Papéis ao vento | Revista Fleury Ed. 30

A artista Laura Vinci fala do envolvimento emocional na criação de suas obras, da busca pela integração da arte com o universo urbano e mostra como repensou a vida nas cidades em sua participação na exposição “Feito por Brasileiros”

A artista Laura Vinci fala do envolvimento emocional na criação de suas obras, da busca pela integração da arte com o universo urbano e mostra como repensou a vida nas cidades em sua participação na exposição “Feito por Brasileiros”
por Elisa Duarte
fotos Flávio Santana

Na antiga cozinha do Hospital Matarazzo, papéis com fragmentos de textos literários pendurados por todo o ambiente se movimentam no ritmo do vento provocado por ventiladores. A instalação “Papéis Avulsos”, criação da artista Laura Vinci, é apadrinhada pelo Fleury e faz parte da exposição “Feito por Brasileiros”, que ocupa o antigo Hospital entre 9 de setembro e 12 de outubro. Com sua arquitetura italiana do século 19, o local fica a poucos metros da Avenida Paulista e estava abandonado desde o encerramento de suas atividades, em 1993. Agora, passa por uma intervenção artística antes da grande reforma que o transformará na Cidade Matarazzo, um complexo cultural e turístico do grupo francês Alllard.

Com ideia original de 2008, a obra de Laura Vinci vem se tranformando até atingir a síntese apresentada ao público durante a exposição. Uma das referências para esse trabalho são as cenas vistas pelo mundo todo nos ataques terroristas de 11 de setembro, em Nova York (EUA), quando uma grande quantidade de papéis e documentos voou das Torres Gêmeas. Para a artista, aquele acontecimento foi fundamental para mudar o modelo de pensar a vida nas grandes cidades. Com o amadurecimento da ideia, Laura levou seus papéis voadores para o palco do teatro – na peça “O Duelo”, de Anton Tchékhov, com montagem da companhia Mundana de Teatro. “O autor descreve a cena da tempestade, onde as janelas se abrem e os papéis que estão sobre a mesa voam. Na peça, o ator vestia um ventilador e fazia com que os papéis voassem”, conta Laura.  Agora, a artista os traz para um dos símbolos da imigração italiana na cidade. “Acho que aqui, neste momento atual da cidade, da situação mundial, estamos vivendo uma transformação muito profunda de valores, do ponto de vista social, urbano e da sustentabilidade. Também é dessa tempestade que estou falando. Acho que tem muita coisa dura por vir”, explica.

Apesar da aspereza de sua inspiração, a obra se transformou em uma delicada poesia com trilha sonora composta pelos sons dos papéis soprados pelos ventiladores. O músico José Miguel Wisnik, marido de Laura, foi o responsável por toda a sonoridade da obra. “Não é um trabalho político, muito pelo contrário, é um trabalho visual. Atrás da poesia tem um pouco de humor, porque esses papéis voando parecem um mamulengo, uns bonecos, têm uma certa graça”, diz a artista, que também observou as telas de tempestades de William Turner (pintor romântico inglês) e as papeladas das gravuras japonesas durante o processo de amadurecimento do trabalho.


“Não é um trabalho político, muito pelo contrário, é um trabalho visual. Atrás da poesia tem um pouco de humor, porque esses papéis voando parecem um mamelungos, uns bonecos, têm uma certa graça”

Processo criativo
Concidentemente, essa é a segunda obra de Laura em um prédio da família Matarazzo. A primeira foi a criação “A Chave/Cidade”, de 1998, na qual uma montanha de 50 toneladas de areia escorria de um pavimento ao outro dando a ideia de uma gigantesca ampulheta. “Foi a peça que me transformou, que fez a chave virar. Foi ali que comecei a trabalhar a tridimensão junto com o espaço, a integrar o trabalho ao contexto arquitetônico onde ele vai estar. Isso agora é uma constante do meu trabalho.”
Formada em artes plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), nascida e criada em São Paulo, Laura Vinci gosta da movimentação da cidade e de levar seu trabalho para fora das galerias, como fez quando esteve em locais como Beco do Pinto, no Solar da Marquesa, e também no Largo do Café, ambos no centro da cidade. Pintora nos anos 1980, Laura não fez uma passagem brusca da pintura para as esculturas e instalações. Suas pinturas sempre tiveram toques tridimensionais, mesmo antes de chegarem ao ponto de saírem das telas para ocupar a cidade.

Para levar suas ideias do ateliê para o local da exposição, Laura tem um curioso processo criativo. “Faço o piloto numa escala muito menor, mas a obra só vai existir quando chega no lugar. É uma situação de risco, sempre muito tensa, mas já me acostumei. É no lugar, nas condições que ele tem, que vou resolver o trabalho. Sempre é muito surpreendente, por mais que eu consiga imaginar, só quando ele existe é que ele é real. Sempre me surpreendo. Geralmente fico satisfeita. Ainda bem”, diverte-se.

A exposição
Com atmosfera renovada, o antigo Hospital Matarazzo recebe as obras de mais de 100 artistas brasileiros e estrangeiros com curadoria de Marc Pottier e projetos especiais curados por Simon Watson, Nadja Romain, Gabriela Maciel & André Sheik, Pascal Pique, Museu do Invisível (Le Musée de l’Invisible), Baixo Ribeiro, Ana Pato e Marcelo Rezende. A exposição conta ainda com importantes nomes da cena contemporânea mundial, como Adel Abdessemed, Moataz Nasr, Jean Michel Othoniel, Joana Vasconcelos, Francesca Woodman, Tony Oursler e Kenny Scharf, que ocupam pavilhões, praças e corredores centenários, ao lado de consagrados nomes da arte contemporânea brasileira, entre eles Tunga, Henrique Oliveira, Carlito Carvalhosa, Márcia e Beatriz Milhazes, Iran do Espírito Santo, Nuno Ramos e Vik Muniz.

Legendas:
O músico José Miguel Wisnik, marido de Laura, foi o responsável pela trilha sonora da instalação “Papéis Avulsos”
Instalação “No Ar”, no Beco do Pinto, em São Paulo
Instalação “Warm White”, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo


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