O fio da vida | Revista Fleury Ed. 34

Convidamos os biólogos Fernando Reinach e Denise Scheepmaker para refletir sobre os diferentes ciclos e ritmos da natureza.

Convidamos os biólogos Fernando Reinach e Denise Scheepmaker para refletir sobre os diferentes ciclos e ritmos da natureza.

Ilustração: Sergio Scattolini Amatucci

No interior de São Paulo, em Santa Rita do Passa Quatro, vive Patriarca, como é chamado o jequitibá-rosa tido como a árvore mais velha do Brasil. Ele tem mais de 3 mil anos de vida. Nas Montanhas Brancas da Califórnia, em 1957, o pinheiro ancião de 4.600 anos foi batizado de Methuselah por um pesquisador. Enquanto isso, todo um grupo de insetos recebe o nome de Ephemeroptera por seu curtíssimo ciclo de vida adulto, de poucas horas a um ou dois dias. “É uma estratégia que surge evolutivamente. Às vezes, uma forma biológica só consegue perdurar se tiver um ciclo de vida rápido, senão ela perde em competição para outras. É isso que vai esculpindo, para cada um, um tempo de vida”, explica Denise Selivon Scheepmaker, professora livre-docente em Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Para a biologia, mais do que o ciclo que vai do nascimento à morte do ser, o que importa é o tempo de uma geração. “Que é o tempo de nascer, ficar adulto e ter um filho”, resume o biólogo e colunista Fernando Reinach, que coordenou, no Projeto Genoma, o sequenciamento da bactéria Xylella fastidiosa. “Para simplificar, podemos pensar em uma geração humana como tendo 50 anos. Então, do nascimento de Cristo até hoje, dá para dizer que são 40 gerações. A grosso modo, quanto menor o ser, mais rápida a geração. Uma bactéria como a Escherichia coli, por exemplo, é um bom objeto de estudo por sua rápida geração, de apenas 15 minutos. São quatro gerações por hora. Dez horas para 40 gerações. O que, para nós, é desde o tempo de Cristo, para uma bactéria são dez horas”, calcula Reinach. “Mas se você compara com uma árvore de 500 anos, a geração dela é só dez vezes mais lenta que a nossa. Desse ponto de vista, o homem está mais perto do limite superior conhecido dos seres vivos do que do limite inferior”, conclui.

Mas a questão complica um pouco mais quando se fala de bactérias. Quando se olha para o ciclo de vida desses organismos unicelulares, o próprio conceito de vida se dissolve. “Essa mesma bactéria, que tem uma geração de 15 minutos. Como é a reprodução dela? Ela se expande, se divide e temos duas bactérias. Aí essas duas crescem, se dividem e temos outras duas para cada. Então, os conceitos que a gente usa de nascimento e morte não se aplicam. Se uma é a bactéria mãe, e a outra a filha, a mãe morreu? Não tem um cadáver da mãe”, provoca Reinach. “Existe uma eternidade nisso. Não há uma morte intrínseca do processo biológico”, diz Scheepmaker. É quando surge a multicelularidade que várias células começam a trabalhar para manter uma unidade viva e funcional, quando começa a haver uma especialização de tarefas. “Um grupo de células vai ser responsável pela reprodução. Todo o conglomerado celular que vive junto dele, que garante a sobrevivência desse conjunto de células sexuais, torna-se desnecessário depois da reprodução”, diz a bióloga. “A única ligação física que você vai ter entre sucessivas gerações, a partir daí, é dada pela célula sexual.”

Nosso conceito de morte está ligado ao que os biólogos chamam de soma, o corpo. “Mas podemos pensar que, de todas essas células que a gente chama de seu corpo, tem uma só que não vai morrer”, diz Reinach. “Se eu me identificasse com o gérmen e não com o soma, eu não diria que sou um corpo, o Fernando. Eu diria que sou um gérmen e tenho esse monte de outras coisas para garantir que eu fique feliz e sobreviva”, reflete. Ele cita o biólogo J. B. S. Haldane que, diante da afirmação de que o ovo seria o jeito que a galinha descobriu para fazer outra galinha, propôs: o jeito de duas galinhas fazerem outra galinha passa pelo ovo. “A galinha não é importante. O importante é o ovo.” Desse ponto de vista, é possível perceber um contínuo da vida, que teria surgido uma vez só na Terra. E somos, cada um de nós, uma linha contínua de vida ao longo de inúmeras gerações.

Pensar que somos apenas um amontoado de células que só servem para perpetuar a espécie é bastante desmotivador. Mais que isso, lembra Scheepmaker, é ignorar a cultura, que é nossa marca, e nossa característica social. “Nós somos uma legião de seres. Estamos cobertos de bactérias que nos conferem proteção. Nosso trato digestivo está repleto de uma flora que nos é necessária. A gente tem, em nós, um sistema imenso de cooperação, que faz a unidade funcionar”, diz. “E, se você olhar ao longo do tempo da história da nossa diversidade biológica, o que triunfa é a cooperação.”

Quanto dura?
Se já é difícil imaginar o que são séculos de vida de uma árvore, mais complicado ainda é entender o que são bilhões de anos de vida na Terra. “A noção de tempo longo é recente na história da ciência”, lembra Reinach. “Acreditava-se que Deus teria criado o mundo 200, 300 anos antes, poucas gerações.” Quando os geólogos começaram a encontrar fósseis e outros rastros do passado da Terra e do Universo, o tempo – e também o espaço – começou a se alargar. E nosso lugar, nessa história, a ocupar uma parcela proporcionalmente cada vez menor.

São 3,5 bilhões de anos de história da vida na Terra. Da primeira célula, mais simples, semelhante a uma bactéria de hoje, surge outro tipo mais sofisticado, que tem uma membrana envolvendo o material genético. Passa-se mais 1,8 bilhões de anos até que essa célula, além de ter uma interação interna por meio dos canais membranosos, passe a interagir com outras células semelhantes e surgirem os multicelulares. “Isso quer dizer que dois terços da história da vida na Terra se dão só com organismos unicelulares”, ressalta a bióloga. Foi só há 560 milhões de anos que ocorreu a chamada explosão do Cambriano, quando houve uma grande diversificação dos seres vivos. A cultura humana teria apenas de 40 a 70 mil anos.

Dentro desse período, a mudança da cultura baseada no conhecimento é muito recente. “Faz só cerca de 200 anos que sabemos o suficiente de biologia para entender que o homem e a mulher são coparticipantes na geração de um filho”, lembra Reinach. “No século 14, por exemplo, não se sabia que existia espermatozoide e óvulo. A mulher era como um vaso de terra onde o homem coloca a semente e germina.”

Para não perder perspectiva quando se olha para o passado, e mesmo para o presente, Scheepmaker sugere lembrar de uma anedota. Dois peixinhos jovens vêm e um peixinho mais velho vai nadando em direção contrária.

O mais velho pergunta aos mais jovens: “Então, como está a água?”. Os jovens continuam nadando. Até que um olha para o outro e pergunta: “Água? O que é água?”. “Eles estão imersos, assim como nós estamos imersos na nossa cultura.”

Expectativa de vida média dos animais segundo o Museu Field de História Natural, de Chicago (EUA)

Para a biologia, mais do que o ciclo que vai do nascimento à morte do ser, o que importa é o tempo de uma geração.

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