Nós e as cidades | Revista Fleury Ed. 14

As qualidades dos centros urbanos trazem ganhos para a vida de seus habitantes, defende o arquiteto Renato Cymbalista. Mas seus defeitos também agem sobre nossa saúde.

É curioso que hoje se fale tanto em preservação do meio ambiente, mas tão pouco em cuidados com o meio urbano. Afinal, é nas cidades que vive a maior parte da população brasileira. E, assim como o mico-leão-dourado sofreu com o processo de devastação da Mata Atlântica, nós, homens e mulheres, sofremos com os destinos das cidades: falta de planejamento, poluição, trânsito, sedentarismo. Contra o descuido, vem o alerta: ""O ambiente urbano influencia muito mais a vida das pessoas do que a gente imagina"", diz Renato Cymbalista, arquiteto e membro do Instituto Pólis, organização não-governamental cuja principal função é estudar e propor políticas urbanas. ""Uma cidade boa produz efeitos sobre a própria saúde"", completa. Leia a seguir a entrevista que Cymbalista concedeu à Fleury Saúde em Dia.

Fleury Saúde em Dia: Como as cidades influenciam a qualidade de vida de seus habitantes?
Renato Cymbalista: O ambiente urbano influencia muito mais a vida das pessoas do que a gente imagina. Dependendo do modelo de cidade, as pessoas podem ter muito mais do que uma qualidade de vida boa ou ruim. Uma cidade boa produz efeitos sobre a própria saúde.

Fleury: Que efeitos são esses?
Cymbalista: O modelo de mobilidade que a gente tem, baseado no transporte privado, tem influência direta em uma série de fatores de saúde. As pessoas, caminhando menos, sofrem mais de problemas de saúde: diabetes, hipertensão, males cardíacos, basicamente porque elas não se exercitam. Existem estudos que comparam modos de vida de cidades muito motorizadas, como as americanas, com cidades onde as pessoas caminham, como as européias. E a diferença na qualidade e na expectativa de vida é muito grande. Vamos pensar em um exemplo: uma dona de casa americana e uma dona de casa francesa. A dona de casa francesa acorda, sai de casa, desce quatro lances de escada, vai para o trabalho de metrô, trabalha e volta para casa a pé. No próprio caminho do metrô, ela compra aquilo que vai consumir no dia: fruta, queijo, tudo fresco. A dona de casa americana não faz nada disso: ela vai trabalhar de carro e não se exercitou. Aí, uma vez por mês, ela passa num hipermercado, compra tudo e congela. Ela não se exercitou e está comendo uma comida de pior qualidade.

Fleury: Pensando nas metrópoles brasileiras, o que é mais urgente mudar: trânsito? Habitação? Segurança? Transporte público?
Cymbalista: Para transformarmos a realidade das nossas cidades, é muito importante deixar de pensar setorialmente: não é uma solução para o trânsito, uma solução para o transporte público, uma para a habitação, uma para o saneamento. Eu vou dar um exemplo aqui na cidade de São Paulo: enquanto temos centenas de milhares de imóveis desocupados nas áreas centrais, continuamos inchando os nossos bairros periféricos a uma velocidade muito grande. Justamente onde não temos infra-estrutura, temos problemas ambientais maiores: mais gente morando mais longe significa uma sobrecarga no sistema de transporte. Se construirmos uma cidade em que você pode morar, trabalhar, se divertir e estudar no mesmo lugar, vamos conseguir interferir não só nas lógicas habitacionais, mas também otimizar a estrutura, usar melhor as nossas redes de transporte e também ajudar a preservar o meio ambiente.

Fleury: Ainda é possível reverter o caos vivido diariamente nas cidades? Como?
Cymbalista: É evidente que a gente pode tratar essa situação. A gente pode cons­truir uma cidade que é melhor para os nos­sos filhos do que é para nós. É importante continuar investindo – e investir mais do que temos feito historicamente – na rede de transporte público de alta capacidade: o trem, o metrô. É muito importante usar o pouco espaço que a gente tem para priori­zar transporte limpo, o que significa andar a pé e de bicicleta – que também são trans­portes que ajudam a saúde das pessoas.

Fleury: Quais são os efeitos desse modelo de cidade sobre o meio ambiente?
Cymbalista: Esse modelo de cidade, que é o nosso – o da cidade do automó­vel, da cidade que se espalha –, é muito ruim para o meio ambiente. Além das nossas cidades já estarem avançando sobre as áreas de preservação de ma­nancial, beiras de córregos, serras e áreas de represas, existe um impac­to direto entre o modelo de cidade e o aquecimento global: quanto maiores os deslocamentos, quanto maiores as dis­tâncias que temos de percorrer, maior a emissão de carbono na atmosfera – o que, além de prejudicar o sistema res­piratório das pessoas, contribui para as mudanças climáticas.

Fleury: Que elementos compõem uma ""cidade sustentável""?
Cymbalista: Uma cidade sustentável é uma cidade compacta, uma cidade que não é espalhada, que não tem ""bura­cos"" ou áreas não urbanizadas. É uma cidade em que as pessoas percorrem distâncias menores para fazer as suas atividades cotidianas: isso significa poluição menor, deslocamentos mais limpos, a pé ou de bicicleta. Uma ci­dade sustentável é uma cidade em que uma porção grande da população usa transporte coletivo. Uma cidade sus­tentável é também uma cidade em que os seus habitantes têm hábitos susten­táveis – os hábitos que nós já conhe­cemos: reduzir a produção de resíduos de lixo, separar o lixo, reciclar. Uma cidade sustentável é uma cidade que tem uma quantidade grande de área verde pública, para as pessoas utiliza­ram nos seus momentos de lazer.

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