Movimentar-se é preciso | Revista Fleury Ed. 16

Está na embalagem dos cigarros: fumar causa uma infinidade de doenças, que vão desde o enfisema pulmonar, até o câncer de pulmão; do infarto do miocárdio até o acidente vascular cerebral e a impotência sexual.

“Movimentar-se é preciso”. O conselho parte de uma autoridade no assunto, Hulda Bittencourt, criadora e diretora de uma das mais importantes companhias de dança do País, a Cisne Negro – que já completou três décadas. A recomendação, porém, não se restringe a pessoas que querem praticar o balé clássico, nem àquelas que desejam fazer da dança uma profissão. “A dança pode ser praticada por gente de todas as idades”, afirma. Os benefícios de colocar o corpo em movimento são muitos e vão desde uma postura elegante até a possibilidade de correção de problemas físicos. “Para a cabeça, então, nem se fala. É uma terapia fantástica”, complementa.

Com o objetivo de estender os benefícios a mais gente, Hulda abraçou o Reciclando Sonhos, uma parceria da Cisne Negro com o Fleury Medicina e Saúde. O projeto coloca à disposição de adolescentes carentes da Zona Sul de São Paulo uma completa formação em artes cênicas – o que inclui aulas de dança, cenografia, iluminação, figurinos e música. Tudo apoiado em conceitos de sustentabilidade e cidadania, daí a matéria-prima das criações dos jovens serem itens recicláveis, como garrafas PET. O projeto tem um alvo claro: oferecer a seus participantes uma profissão. E já produz frutos: em 2008, os adolescentes acompanharam toda a montagem de O quebra-nozes, balé que a Cisne Negro apresenta tradicionalmente há 25 natais. Na entrevista a seguir, Hulda fala sobre os frutos do Reciclando Sonhos e, principalmente, dos benefícios de colocarmos – todos nós – o corpo em movimento.

Fleury Saúde em Dia: Até alguns anos atrás, havia uma espécie de tabu: só podiam praticar a dança – e o balé, em especial – as pessoas que haviam começado antes dos 10 anos. Isso parece ter mudado, ao menos para as pessoas com objetivos não profissionais. Afinal, as diferentes modalidades de dança podem ser praticadas por pessoas de todas as idades?
Hulda Bittencourt: Sim. A dança pode ser praticada por gente de todas as idades. Se você quer ser um bailarino, uma bailarina, você precisa começar muito jovem, dentro de uma idade propícia para uma carreira profissional. Contudo, não há nenhuma restrição em praticar as diferentes formas de dança como complemento de educação ou para obter benefícios ao corpo ou ainda por necessidade – hoje, os médicos pedem que as crianças que têm problemas de alinhamento das pernas – com joelhos em x ou em o – façam dança. Na área de correção, já trabalhamos com meninas que pensávamos que jamais poderiam dançar, inclusive com paralisia infantil. Além disso, esse trabalho ajudou psicologicamente aquelas crianças. Sem falar no quanto a dança faz bem para a alma e como funciona como complemento artístico e cultural. Portanto, pode-se dizer que a dança é maravilhosa.

Fleury: Quais os benefícios para os praticantes em geral?
Hulda: Um corpo elegante, boas maneiras, uma boa postura, bem colocada. Acho que quem dança sempre faz a diferença. Tem uma maneira mais bonita de andar e movimentos mais harmoniosos. Eu acredito que a dança realmente produz nas pessoas verdadeiras transformações – para melhor, é claro.

Fleury: E para a cabeça?
Hulda: Para a cabeça, então, nem se fala. É uma terapia fantástica, porque você está trabalhando artisticamente com música e com o grupo, fazendo muito bem para a sua alma.

Fleury: Embora seja um ato individual, a dança está muito ligada à ação coletiva – afinal, dançamos com outras pessoas. Esse caráter coletivo também é importante? Ele fortalece vínculos entre as pessoas?
Hulda: Uma das grandes vantagens da dança é o sentido grupal, é você trabalhar em duos, em trios, e mostrar a sua arte para um público. Então, o bailarino nunca está sozinho. Ou ele está trabalhando para uma comunidade ou com seus companheiros. Você tem de saber conviver com os outros, você interage com seu próprio corpo. É um complexo e completo viver.

Fleury: Colocar o corpo em movimento é, em sua visão, um desejo universal do ser humano?
Hulda: Acredito que se movimentar é preciso.

Fleury: Por que temos esse desejo?
Hulda: Porque a dança ajuda o corpo, a alma, ajuda na convivência grupal: você está sempre dividindo – os movimentos, o trabalho, a música, o companheirismo, a parceria. Tudo isso é muito bom para o corpo e a mente.

Fleury: O que está por trás desse desejo, em sua opinião?
Hulda: Cada vez mais, você vê nos programas de TV as instituições estimulando as pessoas a se mexer, a se confraternizar através de uma atividade corporal. As pessoas que não têm a menor noção de que podem dançar e de repente saem dançando. Esse apelo é muito bom, porque demonstra que todo mundo está querendo se movimentar.

Fleury: Por que enfrentamos tanta resistência para pôr em prática o desejo de colocar o corpo em movimento?
Hulda: Hulda: Essa é uma resistência que tem de ser trabalhada. Então, ela vai se transformando, a ponto de você perceber que os benefícios são tão grandes que essa resistência pode privá-lo de uma grande possibilidade de ter mais saúde, com ossos mais fortalecidos, musculatura mais bem trabalhada, para sustentar melhor seu corpo na maturidade, por exemplo. Em geral, essa conscientização já está acontecendo, mas seria importante que fosse mais rápida, porque, repito, mexer-se é preciso.

Fleury: Em sua visão, quais os principais frutos do projeto Reciclando Sonhos?
Hulda: O trabalho é com crianças, com adolescentes que querem enxergar um futuro. Não ensinamos só dança, mas também tudo que é ligado às artes cênicas. Temos técnicos especializados para orientá-los. Assim, eles podem desenvolver uma profissão. Eu sou contra supri-los somente com alimentos. Na montagem de O quebra-nozes, que é um balé grande, esses alunos participaram felizes. A primeira vez que colocamos eles no Teatro Municipal, eles choraram de emoção.