Feminismo para todos | Revista Fleury Ed. 35

A jornalista Juliana de Faria, organizadora da campanha “Chega de Fiu Fiu”, fala sobre o novo feminismo

Ilustração: Gabriela Shigihara

Em 2013, Juliana sugeriu uma pauta para a revista onde trabalhava, mostrando como as cantadas de rua eram agressivas e incômodas. A resposta de sua editora não foi muito animadora: “Será que não estamos sendo politicamente corretas demais?”. A repórter se inquietou e organizou a campanha “Chega de Fiu Fiu”, que combate o assédio em lugares públicos, com ilustrações que foram compartilhadas por milhares de pessoas na Internet, por meio do projeto Think Olga, um think tank disposto a repensar o papel da mulher. Na sequência, a jornalista Karin Hueck lançou uma pesquisa online pela Olga, que teve quase 8 mil participantes em duas semanas: 98% delas já sofreram assédio; 83% não acham a atitude legal, 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa para evitar o assédio e 81% já deixaram de fazer algo (como ir a algum lugar ou até sair a pé) por esse motivo. A adesão não é difícil de entender: a maioria esmagadora das mulheres já passou por esse tipo de desconforto, mas não havia canais sequer para expressar livremente o incômodo com essas limitações cotidianas.  

Juliana entende que faz parte de um ponto de virada na forma como essas questões são tratadas. “Sempre existiu essa luta nos coletivos feministas, mas a Chega de Fiu Fiu foi muito relevante para popularizar e levar essa discussão para fora deles. A Internet ajuda a espalhar mais a mensagem, ela une as pessoas”, diz. A repercussão do trabalho a levou a ser escolhida como uma das oito mulheres mais inspiradoras do mundo, pela Clinton Foundation e pela revista Cosmopolitan US, e uma das 24 pessoas mais influente da Internet brasileira em 2014, pelo site Youpix.

Apesar de hoje focar mais na mulher que veste a roupa que na roupa que veste a mulher, como gosta de dizer, a bagagem da especialização em moda faz parte da sua visão de mundo. “Mudei para Londres porque meu marido, então namorado, foi para lá fazer mestrado. Fui estudar na Central Saint Martins, onde a moda era debatida com um olhar mais social, pensando no papel da moda na sociedade, por que as mulheres usam o que usam, o comportamento por trás. E isso ainda é importante para mim. Só me distanciei da forma como o jornalismo às vezes usa a moda. Eu não quero pertencer a um universo que manda as mulheres fazerem academia para poder usar um determinado tipo de roupa”, conta Juliana.
A internet ajuda a espalhar mais a mensagem ela une as pessoas
Ao voltar para o Brasil, Juliana editou as revistas Harper’s Bazaar e Elle Brasil. A preocupação humanista veio bem antes das campanhas: quando trabalhou na revista Elle, foi ela quem fez o perfil da modelo Lea T, a primeira transexual a sair na capa de uma revista de moda no Brasil. E a criadora da Olga se sente otimista com o interesse no que as mulheres têm a dizer. “A mídia mainstream tem sido muito aberta às questões feministas. Essa popularização é boa porque fica mais fácil quebrar os mitos, como a ideia de que toda feminista é brava, irritada ou odeia homens. Está havendo uma quebra de estereótipos e isso humaniza o movimento”, pontua. A motivação, para ela, é simples: “Mulheres são seres humanos que querem ser tratadas com respeito”.

O impacto da mensagem talvez esteja no fato de que Juliana não vive em extremos: nasceu em uma família de advogados de classe média, na zona sul de São Paulo. Teve uma adolescência normal, estudando e praticando esportes — ela ainda tem medalhas e troféus de competições de natação e basquete. A experiência de assédio na rua que a Chega de Fiu Fiu combate é algo que acontece com qualquer mulher, independentemente de etnia, idade ou classe social, no Brasil inteiro. E conviver com as histórias que chegam a cada dia é extremamente intenso para ela. “Minha vida pessoal e a profissional se misturam. A campanha #primeiroassedio, por exemplo, me fez chorar muito. Isso acontece desde a Chega de Fiu Fiu. Por um lado, fico achando que o mundo devia explodir, fico chateada, mas entendo que nosso trabalho faz sentido e é urgente continuar nesse caminho. Se a gente vira o rosto para essa responsabilidade, não vai conseguir ter uma transformação e mudança verdadeiras.”

Além da empatia, uma das “armas” dessa geração é justamente o bom humor. Como na Chega de Fiu Fiu, que tinha uma linguagem visual leve, há outros exemplos: Julia Tolezano é a criadora do canal no YouTube “Jout Jout, Prazer”, onde aborda temas do dia a dia com linguagem divertida e viés feminista. Clarice Falcão, comediante, cantora e roteirista, ficou conhecida a partir do trabalho no Porta dos Fundos, e o tema feminismo volta e meia aparece como pano de fundo ou tema principal dos esquetes e clipes que produz. Essa representatividade na mídia e na publicidade de mulheres inteligentes e com interesses variados faz toda a diferença. “Pode ter algo de oportunismo nessa onda de feminismo como pauta importante, mas tem uma luta da sociedade civil para que esses temas sejam entendidos como de maior importância”, diz Juliana.

Além dos projetos do Think Olga e do Think Eva (agência de inteligência voltada ao público feminino), Juliana representou o Brasil em março de 2015 na ONU, na CSW (Commission on the Status of Women). “Por causa desse programa, voltei à ONU para sabatinar a embaixadora dos Estados Unidos no programa, a Isobel Coleman, e foi muito legal trazer o Brasil para cá nesse debate. Começou com uma campanha contra assédio sexual, um tema que sempre foi entendido como algo de menor importância, e a gente está conseguindo mudar isso: todas as pautas de direito das mulheres são importantes e são urgentes”, afirma. “Sou uma otimista de coração, acho que estamos num caminho bom. Feminicídio, o homicídio de mulheres por serem mulheres, está sendo chamado pelo nome certo. A lei Maria da Penha teve aumento nos índices de denúncia. É nossa responsabilidade como sociedade civil bater de frente com isso, para que na prática isso funcione como a teoria prevê”, diz a jornalista.
Feminismo para todos
É esse o cenário do “feminismo pop”: mais leveza e alcance, sem perder a firmeza na luta por direitos. Outras campanhas surgiram espontaneamente na Internet, como a #meuamigosecreto, em que as mulherem comentaram comportamentos machistas comuns, e a #agoraéquesãoelas, em que colunistas homens cederam espaço na imprensa à mulheres. Essas campanhas trouxeram à luz histórias para reflexão e podem ajudar a estabelecer relações baseadas no diálogo e no respeito. Até porque a igualdade de gênero beneficia a sociedade como um todo: pautas feministas incluem licença-paternidade com a mesma duração da licença-maternidade, desobrigação do serviço militar masculino e uma visão de masculinidade menos agressiva. “Beyoncé é feminista, e é um ídolo pop. Por que não? Mostramos que ser feminista não precisa ser ruim”, acrescenta Luíse Bello, sócia do Think Olga.
Mitos Por Terra
As feministas odeiam os homens
Igualdade de gênero é sobre oportunidades iguais a todos. O feminismo não incentiva discurso de ódio, nem defende que alguém deva ter superioridade por nascer homem ou mulher.

Feminismo é um machismo ao contrário
O machismo é quando um gênero oprime o outro. O feminismo, pelo contrário, defende que todos tenham direitos, oportunidades e tratamento sem distinção por ser homem ou mulher.

O feminismo proíbe a vaidade
Nada mais longe da verdade: uma das causas do feminismo é que a mulher não seja julgada por optar usar ou não maquiagem, saltos ou se vestir como desejar.


Para saber mais
Meu corpo não é seu, e-book sobre gênero, editado pela Companhia das Letras, organizado pela Think Olga; “Pergunte a ela”, série de vídeos em que mulheres de destaque respondem a perguntas de internautas, no thinkolga.org; “Não tira o batom vermelho”, vídeo da Jout Jout, (https://youtu.be/I-3ocjJTPHg).

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