Tecnologia transformadora | Revista Fleury Ed. 35

O historiador Leandro Karnal reflete sobre o impacto da tecnologia na sociedade.


O historiador Leandro Karnal reflete sobre o impacto da tecnologia na sociedade. Embora reconheça que, hoje, seja inútil tentar impor limites ao empoderamento da máquina sobre o homem, ele acredita que as gerações passadas, que não tiveram acesso a nada disso, não são melhores ou piores do que a gente.

“The world is a fine place and worth fighting for and I hate very much to leave it” (“O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo”, em tradução livre). A frase, contida no livro Por quem os sinos dobram, obra clássica de Ernest Hemingway publicada em 1940, ilustra o otimismo intrínseco da natureza humana, mesmo diante dos mais difíceis obstáculos. Ser inovador, o homem vive a busca constante pela elevação da espécie, mesmo que muitas vezes os caminhos escolhidos sejam penosos e sacrificantes. Inegavelmente, foi o investimento em inovação e tecnologia que nos permitiu diferenciar-nos, chegar até aqui. Possibilitou-nos ainda perseverar na procura por esse mundo ideal, a despeito das inúmeras escorregadas rumo a esse futuro melhor.

Hoje, a tecnologia está em todo o lugar. Em casa, na escola, no trabalho, nas ruas, no transporte público, na palma da mão. Nunca na história o conteúdo esteve tão farto, perto e acessível. Nunca os deslocamentos foram tão velozes e eficientes.

Tecnologia Transformadora

“O mundo sem máquinas não foi menos ou mais feliz do que o atual. Era apenas um lugar com outra visão de tempo e eficácia”

Nunca as transformações ocorreram de modo tão rápido e muitas vezes de forma abrupta. Nesse contexto, é tentador para esse homem tecnológico se achar mais poderoso e apto para tomar suas próprias decisões – e com assertividade e eficácia jamais vistas, é bom ressaltar.
Há quem defenda, contudo, que esse empoderamento das máquinas sobre os homens redunda também em consequências nefastas. Teria, afinal, a humanidade se tornado refém de todas essas facilidades que as máquinas nos trazem? Seria o futuro mais sombrio por conta disso? Viveremos em um mundo no qual as pessoas serão cada vez mais solitárias, mais centradas em si mesmas, repartindo suas individualidades somente por meio de seus gadgets e devices?

“O mundo sem máquinas não foi menos ou mais feliz do que o atual. Era apenas um lugar com outra visão de tempo e eficácia”, acredita o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Karnal, que destaca a estonteante velocidade que a tecnologia proporciona às nossas vidas. “Agora, temos mais tempo para outras coisas, há mais ócio. Diferentemente do flâneur de Charles Baudelaire, que andava pela Paris do século 19 sem ter o que fazer, apenas admirando o mundo, hoje as pessoas encontram no celular um parceiro ideal para preencher o tempo, para não enfrentar o silêncio dentro de um táxi ou a conversa chata da tia na mesa de jantar”, diz.

Futuro melhor?

Como qualquer historiador, Karnal resiste em usar o termo futurismo. No entanto, ele gosta de se referir ao passado – sua especialidade – para mostrar como o presente e muito provavelmente o futuro estão sendo impactados pela tecnologia. Ao mesmo tempo, também insiste em condenar o pessimismo reinante entre nós quando discutimos a presença das máquinas em nossas vidas, embora o compreenda por conta do momento atual de nossa sociedade, afligida por conflitos entre nações, crises política, econômica e social, além de problemas climáticos, entre tantos outros incômodos.

“Vejo nosso futuro muito mais utópico do que distópico. Nunca escrevemos tanto, a informação agora está a nosso dispor. Em nenhuma época a fome foi tão pequena, ainda que persista. Não obstante a tudo isso, somos uma das gerações mais pessimistas da história”, comenta o professor da Unicamp. “No Renascimento, quando o analfabetismo e a violência eram assustadores, projetava-se um futuro melhor para a humanidade. Na verdade, em qualquer período há razões para otimismo e pessimismo, mas a segunda opção é atualmente muito mais atraente”, acrescenta.

Karnal acredita que esse sentimento também se reflete na maneira de se pensar a relação entre a humanidade e a tecnologia. Indo além, ele diz que nós sempre tendemos a encarar os avanços tecnológicos com certa desconfiança. “Quando a caneta esferográfica chegou ao Brasil, os bancos proibiram seu uso nos cheques. A Síndrome de Frankenstein é tentadora para nós, é algo frequente em nosso imaginário, principalmente para quem não gosta de ver a tecnologia avançando na sociedade. Na ficção, muitas vezes vemos as máquinas reproduzindo o que há de pior na humanidade, e isso não é verdade.”

Para ele, vivemos um caminho sem volta, ainda que reconheça que há riscos na utilização desenfreada da tecnologia. “Hoje, por exemplo, não há o que se fazer em um escritório sem Internet”, comenta Karnal, destacando que, à medida que entregamos nossa vida às máquinas, maior fica nossa dependência. “Quanto mais açúcar você usa, mais você precisa. Com a tecnologia é a mesma coisa. Essa subordinação tende a nos infantilizar. É importante notar, entretanto, que não há nenhuma relação com uma possível perda de inteligência. São coisas muito diferentes”, completa.

Então, afinal, é possível estabelecer limites dentro dessa relação homem-máquina? Para o historiador, deveria haver uma fronteira, mas se trata de algo completamente inútil. “Hoje, é difícil para as pessoas imaginarem encontrar um endereço em São Paulo sem o aplicativo Waze. De certa forma, acabamos por perder um pouco de nossa autonomia, mas a tecnologia é vital em nossas vidas”, comenta.

Papel da educação
De acordo com Karnal, só o uso consciente pode dar fim a essa dicotomia. Para ele, ainda não sabemos utilizar o tempo que nos sobra a partir da eficácia das máquinas. “Hoje, em geral, consumimos ainda mais tecnologia”, diz sarcasticamente. “De certa forma, a grande função da tecnologia é ocupar um vazio. Devemos aprender a dar uma finalidade melhor ao vazio que ela também nos oferece”, complementa.

De uma coisa Karnal não tem dúvida: há muitos campos e caminhos a serem explorados. “Com essa abundância de dados disponíveis por aí, há muitas possibilidades. A questão é que muitas pessoas confundem informação com conhecimento, e esse é um problema grave”, acredita. “Com Internet ou não, ainda precisaremos de anos e anos para formar um médico ou um arquiteto. Não tem jeito”, destaca.

Na sua avaliação, há um desafio educativo gigantesco pela frente. As escolas do passado ensinavam, basicamente, a ler e a reter dados. “Hoje, a preocupação deve ser com o processo de validação dessas informações, uma vez que há muita coisa disponível na grande rede. Como eu a procuro, de que forma a utilizo? É aí que devem se concentrar os esforços. Só assim informação vira conhecimento de verdade”, crê.

Por fim, ele deixa uma mensagem: “acreditem, gerações passadas, que não tiveram essa tecnologia toda de que dispomos, não são melhores ou piores do que a gente”.

Leandro Karnal é historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador da história das religiões, é também palestrante e pensador sobre questões da sociedade contemporânea.

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