O poder do autocuidado | Revista Fleury Ed. 38

A participação ativa no próprio tratamento é fundamental para que os pacientes de doenças crônicas obtenham bons resultados e levem uma vida sem tantas limitações.

Era o último ano da faculdade de jornalismo e Luana Alves decidiu fazer um mochilão para comemorar a formatura. Pouco antes da partida, se deu conta de que já somavam dez os quilos perdidos em seis meses, sem que ela tivesse feito dieta ou exercícios. Passou em consulta de rotina com uma ginecologista, que pediu exames, mas Luana decidiu fazê-los na volta. Enquanto se aventurava pela América do Sul por 25 dias, percebeu que algo estava errado mesmo: ela sentia vontade de ir ao banheiro o tempo todo, além de muita sede. De volta para casa, veio o susto: havia perdido mais seis quilos na viagem.

Luana fez os exames e, quando abriu os resultados, viu que a referência glicêmica normal era de até 99 mg/dL. A dela estava em 293. “Não acreditava que tinha diabetes porque sempre fui magrinha e fiz exercícios, mesmo que sem tanta disciplina”, conta. Mas agendou uma consulta com um endocrinologista. Foram duas semanas de aflição. “Eu achei que não poderia comer mais nada e, pesquisando, encontrei que a expectativa de vida era de dez anos. Achei que ia morrer cedo, fiquei muito mal”, lembra. Ainda enquanto vasculhava a internet, encontrou uma história que a acalmou: a de um senhor de 80 anos que tinha diabetes há mais de 40 e vivia bem. “Vi que ele tinha um ótimo controle da doença e foquei nisso para ter a qualidade de vida que ele tinha”, lembra. Luana começou o tratamento com insulina, a glicemia começou a baixar e ela se sentiu, então, bem melhor. “Foi como se um mundo novo tivesse se aberto para mim. Eu sabia que a diabetes ia implicar em mudanças no meu estilo de vida, mas vi que, se eu conhecesse bem a doença, conseguiria me tratar.”

Luana, que hoje tem 34 anos, aprendeu rápido um princípio fundamental para pacientes de doenças crônicas: o autocuidado e a participação ativa no tratamento trazem resultados melhores. Luana passou a frequentar uma associação de apoio a pessoas com diabetes, onde aprendeu a aplicar insulina (ela administra cinco doses por dia), a contar carboidratos e a compreender o funcionamento do seu próprio corpo. Fez mudanças na alimentação e na rotina como um todo. Hoje, ela frequenta a academia de duas a três vezes por semana e trocou um dos trajetos de ônibus para chegar ao trabalho (são três) por uma caminhada – dessa forma, ela caminha ao menos 40 minutos diariamente. “Hoje, eu consigo correr por 15 minutos, o meu fôlego melhorou. Antes da diabetes, não aguentava correr nem pra pegar o ônibus. Não tinha a qualidade de vida que tenho hoje, sinto o meu corpo mais forte”, afirma.

O peso perdido no mochilão de formatura foi recuperado em um ano e Luana percebeu que podia levar uma vida normal. Foram quatro anos depois do diagnóstico até decidir fazer outro mochilão. “Queria ir pro Peru fazer a trilha inca. Estava receosa, mas não queria me privar disso por causa da diabetes”, conta. A viagem foi como um ritual para Luana. Ela queria provar a si mesma que a diabetes não a impediria de realizar seus desejos. Deu tão certo que, na volta, ela se sentia fortalecida para encarar mais um desafio: trabalhar como voluntária na Olimpíada do Rio de Janeiro. “Na viagem, por mais que estivesse fora da rotina, eu podia controlar meus horários. Já na Olimpíada, eu dependia de uma agenda que era imposta para nós. Contei ao meu coordenador de treinamento que precisava saber, já no começo do dia, os horários em que íamos fazer pausas para comer, assim, conseguia administrar a insulina”, lembra.

Luana acredita que, depois do baque causado pelo diagnóstico, mudou sua postura diante da vida, a ponto de aproveitar mais as experiências. “Não que eu ache que vá viver menos – inclusive, com os bons hábitos que tenho, acredito que vá é viver mais e melhor. Mas quando você descobre que tem uma doença, pensa: por que eu vou deixar pra daqui a cinco anos o que posso fazer no ano que vem?”

“Foi como se um mundo novo tivesse se aberto para mim.”
Luana Alves

Correndo para salvar o próprio coração

Já faz mais de dez anos que o engenheiro Luiz Akuta, de 59 anos, descobriu que tinha diabetes tipo 2. Ele era obeso, tinha pressão alta, passava o dia sentado no escritório e, quando voltava para casa, assistia à televisão. Não praticava esportes e, além do churrasco que comia toda semana, tinha péssimos hábitos alimentares. “Eu me lembro de uma vez, ainda nos anos 1990, em que um amigo, também obeso, veio para São Paulo e eu o levei para comer no Bixiga. Depois de duas pizzas, comemos picanha e milk-shake”, conta. As dores nos joelhos e as constantes torções nos pés acabaram por fazê-lo tomar consciência de que precisava mudar de postura. Mas o impacto maior veio quando sua endocrinologista disse que ele teria de tomar medicamentos injetáveis, já que os orais não dariam conta de causar uma resposta rápida do organismo dele, como era necessário. “Aí, percebi que era grave mesmo e que precisava sair daquele ciclo”, conta. Luiz começou a acompanhar a esposa em suas caminhadas, inspirou-se nos hábitos de seus ascendentes orientais e começou a se alimentar mais de comida japonesa, além de frutas, verduras e legumes. Dos 120 quilos, perdeu 40. “No começo, foi muito difícil mudar os hábitos e me dedicar. Mas com o tempo passei a me sentir melhor e a vontade daqueles excessos que eu cometia até desapareceu”, diz o engenheiro, que desde 2014 pratica corrida regularmente.

No ano passado, porém, a saúde deu mais um sinal de alerta. Luiz fez uma consulta de rotina com um cardiologista, que pediu exames. Mas antes de abrir os resultados, o engenheiro partiu para uma viagem à Europa com a esposa – os dois foram correr uma maratona na Holanda e aproveitaram para fazer turismo. Ele sentiu dores nas pernas durante a corrida e tontura e amortecimento na garganta em algumas situações de esforço físico, como nas escadarias de igrejas que visitou na Itália. No retorno ao Brasil, teve um susto: 90% das artérias cardíacas de Luiz estavam bloqueadas. “Eu não enfartei na viagem por muito pouco. O médico disse que, se eu já não corresse há dois anos, isso com certeza teria acontecido. Marquei cirurgia imediatamente para colocar dois stents (pequenos tubos que, inseridos dentro das artérias, se expandem e ajudam na desobstrução) e reforcei a rotina de exercícios, seguindo orientações médicas”, conta Luiz, que assumiu ainda mais a frente dos cuidados com sua saúde. Hoje, ele tem muito mais disposição, além de outros ganhos. “Criei amizades saudáveis, relações mais leves. A gente volta a ser humano, minha vida se transformou.” #SaúdeéPoder

Cuidado é liberdade

Tomar as rédeas da própria saúde com responsabilidade é benéfico para qualquer pessoa. Mas aos pacientes de doenças crônicas, essa atitude, que envolve autoconhecimento, dedicação, disciplina e empoderamento, se torna uma aliada tão importante quanto um bom acompanhamento médico. “No caso da diabetes, o paciente precisa entender como funciona a meia-vida da insulina, conhecer os detalhes do controle de glicemia, entre várias outras questões. Quanto mais engajado ele for, maior as chances de ter o controle da doença”, afirma Dra. Milena Telles, endocrinologista e médica assessora de Endocrino e Diabetes do Fleury. O cardiologista Dr. Nabil Ghorayeb, médico do esporte e médico sênior do Fleury, reforça a mensagem. “Quando você faz um tratamento cardiológico, é essencial a participação ativa no tratamento, especialmente na disciplina com a reeducação alimentar e na inclusão obrigatória da atividade física. Mas há de se ter parâmetros: não precisa fazer academia nem crossfit – pode-se fazer 150 minutos de caminhada por semana de uma vez ou cerca de uma hora por vez, três vezes por semana. Quem quer mais intensidade, precisa antes consultar seu médico”, explica Dr. Nabil.

“No começo, foi muito difícil mudar os hábitos e me dedicar. Mas com o tempo passei a me sentir melhor e a vontade daqueles excessos que eu cometia até desapareceu.”
Luiz Akuta


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