Ter ou não ter? | Revista Fleury Ed. 35

Eis a questão que o consumo colaborativo começa a resolver ao incentivar as pessoas a trocar mais e comprar menos

Eis a questão que o consumo colaborativo começa a resolver ao incentivar as pessoas a trocar mais e comprar menos

Quem não tem em casa algumas coisas encostadas, como um brinquedo da época em que o filho era pequeno ou uma barraca de acampamento de verões passados? Ou quem não emprestaria, sem problemas, uma furadeira a um vizinho? A soma dessas duas variáveis está impulsionando um novo movimento na economia: o consumo colaborativo, no qual as pessoas preferem trocar entre si seus itens ociosos em vez de comprar algo que vão usar apenas uma ou duas vezes.

Esse não é um comportamento exatamente novo. Já estamos acostumados à lógica de emprestar ou doar objetos a parentes ou amigos que estejam precisando deles. A diferença é que agora a tecnologia permite que essas trocas sejam feitas em uma rede digital de escala muito maior, aponta a inglesa Rachel Botsman, pensadora pioneira do consumo colaborativo e autora do livro “What’s Mine is Yours: How Collaborative Consumption is Changing The Way We Live” (“O Que é Meu é Seu: Como o Consumo Colaborativo Está Mudando Seu Modo de Vida”). Basta entrar em um site e aquela furadeira ociosa vai parar nas mãos de um vizinho de bairro (ou até daqueles que moram em outro canto da cidade).

Botsman costuma definir essa nova lógica de consumo de uma maneira bem simples. Quando vamos instalar uma estante em casa, precisamos de um furo ou de uma furadeira? Essa reflexão leva muita gente a pensar duas vezes antes de ir à loja; pode ser mais vantajoso passar um tempo com a ferramenta e depois devolvê-la ao dono. “Estamos em uma fase de transição de um modelo baseado no ‘ter’ para outro em que o mais importante é o ‘usufruir’.
A nova geração não acha que dinheiro é sinônimo de sucesso, por isso vê menos valor em possuir algo. Sua mentalidade funciona em rede, em colaboração”, afirma Sabina Deweik, pesquisadora de comportamento e tendências e fundadora da consultoria brasileira Sabina Deweik Think Forward.

Esta é a premissa da economia compartilhada: pessoas colocando à disposição tudo o que têm e não usam. Empresas como o Airbnb (locação de casas e quartos ociosos) estão fazendo muito sucesso porque viram uma fonte de renda para quem tem um quarto vazio em casa, gerando também economia para quem usufrui dele. Em 2013, negócios como esse, baseados no compartilhamento, faturaram  US$ 15 bilhões  no mundo, uma cifra que deve crescer rapidamente e chegar a US$ 335 bilhões em 2025, segundo a consultoria PwC.

Mas também há casos em que as pessoas formam redes solidárias para realizar essas trocas de graça. O site brasileiro Caronetas, por exemplo, conecta funcionários das empresas (ou pessoas ligadas a uma rede social) para que uns ofereçam caronas gratuitas aos outros. Outra iniciativa com esse princípio é a startup Tem Açúcar?, criada pela carioca Camila Moraes, que incentiva o empréstimo ou a doação de itens corriqueiros aos vizinhos. Seus usuários se cadastram na plataforma, listam o que podem emprestar (ou doar) e definem a área em que podem interagir. Quando alguém precisa de uma escada, por exemplo, faz o pedido no site e os vizinhos que a possuem saem em seu auxílio, sem cobrar nada. Lá fora, outros sites, como o Peerby e o NeighborGoods, também permitem compartilhar coisas com os vizinhos, sem custo. “O Tem Açúcar? ilustra o estágio em que está o consumo colaborativo no Brasil. Estamos deixando de pensar que a colaboração é uma moda e passando a absorvê-la como um modo de fazer as coisas, de comprar, vender ou criar”, aponta Luciana Stein, pesquisadora de tendências da consultoria TrendWatching para a América Latina.

E há até quem use o poder da rede para trocar experiências. Na rede Bliive, os usuários usam suas habilidades como moeda de troca pelos serviços que os interessam. Quem entra na plataforma, que é brasileira, pode dar uma hora de aula de guitarra e receber um crédito para ter outra experiência de uma hora – como pedir a alguém para passear com seu cachorro.


Esta é a premissa da economia compartilhada: pessoas colocando à disposição tudo o que têm e não usam


“A confiança é o combustível que alimenta a colaboração, e ela parece estar aumentando na web”
Luciana Stein, pesquisadora de tendências
da consultoria TrendWatching para a América Latina

Esses casos ilustram que, na ausência do dinheiro, a moeda desse novo mercado é a confiança, como prega Botsman. “A confiança é o combustível que alimenta a colaboração, e ela parece estar aumentando na web”, concorda Stein. O aspecto revolucionário do consumo colaborativo é que as relações deixam de ser construídas entre empresas e pessoas e passam a ser tecidas entre pessoas que não se conhecem. Daí a importância das avaliações de quem participa de cada rede, para atestar se um usuário cumpre o que promete, se é uma pessoa bacana e se oferece bons itens ou serviços. A reputação online passa a ser tão importante que já existem serviços, como o TrustCloud, que permitem usar as boas avaliações como credenciais em qualquer plataforma.

Apesar de estar engatinhando no Brasil, esse movimento já despontou há algum tempo na Europa e nos Estados Unidos. Lá, esse questionamento sobre a necessidade de comprar coisas que só serão usadas uma ou duas vezes começou a emergir no início dos anos 2000. “Os atentados de 11 de Setembro causaram um impacto global. As pessoas começaram a sentir que o modelo aspiracional do ‘ter’, de acumular dinheiro, de competir estava falido. Por isso começaram a questionar a forma de se relacionar com os outros”, explica a consultora. Ela diz que é nesse momento que as pessoas passam a pensar em colaboração e a se perguntar sobre como podem contribuir com o coletivo.

Alguns anos mais tarde, quando a desaceleração econômica começou a atingir a Europa, a ideia da economia compartilhada começou a ganhar força. O aumento do desemprego e a queda da renda das famílias impulsionaram os jovens europeus a usar a criatividade para reativar o mercado de troca de produtos. As iniciativas, que começaram tímidas, hoje já atraem o interesse dos investidores. “A economia compartilhada foi influenciada pelo desejo do consumidor de ser sustentável e por seu senso de aventura. Entender seu impacto é de extrema importância, porque ela vai mudar completamente o comércio, atualmente moldado por negócios já estabelecidos”, afirmam os pesquisadores Michael J. Olsen e Samuel J. Kemp em um relatório publicado em 2015 pelo fundo de investimentos Piper Jaffray.

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