Esquecer é fundamental | Revista Fleury Ed. 31

Ter memória seletiva é normal. Afinal, nosso HD interno, o cérebro, não foi feito para armazenar todas as informações e estímulos.

* fotos Kris Knack

Ter memória seletiva é normal. Afinal, nosso HD interno, o cérebro, não foi feito para armazenar todas as informações e estímulos.

Soa como magia. Pontas soltas se juntam em sinapses que reúnem informações do passado e referências do presente. Mas é ciência pura, embora difícil de explicar. Os estudos relacionados ao cérebro e à memória são muito recentes. O que já se sabe é que a forma como a memória se desenrola é complexa — envolve muitas áreas, mecanismos e ações como atenção, capacidade de evocar informações armazenadas, qualidade do sono e questões emocionais. “O cérebro trabalha com o que é relevante emocionalmente para cada indivíduo e sempre dentro de um contexto”, resume o neurologista Márcio Balthazar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Ele é evolucionista, só guarda o que interessa para sua própria sobrevivência”, completa.

Os mecanismos da memória

Para ajudar na seleção da memória, há uma série de mecanismos. Um deles é o estado de atenção. Outro, a motivação. “Não prestamos atenção a tudo igualmente e nem nos interessamos por tudo”, lembra o neuropsicólogo Orlando Bueno, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Codificamos melhor coisas que nos dizem respeito e sobre as quais temos já algum repertório, além de coisas que nos parecem curiosas no momento ou que reputamos como importantes”.

O poema Elogio do Esquecimento, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, é uma ode às benesses da memória seletiva. A frase final, “A fraqueza da memória dá força ao homem”, praticamente sintetiza o que Márcio Balthazar chama de cérebro evolucionista. E olha que Brecht é de um tempo em que não havia internet ou WhatsApp — o fluxo de informações era assombrosamente menor que o de hoje. Ainda assim, naquele início de século 20, Brecht já questionava como é possível seguir adiante se ficarmos presos a situações presentes. Pode soar contraditório, mas ele já avisava: deixe para trás o que se viveu para que se viva mais.

Parece um mecanismo perfeito, que elimina lembranças amargas, informações fúteis e mantém apenas o que interessa. Por que, então, algumas pessoas têm tanta dificuldade de esquecer traumas? “Talvez, ainda pensando no cérebro evolutivo, essas memórias não sejam tão irrelevantes assim. Traumas geram medo, que serve como aviso para que uma situação não se repita”, opina Márcio. Já Orlando lembra que traumas como situações de guerra, em campos de concentração ou tortura podem produzir memórias traumáticas vívidas e permanentes. O oposto também ocorre – a amnésia psicogênica de fases da vida ou dificuldades de construir memórias novas.

Mentes sem lembranças

Ninguém sabe precisar o que aconteceu com Daniela Pereira de Sousa, de 28 anos, após uma cirurgia para tirar um tumor no timo, entre o pulmão e o coração, há dois anos. Ela teve um apagão. “Do dia da cirurgia até uns seis meses depois, não me lembro de nada”, conta a analista de controladoria. “O que sei  é o que me contam.” Quando a psicóloga perguntou se Daniela queria recordar desse período, ela logo respondeu: não. “Então não precisa”, disse a terapeuta. Após o apagão, a analista nunca mais teve problemas de memória.

Se Daniela não quer se lembrar – como no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, em que os protagonistas testam um método de apagar memórias indesejadas do cérebro –, Luis Zanin, de 31 anos, tenta impedir o esquecimento. A ansiedade e a pressa do dia a dia estão fazendo com que ele se esqueça de coisas fundamentais. “Perco datas, e esquecer algum documento ou objeto está ficando mais comum. Mas o que mais incomoda é esquecer ideias, perder o fio da meada no meio da conversa”, diz Luis, pequeno empresário e professor. Ele atribui o problema ao estresse e ao excesso de atividades e informação. “É clichê, eu sei, mas somos bombardeados por todo lado. Fico perdido no que tenho de guardar. Tudo, de certo modo, é essencial.”

Como nem tudo é tão essencial assim, nosso cérebro sabe reagir aos excessos. Intuitivamente, o próprio empresário começou a mudar hábitos e a buscar métodos para lidar com essa avalanche de dados. “Faço desde coisas simples, como anotar tarefas, até gravar no celular algumas ideias assim que elas nascem. Para evitar esquecer objetos, a tática é deixar tudo junto ou duplicar algumas coisas como carregadores de notebook e celular”, conta. Agora, antes de marcar um compromisso, ele olha a agenda. Durante reuniões, anota pontos principais. E, para manter o foco nos compromissos da semana, repassa a agenda do dia seguinte na noite anterior e no banho da manhã, novamente, só por garantia. Ainda que aflito com as armadilhas de um cérebro tão jovem, Luis reconhece que esquecer, às vezes, pode ser vantajoso. “Quando esqueço como fazer algo, faço diferente e sai melhor que o esperado!”.

Portanto, se você esqueceu aquela ideia genial, não se preocupe tanto assim: ela poderá voltar lapidada.

ELOGIO DO  ESQUECIMENTO
Bertolt Brecht

Bom é o esquecimento, senão como se afastaria o filho da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e o impede de experimentá-la.

Ou como deixaria o aluno o professor que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado o aluno tem de se pôr a caminho.

Para a velha casa, mudam-se os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá vivessem, a casa seria pequena demais.

O forno esquenta. Já não se sabe quem foi o oleiro. O plantador não reconhece o pão.

Como se levantaria pela manhã o homem sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
Como se ergueria pela sétima vez aquele derrubado seis vezes para lavrar o chão pedregoso, voar o céu perigoso?

A fraqueza da memória dá força ao homem.

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