Novos tons, muitos ritmos | Revista Fleury Ed. 35

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O seu berço é o samba, mas com essa bagagem Fabiana Cozza parte para o mundo em busca de outras sonoridades

Fotos: Kriz Knack

Em 20 anos de carreira como cantora, Fabiana Cozza conta cinco discos gravados, tendo estreado com o O samba é meu dom, de 2004. Depois de se consolidar como sambista, Fabiana explora sonoridades ligadas à música do recôncavo baiano no mais recente trabalho, Partir, de 2015. “Talvez seja pouco, quando tem cantores que gravam um ou dois discos por ano. Mas eu não tenho essa impressão. Tenho noção dos tijolos que eu tive que colocar”, diz. E ela segue experimentando, de maneira dedicada e meticulosa a cada projeto, ora buscando entender o tempo próprio da música de concerto quando se apresenta junto com orquestras, ora trabalhando a voz para incorporar a impostação necessária para o canto em espanhol, para interpretar o cubano Bola de Nieve em seu próximo trabalho. Para ela, que se envolve com a mesma intensidade seja fazendo serenatas pela cidade (ela fez parte dos Menestréis do Amor e dos Trovadores Urbanos), seja mergulhando no universo de Clara Nunes, homenageada em seu CD/DVD Canto sagrado, o canto é presença, é dom e é ofício.

Novos Tons, Muitos Ritmos

“É importante você saber de onde é para poder falar ao mundo. E eu não tenho medo de ser desafiada.”

Você sempre soube que seria cantora?
Eu fui fazer jornalismo na PUC [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo], aos 18 anos. Mas, com 19, eu entrei na Universidade Livre de Música Tom Jobim – passei em primeiro lugar – e aí eu enlouqueci. Um curso completamente inesperado. Eu vinha de uma família de pessoas que cantavam, meu pai foi intérprete da escola de samba Camisa Verde e Branco durante 15 anos, minhas primas por parte de pai também cantavam, tocavam sanfona, violão, então eu cresci ouvindo muita música. Mas fazer nunca participou dos meus planos. Era uma competição muito ingrata com o jornalismo, porque eu nunca imaginei que fosse mergulhar naquele universo da forma como foi. Foi arrebatador. Eu me lembro claramente dos primeiros dias de aula: eu entrando no prédio da rua Três Rios, no Bom Retiro. Eu ainda não identificava todos os instrumentos, mas ouvia os sopros afinando, os saxofones, gente aquecendo a voz em uma sala, na outra um coro, e aquilo para mim era um mundo encantado. Eu falava para mim: “caramba, estou entrando num universo mágico”. Aí comecei a faltar na PUC. Era naquele lugar que eu queria estar.

Às vezes, o ambiente faz toda diferença?
Completamente. É onde você se vê. E, para além de me ver, eu comecei a me entender como pessoa: a questão das minhas emoções, de desenvolver a minha sensibilidade. Embora isso já tivesse começado nos anos de escola. Um momento que me deu essa virada de chave na vida foi quando estudei no Colégio Equipe. Foi lá que eu vi que essa semente da artista tinha possibilidade de germinar. Teve um festival de música e eu, que já cantava na igreja, fui participar junto com um professor, o Zé Maria, que é violeiro e compositor. E virei a Fabi cantora. Além disso, lá eu fui muito acolhida. Para mim, educar e aprender passam por um lugar só: o afeto. É esse o lugar de aprender. É o que abre caminho. Se você disser: “é assim”, isso é uma ordem, e você vai entender, pode aprender de uma forma. Agora, se eu disser para você “ah, pode ser assim também, como você falou. Repete o que você fez. Eu faço com você”, isso é outro caminho. Porque o melhor professor é aquele que permite que você se investigue. E que você faça a sua rota de entendimento do mundo. Que você crie a sua aquarela.

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Mas você ainda foi para o jornalismo antes.
No fundo, tinha um preconceito também, mesmo dentro da minha família. Era um: “mas ela vai viver de música?”. Mesmo o meu pai, logo ele, que não pôde seguir com a música porque tinha um desafio claro: sobreviver e pôr comida dentro de casa. Ele não pôde escolher. Essa condição ele deu para mim, para a minha irmã. E meu pai não errou. É uma profissão completamente incerta. O que não é incerto é o meu desejo e minha determinação com o que eu faço. Eu sou uma pessoa completamente obstinada pelo que eu faço. E muito, muito teimosa. No bom e no mau sentido.

E como você passou a viver de música?
A minha voz interna dizia: é isso que você tem que fazer. Como? Não sei. Mas eu acho que o caminho você só aprende caminhando. Minha mãe me acordava às 8 horas, abrindo a janela dizendo: “filha minha que quer ser cantora vai acordar cedo para arranjar trabalho de cantora”. Quem arranja trabalho de cantora às 8 horas da manhã, não é? Mas foi a época dos musicais em São Paulo. Aí eu comecei a passar em todas as provas que eu fazia e arranjei um emprego como cantora. Tudo dizia não para mim. O que me dizia sim era essa voz interna, que é algo que eu acredito que faz uma conexão muito profunda com o invisível.

A sua conexão com a música mudou com o tempo? O que ela te traz?
Essa conexão se aprofunda. Já tive fases em que eu achava que a técnica era só o que eu conseguia aprender do ponto de vista das disciplinas musicais: ritmo, harmonia, trabalhos melódicos. Eu demorei quase 20 anos para encontrar uma mestra de canto, Linda Wise, que me disse, e me convence a cada vez que trabalho com ela, que a técnica é a própria emoção. O que significa ser “tecnicamente perfeito”? Há o estudo musical, o aprendizado da vida, a caminhada. São recursos que você foi acumulando e somando, da dança, do movimento, do teatro, de saber entrar numa luz, de um olhar, e isso tudo cria significados no seu corpo. E você canta com isso. Cantar é uma questão de espaço, de você entender qual é o seu espaço.

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“É natural esperarem que eu grave um disco de samba .
Esse também é um espaço que está dentro de mim.”

Mas isso não quer dizer se fixar a um estilo – você, na sua carreira, passou por diferentes ritmos, por exemplo.
É uma consciência que você passa a ter e uma necessidade de ocupar esse lugar. É um dizer: “nesse espaço eu consigo ser o que eu sou”. E isso é importante para a minha escolha de repertório, para a vida. Mas é difícil em um momento em que as pessoas tentam cada vez mais colocar você em caixinhas, dizendo “você é sambista” ou “você é uma cantora de MPB”. Isso é muito redutor. Por isso que de uns anos para cá eu venho quebrando essas caixinhas. O meu último disco é uma quebra. É natural esperarem que eu grave um disco de samba. Esse também é um espaço que está dentro de mim.

E você parte dele para os outros ritmos?
Exatamente. É importante você saber de onde é para poder falar para o mundo. E eu não tenho medo de ser desafiada. A Linda me ensinou que dentro da minha voz existem muitas vozes. Então o que eu faço hoje é me descobrir
e me permitir.

Você sempre gravou de forma independente?
Não sei se foi uma opção no início, porque quando você é muito dura, você precisa de algum subsídio. E é o caminho da maioria dos artistas hoje. Você é uma figura que pensa a sua carreira, que produz o seu disco, que define o seu repertório, que chama os seus parceiros, que pensa num conceito. E é claro que isso tem a ver também com a minha personalidade. Eu acompanho tudo. Tem uma canção que a Dona Ivone Lara fez e canta de que eu gosto muito, que fala “se o caminho é meu, deixa eu caminhar, deixa eu, se o caminho é meu, deixa eu caminhar, deixa eu”. Isso é uma lição de vida. Se o caminho é nosso, a gente tem que farejar.

Que caminhos você quer trilhar agora?
A Nenê, minha produtora, diz que tenho caixas de discos prontas, imaginárias. Porque eu tenho uns três ou quatro projetos já na minha cabeça que quero fazer. As coisas vão ficando velhas para mim muito rápido. Eu acho que vou morrer logo, então não quero demorar tanto. Eu preciso produzir. E estou numa fase ótima, nesse sentido. Com saúde, com a voz no lugar, internamente mais segura do que eu faço, trabalhando com pessoas de que eu gosto muito.

E qual é o próximo projeto?
Estou trabalhando com o Elias Andreato em uma homenagem ao Bola de Nieve, um grande cantor e pianista cubano, com texto e roteiro do Elias. Sempre tive uma paixão grande pela música cubana. Em 2010, eu visitei Cuba com uma amiga, e eu sou também daquela gente. É assim que eu vou fazendo as minhas coisas, me identificando e falando: “eu sou daqui”, querendo me misturar e fazer esse encontro se materializar. O Bola eu conheci pelo Marcelino Freire, esse escritor que é um irmão, e fiquei apaixonada. Um artista superdramático, que imprimia no seu cantar o amor incomensurável, imenso, desmedido. O Elias soube captar isso bem e escreveu um roteiro imaginando o que seria a alma do Bola de Nieve. O roteiro é todo com textos de vários autores brasileiros, de Ferreira Gullar a Cecilia Meireles, passando por Castro Alves. Quando soube dessa peça, fui pedir para o Elias para fazer, e ele readaptou para que eu fizesse esse alter ego do Bola. Então eu canto e interpreto esses textos, em espanhol.


Como foi trazer essa sonoridade cubana para conversar com as suas?
O Elias acha que eu tenho uma facilidade com o drama, com a tragédia, e que isso tem que ir para a cena. Essa dramaticidade é aliada à ideia de um personagem que amou independentemente se foi correspondido, traído, abandonado. Esse personagem não se arrepende de nada, porque ele amou. E amar é a grande condição para você estar vivo. É o coração que pulsa. Então tem momentos de loucura, momentos de tristeza, de abandono, de lembrança. É bonito, eu choro muito. Eu não sei se vou conseguir fazer em cena, mas vou tentar. E também achei ótimo porque é um espetáculo que fala de um monte de coisas importantes. É um personagem muito atual dentro de uma discussão de racismo e de homofobia, porque o Bola era tudo isso: cubano, negro, gay. É muito interessante poder ir para o palco assumindo esse lugar.
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