Passaporte para uma viagem sem fim | Revista Fleury Ed. 38

Habitamos um mundo mutante. Nesse rincão ainda inexplorado por completo, o desconhecido pode estar ali na esquina.

Habitamos um mundo mutante. Nesse rincão ainda inexplorado por completo, o desconhecido pode estar ali na esquina. Para Alberto Manguel, a curiosidade nos empurrará sempre para frente, mesmo que um misto de desejo e temor, interesse e prudência acompanhe nossa decisão.

Alberto Manguel já nasceu com fome, mas não propriamente de comida. Ainda menino, com apenas três anos, lia e escrevia e, pouco tempo depois, já dominava mais de um idioma. Hoje, beirando o septuagésimo aniversário, continua nessa busca incessante para aplacar seu apetite por conhecimento. “A curiosidade alimenta nossa imaginação, que é nosso instrumento de sobrevivência”, afirma o escritor, ensaísta e bibliófilo argentino naturalizado canadense, dono de uma biblioteca particular com mais de 40 mil títulos.

Será seu acervo literário do tamanho de sua curiosidade? Bem, na verdade, ficou mais complicado para Manguel responder a essa indagação, pois sua coleção cresceu um bocado no ano passado. A razão? Nomeado pelo presidente Maurício Macri, assumiu a direção da Biblioteca Nacional da República Argentina, em Buenos Aires, ganhando a oportunidade de devorar mais algumas dezenas de milhares de livros.

O retorno à cidade natal depois de décadas longe da Argentina – ele firmou há alguns anos residência no sul da França – não lhe dá apenas novos títulos para se saciar. A nomeação o faz “reencontrar” um velho amigo, com quem passou parte da adolescência dividindo clássicos da literatura mundial: Jorge Luís Borges, que também comandou, de 1955 a 1973, a Biblioteca Nacional argentina.

Está curioso para saber como esses dois grandes pensadores e intelectuais argentinos, que tinham décadas de vida os separando, conheceram-se? A história é realmente boa e merece um registro. Os dois se esbarraram na livraria Pygmalion, no centro da capital argentina, que vendia apenas títulos em idiomas estrangeiros e onde o adolescente Manguel trabalhava. Já começando a perder a visão, o autor de Ficções e O Aleph, entre outras obras clássicas, viu no garoto culto e bilíngue a chance de continuar alimentando sua curiosidade e imaginação. Convocou-o para ler, em voz alta, os clássicos em inglês que já não podia mais devorar sozinho.

Convite aceito, Borges ganhou mais do que um bom narrador. Passou a ter um discípulo aplicado, capaz de criar frases sublimes como: “A curiosidade não é o fim, é o passaporte, o convite para viajar”; ou: “Quem se contenta com respostas são os mortos. Os vivos questionam-nas”.

Rumo desconhecido

“Sou curioso desde muito jovem, e continuo sendo”, diz Manguel, para quem não existe uma só pessoa sem curiosidade. “Às vezes, ela é reprimida, está escondida. Ela está sempre lá, entretanto, à espreita em seu canto”, completa o escritor argentino, que se debruçou sobre o tema em seu último livro, Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras), lançado no Brasil em 2016.

Na obra, Manguel parte da premissa de que a curiosidade foi o combustível que alimentou a aprendizagem, a imaginação, o desenvolvimento e o progresso da humanidade ao longo de toda a nossa existência. Ele recorre a textos de autores que marcaram sua vida de leitor, como Tomás de Aquino, Sócrates e Dante Alighieri, entre outros, para tentar responder questões que sempre nos angustiaram, tais como “o que é o infinito”, “por que estamos aqui”, “o que é a verdade” e “quem sou eu?”.

Afinal, em meio a um mundo em constante (e rápida) transformação, para que direção caminhamos? “Não podemos conhecer o futuro. Nossa noção de tempo é linear, de ontem a amanhã. Não sei se a raça humana vai desaparecer dentro de uma hora”, especula Manguel. Sem saber ao certo o futuro que nos aguarda, com o desconhecido presente em cada esquina, será a curiosidade o que efetivamente impulsionou a humanidade para alguma direção? Manguel acredita que sim, mas nunca sem certo clima de tensão entre o medo e o desejo por conhecimento. “Isto é muito claro: estamos sempre entre o desejo e o medo, entre a curiosidade e a prudência. Os limites que nos são impostos também representam a tentação de cruzá-los”, diz o discípulo de Borges.

E o raciocínio lógico, onde entra nessa equação? Só ele, associado à curiosidade, é capaz de nos conduzir mais rápido ao conhecimento pleno? E onde a imaginação entra nessa combinação que aparentemente nos tira da ignorância? “Não podemos raciocinar, não podemos pensar, a não ser imaginativamente. Pensamento significa abstração e esta só é possível por meio do nosso poder de imaginação”, comenta Manguel, para acrescentar em seguida: “Curiosidade, razão e imaginação são os três rostos da mesma besta.”

Com o rápido avanço tecnológico, uma pergunta ser faz pertinente: onde nossa curiosidade vai parar? Ela continuará nos estimulando a sempre seguir em frente, mesmo com o Google se firmando como um oráculo rápido e prático para saciar quase todas as nossas inquietações? Será, no futuro, a inteligência artificial tão predominante em nossa existência a ponto de nos tranquilizar frente às encruzilhadas da vida, ensinando-nos os caminhos mais fáceis e rápidos? (Calma lá, o Waze já não faz isso?) Enfim, o desconhecido terá a mesma graça de antes? “Nenhuma tecnologia pode tirar a ‘graça’ que a curiosidade desperta”, acredita Manguel. “Toda tecnologia é uma ferramenta, como uma colher ou uma faca, com a qual mergulhamos no mundo que nos rodeia. São, portanto, instrumentos da nossa curiosidade”, conclui.




Alberto Manguel: nascido em Buenos Aires, é escritor, ensaísta, tradutor e bibliófilo. Naturalizado canadense, é autor de dezenas de livros e já recebeu inúmeras honrarias por conta do seu trabalho literário, entre elas Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras, concedida pelo governo francês. Doutor honoris causa pelas universidades de Ottawa e York, no Canadá, Liège, na Bélgica, e Anglo Ruskin, em Cambridge (Reino Unido), Manguel dá aulas nas prestigiadas universidades norte-americanas de Princeton e Columbia.

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