Realidade ou ficção? | Revista Fleury Ed. 34

Esqueça a DeLorean, ou mesmo a máquina do tempo de H.G. Wells. Os estudos da física e da cosmologia sobre o tempo mostram que a realidade pode ser muito mais interessante do que a ficção científica consegue alcançar.


Esqueça a DeLorean, ou mesmo a máquina do tempo de H.G. Wells. Os estudos da física e da cosmologia sobre o tempo mostram que a realidade pode ser muito mais interessante do que a ficção científica consegue alcançar. O físico Mário Novello, referência nas pesquisas de cosmologia no Brasil, conta onde estão as fronteiras do conhecimento nessa area.

“A ficção cientifica não passa nem perto do que é a realidade na física hoje em dia”, garante Mário Novello. “A ficção científica precisa espantar aquele que lê, com propriedades fantasiosas. Ora, hoje as propriedades fantasiosas são descritas pelos físicos, cosmólogos, astrofísicos. São eles que estão descrevendo aquilo que a gente considera fantasioso por não fazer parte da nossa vivência cotidiana. Para se escrever um livro de ficção científica, atualmente, a pessoa deve ser extremamente imaginativa, porque a concorrência com os físicos é muito grande.”

Novello faz a comparação com a autoridade de quem está envolvido nos estudos de questões cruciais sobre o universo na atualidade. Preocupado com a maneira como as descobertas científicas são divulgadas, batalha há décadas para que as novas pesquisas sobre a origem do universo alcancem as pessoas, e se esforça para se comunicar com o público em uma linguagem compreensível. Falar sobre o tempo com Novello é puxar uma conversa que vai para as beiradas do que hoje se conhece sobre as leis que regem o universo e viajar para um mundo além de nossa imaginação.

“A estrutura do tempo passou por uma grande mudança no começo do século 20. Até então, o tempo era entendido como uma quantidade absoluta, totalmente separado do espaço, que também era entendido como uma quantidade absoluta.” Foi quando um matemático francês, Henri Poincaré, levantou a ideia de que talvez o tempo estivesse conectado com o espaço, a partir de estudos de vários cientistas em que as leis do eletromagnetismo entraram em choque com as leis da mecânica clássica. Até o final do século 19, a velocidade da luz era tida como uma constante universal. “Era 1905 e, apesar do espaço-tempo fundido, ainda assim essa quantidade era absoluta. Mas em 1915 houve outra revolução, e essa sim feita praticamente por uma pessoa só, Albert Einstein, que, ao estudar os efeitos da gravitação, criou uma hipótese fantástica que resultou ser verdadeira”, diz.

Até então, a gravitação era entendida dentro da física newtoniana – aquela que aprendemos na escola e que explica os corpos que caem e toda a interação da Terra com o Sol e a Lua, por exemplo. Porém, esse campo gravitacional que nos parece forte, uma vez que nos impede, humanos, de voar, é tecnicamente pequeno. “Para Einstein, quando a intensidade gravitacional é muito forte, toda a estrutura é totalmente diferente. E é aí que entra a ideia crucial de que o campo gravitacional muda a estrutura do espaço-tempo.” A proposta foi uma revolução que já comemora cem anos. “O espaço-tempo era, até então, quantidades que eram representações da realidade. Ele nunca tinha sido entendido antes como uma substância.”

Novello faz uma analogia para explicar o que isso significa. “Se você pegar uma folha de papel e botar uma caneta em cima e mexer na folha, observará que a caneta também se mexe, obviamente. Você não mexe na caneta, mas ela, por estar mergulhada na folha de papel, sofre a ação dela. A folha de papel é o que Einstein chamou de espaço-tempo. E quem mexe, a nossa mão, são os corpos que produzem gravitação. Aí você me diz: ‘mas eu não vejo nada disso no meu cotidiano’. Não vê por uma razão muito simples e que é também o motivo da física do século 20 ter mexido com os conceitos fundamentais do que eu chamo de dialeto newtoniano.”

REVOLUÇÕES
Esse dialeto traz os conceitos que são de fácil compreensão por todos nós, físicos ou não, uma vez que estão ligados a campos gravitacionais baixos, velocidades pequenas, pressões e temperaturas baixas, o nosso cotidiano humano, a física da nossa vizinhança. “No século 20, os físicos conseguiram penetrar lá no fundo do microcosmos, por um lado, e lá no macrocosmos do universo, por outro. No microcosmos, por exemplo, você pode achar absurdo eu dizer que, para ir de um ponto A a um ponto B do espaço, eu não preciso passar por todos os pontos intermediários. Mas é exatamente o que diz a física quântica.”

Com relação ao tempo, o “chacoalhão” nos conceitos foi ainda mais drástico. “Em 1949, o matemático Kurt Gödel propôs que, ao caminhar para o futuro, eu posso não estar me afastando do meu passado. Essa frase soa totalmente paradoxal para qualquer um de nós, porque nós entendemos o tempo como uma linha reta. Deixamos o passado para trás e caminhamos nessa linha reta indefinidamente. Isso vale na nossa circunstância. Mas quando o campo gravitacional é muito forte, dizia Gödel, é possível que a representação imaginativa do tempo seja mais próxima de uma linha fechada, um círculo, do que de uma linha reta.”

É também por vivermos em um campo gravitacional fraco que não podemos viajar para o passado. “Não na nossa vivência terrestre. Mas se em algum lugar do universo o campo for muito intenso, de tal maneira que essa situação que o Gödel descreveu possa acontecer, a experiência de voltar ao passado poderia acontecer. Nós não temos evidência observacional sobre isso, mas a teoria da relatividade geral permite exatamente esse tipo de situação.” Isso sem falar nos buracos de minhoca, que seriam espécies de túneis que permitiriam nos deslocarmos no universo. “Então você viaja no espaço-tempo, e tem que imaginar que o caminho não é mais só o espaço, é o espaço-tempo. Essa imagem mental de um tempo linear faz parte da experiência humana, no mundo newtoniano que a gente chama de realidade. Mas se você agora vai tentar descrever o universo, então esses conceitos não podem mais ser aplicados. Toda a estrutura mental com a qual a gente se preparou para descrever a realidade tem que ser mudada.“

Para lidar com conceitos e quantidades que vão além da nossa compreensão cotidiana, os cientistas recorrem a outra abordagem e, claro, a uma outra linguagem. “Para nós, é uma questão técnica. Poucas pessoas carregam isso com emoção. Então, dentro de uma questão técnica, isso significa simplesmente lidar com equações da física, mais ou menos complexas, com as quais os conceitos estão bem definidos. Não há muita crise existencial, digamos assim. É falando com o público que começam a aparecer questões, porque é difícil explicar em linguagem convencional. Porque, veja, a linguagem convencional foi montada para descrever a nossa realidade, do nosso mundo. Quando a gente descreve o universo, usamos uma linguagem lógica e leis da física que não são facilmente adaptadas à nossa linguagem do cotidiano”, explica.

“Então é claro que aparecem situações totalmente diferentes, até em contradição com nossos modos de ver a realidade, que parecem fantasiosas. Na verdade, não tem nada de fantasioso. Só parece assim porque nós achamos que a realidade que descrevemos no nosso cotidiano é a verdadeira realidade.” Para Novello, é preciso uma nova revolução, mas em nossa mentalidade. “É fazer, de novo, aquilo que Copérnico já fez. Achamos que a realidade vista pelo homem aqui no nosso cotidiano é a realidade para todo o universo. Mostrar que o pensamento humano não é o único do mundo é uma revolução tão grande quanto a de Copérnico.”


Mário Novello é físico e professor emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Foi um dos primeiros cientistas a questionar a teoria do Big Bang, elaborando a Teoria do Universo Eterno, em 1970. Escreveu Máquina do tempo: um olhar científico (Editora Jorge Zahar, 2005), em que aborda as viagens no tempo.


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