Um piano na estrada | Revista Fleury Ed. 29

O pianista Arthur Moreira Lima percorre estradas brasileiras para compartilhar música com os moradores de locais isolados e de baixa renda.

O pianista Arthur Moreira Lima percorre estradas brasileiras para compartilhar música com os moradores de locais isolados e de baixa renda.
Por: Ana Karla Rodrigues

A música faz parte da vida de Arthur Moreira Lima desde os primeiros momentos de sua infância, passada na capital fluminense. Aluno da professora Lúcia Branco – que seria sua mestra por 14 anos – já aos nove encantou a todos com seu primeiro concerto profissional, no Teatro da Paz, em Belém (PA). Ao longo de mais de 50 anos de carreira em palcos brasileiros e outros espalhados por todos os continentes, o pianista nutriu uma grande paixão pela cultura brasileira. Heitor Villa Lobos e Ernesto Nazareth estavam tão presentes em seus recitais quanto Frederic Chopin – de quem foi considerado um dos maiores intérpretes no mundo – e Johann Sebastian Bach. Foi esse sentimento intenso e a vontade de compartilhar seu amor pelas melodias que o levou a criar o projeto “Um Piano pela Estrada”, em 2003.
Os primeiros lampejos para esta criação surgiram quando Moreira Lima foi subsecretário de Estado da Cultura do Rio de Janeiro, entre 1991 e 1995, durante a gestão de Leonel Brizola. Na época, o músico foi responsável pela organização de mais de uma centena de espetáculos, levando música instrumental, clássica e artistas populares a várias cidades do interior e litoral fluminense.

A responsabilidade da secretaria era buscar patrocínio, enquanto as cidades deveriam entrar com a infraestrutura. Era preciso montar um palco, tocar e desmontar tudo ao fim, num processo que, além de custoso, era extremamente trabalhoso. “As dificuldades de produção me levaram a pensar em agilizar o processo e levar, além do piano, o próprio teatro. Ou seja, um caminhão que se transformasse em palco”, relembra.

Depois de um tempo, Moreira Lima começou a trabalhar para colocar sua ideia em prática. A primeira coisa a se fazer era encontrar o caminhão certo para abrigar um concerto. Em 2001, ele escolheu um Scania, que teve seu chassi alongado, ganhando um terceiro eixo para poder distribuir melhor o peso e ganhar maior estabilidade. Seu baú foi especialmente desenvolvido para acomodar o concerto todo – incluindo dois pianos de cauda Steinway & Sons – e toda a estrutura de palco e camarim.

Outra necessidade levantada pelo pianista foi a de completar a caravana com um segundo veículo, que abriga equipamentos de luz, som e vídeo. Uma equipe de 17 profissionais, que inclui afinador e engenheiro de som exclusivos, foi formada para garantir a qualidade da sonoridade dos instrumentos, tendo em vista as condições das estradas e a fragilidade dos pianos. Esta é uma das marcas do trabalho de Moreira Lima neste projeto: o extremo cuidado com todos os detalhes.

Obstáculos que valorizam a jornada
Criado o veículo e as condições ideais para a empreitada, a partir de 2003 o audacioso projeto começou a percorrer o país, levando a música clássica e popular a lugares onde a população não tinha acesso à cultura, nem tampouco às composições que não eram tocadas nas FM´s locais. A primeira etapa do projeto foi “São Francisco – Um Rio de Música”, que aconteceu na região do Vale do Rio São Francisco, entre Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, uma das regiões mais carentes do Brasil.

A receptividade da população não poderia ter sido mais empolgante, como recorda o pianista. “As pessoas são musicais, gostam do que assistem e ouvem respeitosamente. Sinto claramente a admiração e o agradecimento do público por terem acesso a um espetáculo sofisticado e diferente, ao qual não teriam a oportunidade de assistir a não ser da maneira como temos feito.”

Os concertos de “Um Piano pela Estrada” duram cerca de 1h30 e o repertório inclui peças de Beethoven, Bach, Chopin, Lizt, Astor Piazzolla, Villa Lobos e Ernesto Nazareth, entre outros compositores. A seleção cuidadosamente feita por Arthur, a partir de obras de grande qualidade e fácil acesso, foi pensada para aproximar o público deste rico universo de ritmos e timbres. Entre uma música e outra, o pianista interage com a plateia, contando particularidades e curiosidades sobre cada uma das obras.

Depois da primeira etapa do projeto vieram mais cinco: “De Xapuri ao Chuí, nos caminhos da fronteira” (entre 2005 e 2006), “Nos caminhos de JK” (2007), “Brasil Sertões” (2008), “Nos caminhos da imigração” (2010), “Brasil Sertões 2” (2011) e, em 2013, “Um piano pelas Águas Amazônicas”. Além da curiosidade e do encanto nos olhos do público, a equipe do projeto também encontrou alguns desafios no deslocamento e acesso, como atolamentos, chuvas torrenciais, estradas esburacadas e imprevistos nos locais de apresentação. “Nós conhecemos a realidade dos lugares. Conhecemos as pessoas de perto, o quanto são hospitaleiras, seus sonhos e suas esperanças”, reflete Arthur. “Tenho a experiência de três mil concertos pelo mundo, de cidades importantes a cidades pequenas. Mas tocar para um público tão diverso, gratuitamente e em municípios nos quais dificilmente a música erudita chegaria é uma grande experiência. É sensacional contar com uma plateia que vai desde o lavrador a autoridades da cidade.”

Nenhum destes acontecimentos, porém, foi capaz de roubar do músico a empolgação pela estrada e pelas pessoas que vem encontrando ao longo dela. Ele conta que numa cidade pobre, o prefeito foi lhe cumprimentar após um dos concertos. “O chefe da cidade, homem rude, humilde, mãos calejadas, porte de uma dignidade ímpar, disse-me: ‘Eu quis muito que seu espetáculo viesse à minha cidade. Sou pouco letrado, mas sabia que o que senhor está fazendo é muito importante. Só não sabia que era tão bonito!’”, emociona-se.

Em 11 anos de duração, “Um Piano pela Estrada” já rodou mais de 120 mil quilômetros e 24 estados, aproximando a cultura de cerca de meio milhão de pessoas, em 400 concertos. Neste ano o piano de Arthur aguarda por novos públicos e novas paisagens.

Satisfeito com as conquistas, o músico não esconde seu orgulho por poder dividir com o povo brasileiro a arte a que ele, esforçada e apaixonadamente, se dedicou ao longo de toda uma vida. “É uma realização pessoal muito grande. O Brasil é extremamente valioso, com um patrimônio enorme, com pessoas boas, hospitaleiras e extremamente calorosas. Muitos falam que estou dando um presente, mas, na verdade, eu é que estou recebendo. Conhecer o país todo e o seu povo é um verdadeiro presente. Por isso tudo esse projeto vale muito a pena”.

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