Pequenos Hóspedes | Revista Fleury Ed. 26

Para cada célula do corpo humano existem dez micro-organismos morando em nossas estruturas. A maior parte faz o nobre trabalho de sintetizar vitaminas, digerir alimentos e formar uma barreira contra invasores causadores de doenças.

Para cada célula do corpo humano existem dez micro-organismos morando em nossas estruturas. A maior parte faz o nobre trabalho de sintetizar vitaminas, digerir alimentos e formar uma barreira contra invasores causadores de doenças

Eles estão em todos os lugares. São microscópicos, incontáveis e se multiplicam em profusão. Vírus e bactérias foram descobertos pela ciência apenas no século 15, mas é fato que dividem espaço com o homem desde seu primeiro respiro. E, mais do que coexistir conosco, os agentes infecciosos ajudam a contar a história das migrações humanas e os fatos ocorridos durante essa grande odisseia. “Por meio do DNA e RNA desses germes, podemos saber quando e como as epidemias atuais (como a dengue, aids, gripe aviária e ebola) iniciaram-se de maneira lenta e silenciosa anos e décadas atrás, e de que forma elas condicionaram a existência humana, dizimando populações, estimulando conflitos, infectando combatentes”, explica o infectologista brasileiro Stefan Cunha Ujvari no livro “A história da humanidade contada pelos vírus”.

Mas a influência dos vírus e bactérias em nossa trajetória não acontece apenas de forma negativa. O corpo humano abriga mais de 100 trilhões de micro-organismos, cerca de dez vezes mais que nosso número de células próprias, e a maioria deles está no trato digestório. Assustador? Que nada. A maior parte das bactérias são hóspedes que estão aqui para nos ajudar em tarefas importantes, como decompor lipídios, proteínas e carboidratos da dieta para transformá-los em nutrientes de fácil absorção, proteger-nos dos verdadeiros invasores “do mal”, e até mesmo produzir compostos como vitaminas e anti-inflamatórios que o nosso genoma não é capaz de sintetizar.

Para conhecer melhor essa verdadeira fauna que nos habita, o projeto Microbioma Humano reuniu cientistas do mundo todo em torno de duas questões: quem são esses micro-organismos e o que fazem? A iniciativa foi lançada em 2008 e concluída no ano passado. Após coletar cinco mil amostras de cinco regiões do corpo de pessoas saudáveis, os pesquisadores mapearam mais de dez mil espécies de micróbios em cada indivíduo. Um dos achados mais surpreendentes foi que micróbios diferentes podem exercer funções semelhantes, pois trazem os mesmos genes. Além disso, foram identificadas assinaturas genéticas de bactérias causadoras de doenças. O Staphylococcus aureus, resistente a antibióticos, foi encontrado nos narizes de cerca de 30% dos voluntários – que permaneciam em perfeitas condições de saúde. Com isso, o próximo passo é entender o que mantém esses micro-organismos inativos e onde estão seus reservatórios.

Onde mora a diferença

Vírus são tão diferentes das bactérias quanto a lula é de um elefante. Eles diferem em tamanho – o maior vírus tem as dimensões da menor bactéria – e em estrutura – as bactérias são complexas comparadas aos vírus.

Uma bactéria típica tem uma parede celular rígida e uma fina membrana que reveste o citoplasma, que é o fluido do interior da célula. Ela contém toda a informação genética necessária para fazer cópias de si mesma, seja por conta própria ou ao entrar em contato umas com as outras. Os vírus podem ou não ter uma camada externa (envelope), e todos eles têm uma cobertura de proteína e um núcleo com material genético. E é só isso. Assim, não conseguem se reproduzir sozinhos. É aí que mora a principal diferença entre eles.

Com um código de DNA limitado, sem as ferramentas necessárias para se automultiplicar, os vírus nos invadem como parasitas. Sequestram material genético, pegam carona em nossas células próprias ou de bactérias e injetam seus genes para conseguirem se reproduzir. Com o tempo, são tantos micro-organismos ocupando o espaço que a célula explode e morre, liberando os vírus para infectar as estruturas vizinhas.

Uma relação delicada

Ao longo dessa delicada relação de coexistência, os vírus e bactérias lutam arduamente para vencer as barreiras impostas pelo homem. Por isso, esses dois grandes grupos de micro-organismos podem sofrer mutações ou receber material genético que, muitas vezes, os tornam resistentes aos medicamentos feitos para aumentar a nossa longevidade. Um exemplo é o vírus da gripe, que muda a cada estação conforme vai sofrendo rearranjos genéticos, tornando quase impossível a nossa completa imunização. É o caso também das superbactérias, que sobrevivem no ambiente hospitalar e aos tratamentos disponíveis.

“Estamos modificando tanto o meio ambiente que tornamos o mundo inóspito para esses seres”, diz Celso Granato, assessor médico para infectologia do Fleury Medicina e Saúde. “Com isso, o hospedeiro vira um porto seguro, e esses micro-organismos vão se readaptando para sobreviver e se reproduzir.” Granato cita os vírus das gripes aviária e suína, que migraram dos animais e se adaptaram ao organismo humano, graças à criação de porcos e galinhas no mesmo ambiente do homem. Essa readaptação acaba criando novas variedades para as quais o homem não tem imunidade, o que provoca surtos de grandes proporções, porém – e ainda bem – de ação limitada.

Já com as bactérias é diferente. As infecções causadas por elas, na maioria das vezes, só podem ser combatidas com o uso de antimicrobianos, mas estão se tornando cada vez mais resistentes aos medicamentos existentes no mercado. “Essa resistência é multifatorial e é influenciada pelo uso excessivo de antimicrobianos tanto no tratamento de infecções em humanos quanto em produção de animais para abate. Cerca de 60% da produção de um tipo de antimicrobiano – as fluoroquinolonas – são utilizadas em animais”, explica Jorge Sampaio, médico responsável pela microbiologia do Fleury e professor de Microbiologia Clínica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. “Isso pode explicar como pode ocorrer infecção por uma bactéria resistente em uma pessoa que nunca tomou aquele tipo de antibiótico. Outro aspecto é que as bactérias trocam material genético por um processo denominado conjugação, permitindo a disseminação de um ou mais mecanismos de resistência a antibióticos.”

Nas infecções bacterianas graves, é preciso “dar um tiro de canhão”, como dizem os especialistas: utilizar, no tratamento empírico, um ou mais antibióticos de amplo espectro capazes de atuar contra a maioria absoluta das bactérias que causam o tipo de doença apresentada pelo paciente. Somente depois que a bactéria é identificada por meio de isolamento em cultura e o antibiograma é realizado é que o médico pode rever o tratamento e passar a utilizar antibióticos de menor espectro, preservando, assim, os de maior espectro. Se, por um lado, os antibióticos eliminam as bactérias causadoras de infecção, por outro, se forem de amplo espectro, podem eliminar as bactérias da microbiota (não patogênicas).

Foi por isso que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a venda de antibióticos sem receita médica no Brasil. Trata-se de uma batalha para preservar os hóspedes do nosso corpo – e impedir que os invasores “do mal” tomem conta da casa, da comunidade, das cidades e do mundo.


Com um código de DNA limitado, sem as ferramentas necessárias para se automultiplicar, os vírus nos invadem como parasitas



Superbactérias e exames clínicos

O Fleury foi um dos pioneiros no Brasil nos testes para a identificação de um importante tipo de superbactéria, aquelas produtoras de KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) e de NDM (New Delhi Metalobetalactamase) , que não são contidas pela maioria absoluta dos medicamentos disponíveis no mercado. As KPC e NDM são enzimas capazes de degradar os antibióticos utilizados para tratar as infecções mais graves (carbapenêmicos). Na Índia, por exemplo, as bactérias que produzem NDM podem ser encontradas em fezes e águas contaminadas com esgoto. A sua transmissão ocorre primordialmente em ambiente hospitalar, por meio do contato com secreções da pessoa infectada, objetos contaminados ou mãos de profissionais de saúde ou visitantes que não tenham realizado uma higienização adequada após contato com o paciente. Não basta a higienização após o contato. É importante também sempre higienizar as mãos antes de tocar o paciente. Para identificar mais rapidamente as bactérias que produzem essas enzimas, a equipe de pesquisadores do Fleury desenvolveu um exame molecular que avalia o código genético e confirma a resistência.

O Fleury também foi pioneiro na padronização dos testes para a detecção do vírus Influenza A/H1N1, causador da gripe suína. Durante a pandemia de 2009, foram realizados testes nos hospitais privados parceiros para identificar rapidamente o vírus em crianças e idosos, os grupos de maior risco. Hoje, o Fleury oferece um teste molecular realizado em equipamento totalmente automatizado, que permite o diagnóstico de influenza A e influenza B em menos de duas horas.


Confira o game divertido sobre a ação dos vírus e bactérias na versão iPad da Revista Fleury.


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