante por fazer coisas novas, por buscar profissionais que sejam os melhores nas suas áreas. Porque, nos meus times, é sempre um trabalho em equipe. Não ganho nem perco sozinho. Ao mesmo tempo, aprendi que existem coisas muito importantes que margeiam a quadra e que vão além do treinamento. Trabalhando com mulheres, descobri o quão importante é saber mais sobre o metabolismo e o organismo feminino. Para quem trabalhou muito tempo com esporte masculino, posso dizer que é outro mundo, outra sensibilidade. É preciso conhecer, inteirar-se e, sobretudo, participar dele. Por fim, no nosso caso, ainda tem o adversário do outro lado da quadra para deixar tudo mais difícil.

Numa retrospectiva da sua vida pessoal e esportiva, quando a hashtag da revista, #bolaprafrente, mais fez sentido para você?

Conheci a derrota mais dura da minha vida em Atenas [nota da redação: o Brasil perdeu, de virada, para a Rússia na semifinal dos Jogos Olímpicos de 2004 por três sets a dois, depois de ter cinco match points seguidos no quarto set]. Nessas horas, o mais difícil é o pós-fracasso. Quando aquela última bola cai, e você se dá por si do que aconteceu, surge um sentimento de frustração enorme. Logo depois disso, contudo, você começa a pensar nos porquês e sai ao encontro dessas respostas, e é justamente aí que vem o “bola pra frente”. A vida continua, não acaba ali. Escolhi fazer o seguinte: após a derrota de 2004, fui treinar um time na Itália por três anos para aprender e estudar minhas adversárias. Em paralelo, nossa equipe assumiu o desafio de melhorar o trabalho como um todo: qual o diferencial que deveríamos buscar em termos técnico, tático, físico e psicológico para o futuro? Foi muito suado e assim foi feito. Quando conseguimos entender o caminho a ser percorrido, encontramos as respostas muito rápido. Os nossos resultados provam isso: alcançamos em torno de 90% de aproveitamento de vitórias naquele ciclo olímpico. Na Olimpíada de 2008 (em Pequim), perdemos apenas um set em oito jogos. Poucos times conseguiram fazer 20 pontos em nós. Então, Atenas foi um marco muito importante para a gente. Permitiu-nos entender o que era preciso mudar.

O que é mais complicado: a transição entre as categorias masculina e feminina ou de jogador para técnico?

Sem dúvida a de atleta para técnico. Procurei me preparar bastante para esse momento. Sabia exatamente o que queria fazer, planejei esse passo, mas o duro mesmo foi parar de jogar. Joguei em alguns dos melhores times da minha época, como a Pirelli, e parei aos 34 anos, na Abasc, de São Carlos (SP). Com 38 anos, já era campeão olímpico como treinador pela seleção masculina [nota da redação: ele se refere à Olimpíada de 1992, em Barcelona]. Meu primeiro trabalho como treinador, no entanto, foi com um time mirim feminino, com garotas de 12 e 13 anos. Nesse mesmo ano, em 1988, fui convidado para ser técnico do time feminino do Pão de Açúcar e, logo depois, o Bebeto de Freitas [falecido em março de 2018] me chamou para ser auxiliar na seleção masculina adulta. Após o Mundial de Vôlei de 1990, no Rio de Janeiro, o Bebeto foi treinar um time na Itália e o Josenildo Carvalho assumiu a seleção masculina. No final de 1991, fui surpreendido pelo Nuzman [Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro] para substituir o Josenildo. Não esperava, de jeito nenhum, ganhar tão rapidamente um desafio desses e, principalmente, ter uma responsabilidade tão grande de ser técnico do time masculino em uma Olimpíada. Era um impacto grande para mim e para os atletas. Havia sido adversário de alguns deles poucos anos antes. Vi nos olhos dos jogadores nitidamente que a confiança não era plena, o que era bastante natural. Ao mesmo tempo, tive muita sorte, pois conhecia a capacidade e as características dos jogadores por ter sido assistente do Bebeto. Senti que o olhar mudou em um jogo contra Cuba, no Brasil. Fazia oito anos que não ganhávamos dos cubanos. Nessa partida, houve uma confusão grande em um lance com o levantador deles, que tentou ludibriar o juiz. Em um tempo em que o treinador tinha que ficar sentado no banco de reservas, invadi a quadra para tirar satisfação com o cubano. Foi um alvoroço grande e, sobretudo, o turning point da nossa relação. Ganhamos o jogo, quebramos o tabu e, dali em diante, o time passou a acreditar muito mais em mim e nele mesmo.

Obviamente, o #bolaprafrente da derrota é muito diferente do da vitória. Como lidar com ambos

A diferença nas derrotas é que há sempre o gosto amargo e o sentimento de frustração, mas isso deve ser usado para impulsionar a busca por melhores resultados – que, no nosso caso, é o lugar mais alto do pódio. Depois de tantos anos, a vitória sempre me deixa com um pé atrás. É aí que mora o perigo, e não falo apenas de acomodação. Nós, latinos, em geral não queremos fazer os mesmos sacrifícios de antigamente após grandes conquistas. No entanto, quando você se torna o número um, você é o alvo de todos os demais. Vencer é muito difícil, mas continuar ganhando é muito mais. Então, é preciso ter em mente que, para continuar no topo, deve-se manter o mesmo trabalho ou fazer até mais sacrifícios. As derrotas me ensinaram que, após uma grande conquista no domingo, você deve celebrar só até segunda-feira. Na terça-feira, é bom estar de volta ao batente, e mais focado.

Quais as características principais do bom gestor, do bom treinador?

Tem que gostar de aprender, ouvir muito, falar pouco, ser um grande observador e bom estrategista. Ao mesmo tempo, é preciso ter sensibilidade para se relacionar com os membros da equipe e, claro, deve amar o que faz. Acredito que é possível desenvolver boa parte dessas habilidades, mas há pessoas que nascem com elas. Eu, por exemplo, desenvolvi muita coisa aprendendo com os outros. Tive várias referências: meu primeiro treinador, Lázaro de Azevedo Pinto, muito me ensinou. Trabalhar com o Bebeto de Freitas também foi muito importante. Além deles, aprendi bastante com todos os demais treinadores com que trabalhei, mas antes de todos eles estão meus pais. Sou de Quintana (SP), oriundo de uma família de caipiras, mesmo. Venho de uma família de jogadores de futebol. Meu pai e irmão jogaram profissionalmente e eu, quando moleque, só gostava de futebol – e jogava direitinho, até. Descobri o vôlei no colégio, quando meus pais se mudaram para Santo André. Era curioso: o professor de educação física só dava aulas de vôlei. Ele também era técnico do time da cidade e, ao me ver jogar, chamou-me para treinar. E aí foi indo... Com 16 já estava no time adulto e com 18 fui convocado para a seleção brasileira, mesmo com esse tamanho todo [José Roberto mede pouco mais de 1,80]. A briga em casa era o seguinte: para jogar vôlei, tinha que estudar. Sabendo disso, eu treinava e estudava. O desejo do meu pai era que eu e meu irmão fôssemos médicos ou engenheiros. Acabei prestando vestibular para educação física. Quando meu pai soube que havia passado e que ia cursar, foi luto de uma semana. Quando comecei a ir para a seleção, entretanto, a coisa mudou. Ainda assim, o começo foi duro: tralhava, estudava e jogava. Ganhava um dinheiro aqui, fazia um bico de professor de vôlei ali... Só comecei me dedicar por completo ao vôlei com vinte e poucos anos. E dali não parei mais com o esporte, com o vôlei e a vontade de aprender e entender as pessoas e suas motivações.

O sonho continua
José Roberto Guimarães não sabe ao certo o que fazer depois da Olimpíada de Tóquio, em 2020. Deixar o comando da seleção feminina é algo que ele analisa, mas abandonar o esporte não é uma possibilidade. “Ainda tenho sonhos a realizar”, diz. Ouvir isso de alguém com tantas vitórias no esporte soa até engraçado. O que mais ele poderia desejar? Na realidade, o maior sonho da sua vida já é bastante palpável, tem até endereço.

Em 1992, com ajuda do sogro, José Roberto comprou um terreno em Barueri (SP). “Começamos a construir em 1992, mesmo. Entrava um dinheirinho e ia fazendo uma parte e assim foi”, relembra. Nascia ali o Sportville, centro de treinamento voltado para formação de atletas inaugurado oficialmente em 1994. “O Sportville é a chance que tenho de retribuir tudo que o esporte me deu”, acrescenta. Hoje, ele ocupa uma área de 30 mil metros quadrados e conta com infraestrutura completa, com ginásio poliesportivo, campo de futebol oficial, quadras de tênis e alojamento com 23 apartamentos, entre outras coisas. Além disso, desenvolve dois projetos de formação de atletas, sendo um de vôlei e outro de tênis. “Muitos deles vivem em nossos alojamentos”, afirma José Roberto.

No caso do vôlei, que é só feminino, o projeto chega a selecionar mais de 300 meninas anualmente. “Marcamos uma peneira e elas vêm de todo o Brasil”, explica. “Sou um cara de treinamento. Insisti para montar um projeto de categoria de base, porque dar oportunidade para esses jovens se tornarem alguém não tem preço. E não quero formar campeões, isso é consequência. Agora, só de estarem aqui estudando e praticando esportes, e tendo a oportunidade de seguir uma carreira no meio, isso é transformador”, finaliza.

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