Futuro Conectado | Revista Fleury Ed. 29

Para o cientista de tecnologia Silvio Meira, estamos vivendo uma revolução em que a informação só tem valor quando é compartilhada

Para o cientista de tecnologia Silvio Meira, estamos vivendo uma revolução em que a informação só tem valor quando é compartilhada

Professor de engenharia de software do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Doutor em Ciência da Computação, cientista-chefe do C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, cofundador da IKEWA e palestrante reconhecido no Brasil e exterior: estas são apenas algumas das credenciais que qualificam Silvio Meira, um pensador com alma pernambucana que dedica a maior parte de seu tempo concebendo o futuro.

Nascido em Taperoá, no interior da Paraíba, Silvio Meira adotou Pernambuco como sua casa em 1971, quando foi estudar na UFPE. Logo depois, mudou-se para São José dos Campos para cursar Engenharia Eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Fez doutorado na Inglaterra e voltou definitivamente para Recife em 1985. Foi a partir dessa época que começou a projetar o que viria a ser o Porto Digital, um dos polos de tecnologia mais importantes do Brasil.

Em 2013, Silvio Meira passou uma temporada nos EUA, como professor convidado da Universidade de Harvard. Lá, teve tempo para pesquisar e escrever seu mais recente livro Novos negócios inovadores de crescimento empreendedor no Brasil, lançado em outubro do ano passado. Na obra, ele explica como a economia do conhecimento sustentada pela era da informação evoluiu para uma sociedade em rede, que nada mais é do que “nossas conexões, relacionamentos e interações, no espaço-tempo de acontecimentos em contexto”. E completa: “A informação só serve para alguma coisa quando você a conecta. Se estiver parada em algum lugar, a informação não significa nada para ninguém”.

Ligado 24 horas por dia, Silvio Meira tem seus segredos para esbanjar tanta energia. Para manter a mente sempre inventiva e poética, ele lança mão, com frequência, de outras atividades. Pratica exercícios de alto impacto, é um cozinheiro de mão cheia e aproveita para se desligar do mundo quando o assunto é carnaval. Nessa época, ele tira o chapéu de cientista e assume orgulhosamente a função de batuqueiro do Maracatu Cabra Alada. Não é raro vê-lo nas ruas de Recife Antigo paramentado entre tambores e alfaias. Este ano, em meio aos ensaios, Silvio Meira compartilhou em suas redes sociais o pensamento do poeta persa Jalal ad-Din Muhammad Balkhī: “Você e eu temos que viver como se nunca houvéssemos ouvido falar de um ‘você’ e de um ‘eu’”. Para ele, essa interdependência vale não apenas para brincar o carnaval, mas para a vida inteira.

Nesta entrevista para a Revista Fleury, Silvio Meira reflete sobre conexões, redes e compartilhamento. Também fala de saúde, alimentação e do prazer além do trabalho. Com uma fala pragmática, mostra o seu lado complexo e instigante. “Meu trabalho é descobrir perguntas, ao invés de arranjar respostas”, afirma.

FL: O que é compartilhar para você?
O compartilhamento é uma ação natural do ser humano. Nós somos sociais por definição. Desde que começamos a existir como unidade, começamos a existir como rede. E sempre participamos de redes sociais, seja na escola, na torcida de futebol, nos blocos de carnaval. Com a internet, o impacto disso aumentou absurdamente e atingiu uma escala global, com bilhões de pessoas participando simultaneamente. Estamos vivendo uma revolução de informações, relacionamento e interação. E as pessoas não estão apenas conectadas, elas são as próprias conexões.

FL: E como essa revolução impacta a nossa vida?
Vou dar um exemplo simples. Se hoje você mandar uma carta para 50 pessoas, terá um alcance limitado. O retorno não vai ser imediato e as respostas virão dessincronizadas e fragmentadas. Também não haverá interação entre os receptores, a não ser que cada um deles mande a resposta para as outras 50 pessoas. Enfim, você tem a barreira da distância e do tempo. Mas, se você mandar essa mesma mensagem via Facebook, rapidamente ela atingirá dezenas e milhares de pessoas, que responderão de forma instantânea e irão compartilhar seus pontos de vista com todos. Isso cria novas combinações e possibilidades de interação entre os receptores, o que impacta milhares de pessoas que você nem sabe quem são.
“Estamos vivendo uma revolução de informações, relacionamento e interação. E as pessoas não estão apenas conectadas, elas são as próprias conexões”

FL: Até onde vai o poder de transformação da sociedade em rede? Que exemplos podemos citar?
Veja o caso da Angelina Jolie. Ela usou a tecnologia para diagnosticar a probabilidade de 87% de ter cancro da mama. Também utilizou o avanço da medicina para se submeter a uma mastectomia. E, depois, o poder da comunicação em rede para compartilhar essa história. Isso impactou a vida de milhões de mulheres em todo o mundo e abriu espaço para a discussão e reinterpretação do tema.

FL: Quais os sintomas e os efeitos da sociedade em rede?
Se no passado tínhamos um sistema de transmissão de informações centralizado em um espaço e tempo limitados, hoje a internet cria novas dinâmicas de interação em tempos e espaços ilimitados. Somos ao mesmo tempo receptores e produtores de informação que reverbera conteúdo nas redes sociais e perfis compartilhados. Esse é o efeito das conexões, capaz de criar novos significados e propósitos.

FL: Como saber onde isso tudo vai dar?
A mudança que está acontecendo é definitiva. As manifestações de junho de 2013 , por exemplo, foram ativadas pelas redes sociais. Pessoas que nunca se viram se articularam para decidir onde ir, o que reivindicar. Eles se apoiaram em um novo sistema de conectividade. Isso foi inédito no Brasil. Já havia acontecido na Primavera Árabe, mas no Brasil não. O movimento Fora Collor, que também levou as pessoas às ruas, foi ativado por um programador central e levou meses para atingir uma pequena parte desse número.

FL: Quais as possibilidades e os desafios que o hábito de compartilhar representa?
A principal vantagem que isso traz é que hoje temos mais alcance e velocidade. As informações compartilhadas podem ser sincronizadas e se transformarem em soluções. Já a desvantagem deste mundo compartilhado é que você fica muito mais exposto. Sua vida está na rede. E é difícil fazer a simetria entre o discurso e a prática. Tudo precisa ser mais coerente porque é todo mundo falando sobre tudo o tempo todo.

FL: E isso muda a forma como pessoas, instituições e governos devem se comportar?
Sim. É preciso ter em mente que, em rede, você não comanda, mas tenta articular. Você não controla, mas pode conduzir um discurso, uma presença virtual que se projeta no mundo real. Tanto as pessoas como as marcas e instituições precisam evoluir dentro desses contextos. Existe hoje uma obrigatoriedade de interagir e de ter ação coerente com os princípios declarados. Na prática, tudo é interdependente.

FL: É possível viver fora da rede?
Hoje é praticamente impossível não participar da sociedade em rede. Você pode até escolher não interagir, mas vai restringir dramaticamente o seu universo. Se você não entende o contexto que é criado pelas redes sociais, vai ter mais dificuldade de compreender o que está acontecendo no mundo. O conhecimento está sendo construído dentro destes contextos. Se antes a pessoa que era desconectada destes contextos ficava deslocada, hoje, ela fica completamente sem noção [risos].

FL: Esse novo contexto da sociedade em rede está mudando nossa forma de viver, pensar, agir?
Sim. A aceleração causada pelos novos espaços de compartilhamento e interação também gera mais celeridade. A percepção das pessoas muda e elas exigem mais. Se eu dou uma aula presencial, por exemplo, os alunos esperam que a aula esteja disponível online num formato compacto, sistematizado, simplificado.

FL: Em uma entrevista anterior você afirmou que inovação não se faz sozinho. Então, viver em rede, compartilhando informação e conhecimento é a solução para inovarmos e transformarmos a sociedade?
A internet é uma tecnologia, e uma tecnologia não tem propósito nem caráter. Nós humanos é que podemos transformar as coisas utilizando a tecnologia. Como disse Roy Amara, ex-presidente do Instituto do Futuro: “Nós tendemos a superestimar o impacto das novas tecnologias no curto prazo e a subestimar seus efeitos no longo prazo”. Para melhorarmos a educação, a saúde e a segurança, é necessário que saibamos entender e lidar com a tecnologia. E não apenas a tecnologia da informação, mas outras tão transformadoras quanto. Para mim, a próxima revolução tecnológica vai ser na área de biologia sintética.
“Se você não entende o contexto que é criado pelas redes sociais, vai ter mais dificuldade de compreender o que está acontecendo no mundo”

FL: Mudando de assunto: você está sempre conectado, ligado no futuro. Você cuida da sua saúde para estar bem disposto nesse futuro?
Sempre fui adepto de exercícios físicos. Frequento academia, pratico mountain bike e faço exercícios de alto impacto todos os dias. São poucos minutos por dia, mas consomem muito.

FL: E a alimentação e o sono?
Acredito que a sua saúde depende do que você come. Desde que meu filho nasceu, há 11 anos, também cuidamos mais da alimentação lá em casa. Consumimos produtos orgânicos e agroecológicos. Mas durmo pouco. Para mim, quatro horas por dia são suficientes para descansar e manter a minha produtividade. Sei que isso não é recomendável, mas me dá uma boa vantagem competitiva [risos].

FL: O que mais lhe dá prazer além de desenhar o futuro?
Gosto do carnaval, do maracatu, e gosto de cozinhar. Preparo pratos saudáveis e inovadores e uso minha família como cobaia. Faço pescada, ossobuco e pernil de cordeiro. Também sou especialista em arroz ao resto de geladeira. Se nada der certo, temos a possibilidade de usar a tecnologia para pedir uma pizza delivery.

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