Sem raízes | Revista Fleury Ed. 33

"Quando estou na França, acho que sou um francês, só que com uma série de comportamentos estranhos para eles. Temos outro jeito de nos relacionar."


"Cada um desenvolve sua forma de ver de acordo com sua história", diz Sebastião Salgado, em O sal da terra. O filme, indicado ao Oscar 2015 de Melhor Documentário, traz a obra e a trajetória do fotógrafo pelo olhar de seu filho, Juliano Salgado, em colaboração com o diretor alemão Wim Wenders. Mais do que o registro de uma trajetória, porém, a obra foi a chave da reaproximação entre pai e filho. Foi a partir da mudança do olhar sobre o pai, suas longas ausências e, ao mesmo tempo, forte presença, que conversamos com Juliano Salgado, em uma reflexão sobre de que forma sua história moldou seu olhar, como artista, e também a construção de sua identidade.  

""Quando estou na França, acho que sou um francês, só que com uma série de comportamentos estranhos para eles. Temos outro jeito de nos relacionar.""

Juliano Salgado
Você nasceu e cresceu na França, onde seus pais se exilaram nos anos 1960, e hoje vive em Berlim. Como sua identidade foi afetada por essas referências cruzadas de diferentes culturas?
Isso afetou bastante a minha história, na verdade. Cresci com duas culturas. Meus pais, os dois brasileiros, falavam o português em casa. Na época, não podiam voltar ao Brasil – no início, eles tiveram medo e foram embora; depois o governo brasileiro tirou o passaporte deles; e então eles acabaram ficando na França. Para ser um fotógrafo ou jornalista, que viajava o mundo, que era freelancer, você precisava estar em Nova York ou em Paris, que eram os dois centros de onde chegavam as informações. Então eu cresci na França, sempre com a consciência muito grande de que eu era brasileiro. Meu referencial cultural é todo francês. Quando estou na França, acho que sou um francês. Eu falo o francês muito bem, sem sotaque. Não dá para notar a diferença. Só que com uma série de comportamentos estranhos para eles. Eu me comporto de um jeito que, muitas vezes, eles não entendem. São coisas finas, emocionais. Temos outro jeito de nos relacionar. A maneira de amar é diferente. Parece pouco, mas existe uma diferença muito grande. Já no Brasil, é muito claro nos primeiros meses que eu sou de fora.

A brasilidade vem de casa, então? Como era o contato com a família aqui no Brasil?
Eu fui ao Brasil pela primeira vez quando tinha quatro anos e passei seis meses. Na época, viajar era muito difícil. O contato era com meus pais e com os amigos deles, exilados. Tinha bastante brasileiro em Paris na época. E nós fazíamos as festas juninas, todas essas festas importantes, nossas. E, na França, eu tirava onda com meus amiguinhos, porque minha bisavó era índia. No Brasil, as pessoas tentam esconder, mas na França isso é o máximo. Então eu contava que era descendente de índios e as pessoas achavam superinteressante. Eu tinha muito orgulho dessas origens e do fato de que realmente tinha alguma coisa diferente. Então, sim, isso sempre esteve presente na minha construção de identidade. Meu nome e sobrenome são brasileiros. E na França isso era muito positivo. Chegou muita música dos anos 1970 lá, toda a MPB da época. O futebol. E eu tinha muito orgulho.

A qual lugar você sente que pertence? Ou carrega sempre um olhar estrangeiro por onde vai?
Não sei se é um olhar estrangeiro. Eu não tenho muita raiz. Tenho a impressão de que posso viver do mesmo jeito em lugares diferentes. Hoje vivo em Berlim. Claro que, quando vou para Paris, onde cresci, fico feliz. Mas não sinto saudade. Não tenho raízes fortes em lugar nenhum. A cidade onde eu moro é onde minha namorada está, onde tenho meu computador, posso trabalhar, ter contato com todo mundo. Com isso, eu posso estar em qualquer lugar.

Como foi a relação com Sebastião Salgado na sua infância?
Ele viajava muito. Quando voltava, vinha sempre cheio de histórias para contar. Essas histórias estão no filme. Muitas coisas são impressões das pessoas que ele encontrou, situações difíceis e coisas que ele aprendeu de tudo isso. Ele contava de um jeito muito envolvente. O Tião é um cara muito carismático. Ele tem uma capacidade de abstração muito grande. Então, quando conta as histórias ele se projeta, viaja, lembra das coisas. Eu cresci assim.

Não era um relato só de aventuras e belezas das viagens, mas também de dificuldades?
Ele se conecta muito com as pessoas com quem ele trabalha. Ele faz amizades. Ele viaja se integrando e confiando nas pessoas que ele encontra. Essa relação de confiança é dupla. As pessoas confiam que a imagem, a história que ele traz para fora, vai ser respeitosa. E ele fez isso muito bem. Ele confia nas pessoas que vão protegê-lo e levar para os lugares mais próximos dos locais onde rolam as crises. Ele é jornalista, então tinha de ir para lugares onde aconteciam eventos importantes. E era tudo isso que ele trazia: coisas que tinham acontecido e coisas que ele tinha entendido do que ele tinha visto.

Você foi conhecendo o trabalho dele dessa maneira, então?Sim. Ele editava as fotografias em casa, com a Lélia [Wanick Salgado, esposa de Sebastião e mãe de Juliano]. O Tião fazia ele mesmo as tiragens de leitura. Ele e a Lélia passavam horas, dias, no laboratório que tinha lá em casa. Em Paris, no último andar dos prédios ficam os antigos quartos de empregada. No sétimo andar do prédio onde a gente morava tinha o quarto onde meus pais instalaram o laboratório. E eu ia lá também, para ficar com eles. Cresci vendo essas fotos. Tive um contato e uma relação com essas imagens muito cedo, na verdade. Então, do ponto de vista profissional, técnico, aprendi muito rápido ótica, como funcionava uma lente, como funcionava a emulsão de cristais de prata, abertura, composição, essas coisas básicas de fotografia. Mas, sobretudo, o olhar para o mundo. Minha casa era muito aberta para o mundo, de fato. E o Tião às vezes tinha de explicar as fotografias, algumas bastante duras. Por exemplo, na viagem que ele fez ao Brasil no início nos anos 1980, ele tinha visto essas histórias dessas crianças que são enterradas com os olhos abertos, para não se perder no limbo. As pessoas eram muito pobres e alugavam os caixões. Então chegavam na frente da cova e o corpo era tirado do caixão. É terrível e, ao mesmo tempo, muito bonito. Quando você é uma criancinha, é difícil de entender. Mas eu lembro que o Tião sempre encontrou as palavras para contar essas coisas. Tive sempre a consciência de que o mundo era um lugar onde podiam acontecer coisas bastante injustas, mas que o Tião tinha o papel de informar essas coisas. E de tentar, de uma forma ou outra, participar de uma mudança.

Quando você passou a acompanhá-lo nas viagens?
Na minha adolescência, a gente era um pouquinho distante, e minha mãe insistiu para que o meu pai me levasse com ele. Com 14 anos, ele me trouxe para uma reportagem debaixo do túnel que estavam construindo entre a França e a Inglaterra. Era uma viagem muito incrível. Parecia que você estava num set de filmagem de Guerra nas estrelas. No ano seguinte, à Índia. Uma viagem louca para o local de construção do canal do Rajastão. É um canal imenso que vai irrigando o deserto. Do alto, você tem a impressão de ver uma veia azul, escura, abrindo em veias menores capilares, que estão irrigando esse deserto, com coisas verdes crescendo em volta. É muito lindo. No ano seguinte, Ruanda. Foram viagens incríveis, aventureiras, superinteressantes. Eu vi como ele se relacionava com as pessoas e aprendi muito. Depois, quando comecei a trabalhar como documentarista, eu já sabia como viajar.

Juliano Salgado ""O Tião é um cara muito carismático. Ele tem uma capacidade de abstração muito grande. Então, quando conta as histórias ele se projeta, viaja, lembra das coisas. Eu cresci assim.""

Como foi viver essa relação a partir do seu filme?Quando comecei a filmar, eu tinha 35 anos. Já fazia 20 que a gente tinha viajado juntos pela última vez. Havia bastante distância entre mim e o Tião. E foi uma oportunidade da gente se aproximar. Eu não achava que ia acontecer. Só que aconteceu, meio que por acaso. Fomos fazer uma reportagem no território dos índios Zo’é, no Pará, que vivem de forma preservada e isolada pela Funai. Eu não queria ir, porque tinha medo da gente brigar. Mas ele insistiu muito, ia ser uma coisa interessante, eu fui. E levei uma câmera, porque é o que eu faço há um tempão. E filmei o Tião trabalhando no Gênesis, que era para ser o último grande projeto dele. Voltando a Paris, editei essas imagens. E aí aconteceu uma coisa muito legal, muito importante pra gente. Quando ele viu as imagens, ele se viu através do meu próprio olhar. Porque é isso, quando você filma alguém, você está revelando muito do seu olhar, das suas emoções. E ele se emocionou muito de ver como o filho dele olhava para ele. Então rolou um momento muito intenso entre a gente. Mesmo sem uma comunicação muito grande, deu para ver que alguma coisa estava mudando. E eu resolvi continuar a viajar com ele, para ver se isso continuava acontecendo. Vi que o importante não eram as viagens, nem as fotografias, mas as histórias que ele vinha contando desde sempre, essa experiência muito rara, única, da humanidade.

E como o Wim Wenders entrou no projeto?
Eu precisava trazer outra pessoa para entrevistar. O Wim queria fazer alguma coisa com o Tião, mas não sabia o que nem como. Ter o Tião contando essas histórias para uma outra pessoa me deu a distância suficiente para escutar de um jeito diferente. Ver o Tião através do olhar do Wim foi uma revelação. E isso sarou a nossa relação


Como foi sua decisão de trabalhar com o audiovisual, com a imagem em movimento?
Meu filho nasceu quando eu tinha 22 anos, e eu tinha de encontrar um trabalho. Na época, eu estudava Direito e Economia, e era muito envolvido com política estudantil. Mas eu me imaginava muito mal nessas vidas que estava preparando para mim. E havia essa vida do Tião, uma vida de aventura, de estar em contato com pessoas de fora, de crescer no contato com essas relações, além de ter um papel muito político, de estar na mediação entre eventos importantes e o público. Isso me motivou para começar. Como a estrutura em torno do Tião era muito grande, eu me senti mais seguro na imagem em movimento.

Como foi a construção da sua linguagem dentro do audiovisual? O que move suas decisões do que e como filmar?
Eu gosto da subjetividade. O mais importante no cinema é a capacidade de fazer as pessoas se projetarem dentro de um personagem de ficção que está na tela . Pode até ser um cara que existe em outro lugar, mas o que está na tela não é a pessoa: é uma projeção da pessoa, uma ficção. Dentro dessa coisa que não existe, tem essa projeção de emoções, essa subjetividade. Conseguir isso é muito difícil. E a linguagem do cinema é o que tem de mais poderoso nessas expressões. Tem muita gente que não tenta ser subjetivo, que fica de fora, que tenta ser uma terceira pessoa. Eu acho que é um erro. Você perde o que o cinema tem de mais poderoso.

Como a sua linguagem, no cinema, se aproxima e se distancia da do seu pai, na fotografia?
São linguagens muito diferentes, na verdade. São imagens. Mas pelo fato da imagem no cinema ser em movimento, você não associa com símbolos. O tempo da imagem é diferente. Você tem de segurar a sua câmera por muito tempo para ter um plano. Então isso já modifica muito o que está acontecendo. A fotografia é uma coisa muito instantânea. As pessoas não têm tempo de entrar no controle da imagem delas. No cinema, você não está expondo símbolos, você está expondo subjetividade.

Sebastião Salgado  
"Porque é isso, quando você filma alguém, você está revelando muito do seu olhar, das suas emoções. E ele se emocionou muito de ver como o filho dele olhava para ele."


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