Cérebro, o melhor amigo do homem | Revista Fleury Ed. 13

A mente exerce grande influência sobre nosso comportamento. Por essa e outras razões, é preciso cuidar bem dela, alerta a neurocientista Suzana Herculano-Houzel

Desde que começou a fazer um importante trabalho de divulgação das descobertas da Neurociência, há quase dez anos, Suzana Herculano-Houzel tem surpreendido ao tratar de temas aparentemente inusitados para uma cientista, como a importância de cultivar a felicidade, o sorriso e os prazeres ou a harmonia entre corpo e mente. Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação em instituições dos Estados Unidos, da França e da Alemanha, esta carioca de 35 anos desenvolveu o talento de explicar ao público em geral qual o papel do cérebro em nosso cotidiano e por que devemos agir como verdadeiros amigos dele, tratando-o bem diariamente. Esses e outros conhecimentos podem ser conferidos em livros como Fique de Bem com Seu Cérebro e O Cérebro Nosso de Cada Dia, além do site de mesmo nome (www.cerebronosso.bio.br). Na entrevista a seguir, ela fala da influência da mente sobre o comportamento, das formas de cultivá-la no dia-a-dia e de como lidar com o processo mental de crianças e adolescentes.

Fleury Saúde em Dia: Aos olhos da Neurociência, como a mente interfere em nosso comportamento?
Suzana Herculano-Houzel: A noção geral do papel do sistema nervoso é que ele gera o comportamento a partir do processamento de estímulos do corpo e do ambiente. Mas nós fazemos mais do que isso: temos a capacidade de mudar o curso do nosso comportamento com base em nossas experiências passadas e previsões e objetivos para o futuro. Isso é possível desde que o cérebro consiga criar uma imagem geral do corpo no presente e combiná-la com suas projeções mentais para o futuro: é compatível com seus planos, por exemplo, permitir-se uma resposta impulsiva e xingar alguém? A atividade mental, portanto, é um guia muito importante do comportamento.

O cérebro considera as pessoas mais bonitas quando elas sorriem. É o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que conheço


Fleury: Em que medida estamos fadados a um comportamento e como podemos nos libertar dele?
Suzana: Temos a capacidade de nos libertar de comportamentos a partir do instante em que tomamos conhecimento do que estamos prestes a fazer. Esse princípio foi muito bem demonstrado no filme Minority Report: A Nova Lei (de Steven Spielberg). A partir do momento em que o cérebro registra conscientemente seu plano de ação para as próximas frações de segundo, ele ganha a capacidade de intervir sobre esse plano e modificá-lo. Em outro plano, a genética nos dá um ponto de partida do que o cérebro será capaz de fazer, mas esse potencial só é desenvolvido com a prática. A experiência de vida, portanto, é uma influência enorme que age por cima do ponto de partida genético.

Fleury: Afinal, o que fazer para ficar de bem com a mente?
Suzana: Eu sugiro começar por reconhecer que a saúde mental e a saúde física estão diretamente vinculadas uma à outra. Tudo o que antes se recomendava em prol da saúde cardiovascular – exercícios, alimentação saudável, não fumar – hoje se sabe que também beneficia diretamente o cérebro. Além disso, respeitar as horas de sono, aprender a gerenciar o estresse e até aproveitar o lado bom da ansiedade, investir na própria educação, aprender a ouvir as emoções, buscar a felicidade e os prazeres como forma de aumentar a motivação, reconhecer quando tristeza e felicidade se tornam doentias, aceitar medicação quando necessário e cultivar os relacionamentos sociais, tratando pessoas queridas com carinho, são caminhos importantes para ficar de bem com o próprio cérebro.

Fleury: Por que o cérebro precisa do corpo?
Suzana: As emoções são as impressões que o corpo nos dá sobre a atividade mental: se algo nos deixa felizes ou angustiados, tensos ou relaxados, é o corpo que diz – sob o comando do cérebro, claro. Além disso, o corpo é a interface necessária entre o cérebro e o ambiente: sem ele, o cérebro não tem informação alguma.

Fleury: Por que é importante cultivar os prazeres?
Suzana: O sistema cerebral que nos proporciona a sensação de prazer com um trabalho bem-feito ou com surpresas interessantes é o mesmo que nos dá motivação para agirmos de modo geral – a começar pelo ato de nos levantarmos da cama de manhã. Por isso, além do efeito imediato do prazer, que traz bem-estar, cultivar os prazeres é uma forma de ajudar o cérebro a encontrar motivação para seguir em frente.

Fleury: Por que devemos ouvir nossas emoções?
Suzana: Porque elas são fortes e rápidos indicadores das primeiras impressões do cérebro a respeito de um assunto, baseadas em nossas experiências anteriores. Isso não significa que elas devam sempre ser seguidas – mas ouvidas, sim.

Fleury: Por que devemos sorrir?
Suzana: O sorriso é a expressão facial que acompanha a satisfação e, como ele é contagioso, é um grande convite à interação social. Além disso, a expressão do sorriso já começa a deixar o cérebro propenso a sensações mais positivas. Sem dizer que o cérebro considera as pessoas mais bonitas quando elas sorriem. É o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que eu conheço.

Fleury: Como o estresse e a ansiedade podem nos ajudar?
Suzana: A resposta aguda ao estresse, tanto o real quanto o antecipado – o que causa ansiedade –, é positiva e tem por função preparar corpo e cérebro para lidar com o assunto e resolvê-lo o quanto antes. Esse é o lado bom da resposta aguda, imediata, ao estresse, que podemos aprender a aproveitar.

Fleury: Uma das grandes preocupações atuais, especialmente nas grandes cidades, é relativa à memória – vítima da correria, do excesso de tarefas e de suas complicações. Como estimular a memória?
Suzana: Usando-a. Depois de combater o estresse crônico, grande inimigo da memória, o melhor remédio para a memória é usá-la. Simples assim.

Fleury: O esquecimento tem uma função para nós?
Suzana: Esquecer o que não tem importância é tão importante quanto conseguir se lembrar do que deve ser lembrado. Li há pouco tempo a história de uma moça que tem uma memória autobiográfica excelente: ela é assombrada por memórias que preferia não ter. Até no trivial o esquecimento é importante: imagine chegar ao estacionamento no fim do dia e ser assolado pelas memórias de todas as vagas diferentes – e totalmente inúteis – onde você parou seu carro ao longo do ano? Seria horrível, e uma perda de tempo e energia fenomenal!

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