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Uma vida em Movimento | Revista Fleury Ed. 26

A vida é movimento e transformação. Somos corresponsáveis pelas nossas escolhas e decisões. Muitas pessoas não sabem disso e se consideram à mercê da vida, do destino. Quando percebemos que estamos tecendo nossa vida, há uma grande e definitiva mudança

“A vida é movimento e transformação. Somos corresponsáveis pelas nossas escolhas e decisões. Muitas pessoas não sabem disso e se consideram à mercê da vida, do destino. Quando percebemos que estamos tecendo nossa vida, há uma grande e definitiva mudança“



“Cada passo, apenas um novo passo. Nunca senti que estivesse dando saltos ou pulando degraus. As mudanças surgiam naturalmente, sem grande esforço”


A trajetória da Monja Coen está longe de ser estática

Conhecida hoje por praticar e divulgar o zen-budismo, Monja Coen já teve longos cabelos, foi jornalista e até trabalhou em banco. Mudou de cidade algumas vezes, casou e se separou, teve uma filha. Foram várias mudanças em sua vida até embarcar em uma viagem radical. Tinha quase 30 anos quando começou a fazer meditação. A prática, aparentemente contemplativa e estática, gerou tamanha identificação que a moveu para o Japão, em 1983, onde ingressou no Mosteiro Feminino de Nagoya e foi nomeada Monja Missionária da Tradição Soto Zenshu para a América do Sul. Com a mudança de vida, deixou também para trás o nome Cláudia Dias Baptista de Souza e adotou o nome Coen. De volta ao Brasil, em 1995, provocou diversas mudanças locais, como a abertura dos portais do templo Busshinji, no bairro da Liberdade, em São Paulo, para pessoas de origem não japonesa, e a eleição de mulheres nas assembleias gerais da comunidade. Foi eleita, na época, Presidente da Federação Budista do Brasil. Hoje, Monja Coen é Primaz Fundadora da Comunidade Budista Zen do Brasil. A seguir, ela conta como aconteceram os movimentos fundamentais em sua vida e transmite a visão budista sobre toda essa transformação.
Foram quase 20 anos de questionamentos e dúvidas que, com a prática Zen, se transformaram. Por volta dos 13 anos, comecei a questionar a tradição religiosa de minha família e de meus professores. Nos anseios naturais da juventude, queria que os adultos fossem coerentes com os princípios religiosos que pregavam. Mas havia uma brecha, uma lacuna. Era como se não fossem capazes de vivenciar o que pregavam ou diziam seguir. Minhas primeiras questões nessa época eram: o que é Deus? Por que nascemos? O que é a morte? Qual o sentido da vida? As questões eram fortes e incessantes. Não participei mais de atividades religiosas e me tornei ateia. Anos mais tarde, fui conhecer o Zen Center de Los Angeles, cidade onde então eu trabalhava e residia. Foi como chegar em casa. A maneira da prática meditativa - chamada Zazen – tinha tudo a ver com o que eu sentia. Tudo era familiar: o cheiro do incenso, os procedimentos, a postura. Em pouco tempo, pedi minha ordenação monástica. O abade, um mestre de origem japonesa, me fez esperar três anos. Finalmente, recebi os Preceitos Monásticos – o sentido de minha vida. Fui para o Japão e ingressei no Mosteiro Feminino de Nagoya, onde fiquei por oito anos. Fui nomeada monja e retornei ao Brasil.

A vida é movimento e transformação. Somos corresponsáveis pelas nossas escolhas e decisões. Muitas pessoas não sabem disso e se consideram à mercê da vida, do destino. Quando percebemos que estamos tecendo nossa vida, há uma grande e definitiva mudança. Nos tornamos coautores da nossa história. Tudo que já nos aconteceu faz parte da tapeçaria da vida. Aceitação e compreensão de nosso passado são importantes para apreciarmos o presente. Casei com 14 anos de idade, querendo autonomia de minha família, tive uma filha, meu marido me abandonou, voltei a morar com minha mãe. Cuidei durante dois anos e meio da minha menina, sem sair de casa, lavando fraldas e cueiros, passando e sendo muito, muito feliz. Meu pai, preocupado, intimou que eu fosse ou estudar ou trabalhar. Fiz supletivo, entrei na Faculdade de Direito. Também comecei a trabalhar no Jornal da Tarde. A vida profissional de jornalista era muito mais instigante que os estudos acadêmicos. Abandonei a faculdade e me tornei jornalista profissional. Foi intenso e transformador.

Vivi a época do final da guerra do Vietnã, dos monges se imolando em praça pública. Como era possível ficar sentado em meditação enquanto seu corpo ardia em chamas? Os Beatles meditavam. Outros músicos, poetas, escritores, filósofos meditavam. O que seria a meditação? Responderia meus anseios e dúvidas?

Fui morar em Londres, onde me sentia livre. Andava nas ruas sem que ninguém soubesse quem eu era, minha filiação, minha origem. Era muito agradável. Passei a me vestir de forma excêntrica. Concordava com a atitude de fazer amor e não fazer a guerra. Deixei de pentear os cabelos longos, usava as mesmas calças jeans até que rasgassem e ficassem quase brancas de tanto uso. Não era consumista. Era socialmente engajada em pensamentos de mudanças que pudessem equilibrar a sociedade, onde houvesse menos desperdício de um lado e menos fome de outro.

Mas eu havia ido sem minha filha. Quando voltei ao Brasil não queria mais me separar dela e passei a dar aulas de inglês para me manter. Meus primos eram Os Mutantes [os músicos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias]. Depois de anos, reencontrei-os e os segui em suas turnês pelo Brasil. Certa feita, fomos todos juntos assistir a um show de Alice Cooper e lá encontrei um companheiro. Era norte-americano, responsável pela iluminação do espetáculo. Fui para a Flórida e nos casamos. Ajudava-o nos palcos, nos grandes espetáculos de rock’n ’roll. Foi muito agradável. Tentamos voltar ao Brasil para viver com minha filha, mas ele não conseguiu sucesso profissionalmente e voltamos para os Estados Unidos, dessa vez para a Califórnia. Fui trabalhar no Banco do Brasil, como funcionária local. Iniciei minha prática zen, me divorciei e fui morar na comunidade.

Cada passo, apenas um novo passo. Nunca senti que estivesse dando saltos ou pulando degraus. As mudanças surgiam naturalmente, sem grande esforço. Tornar-me monja foi uma grande alegria e realização. Algumas pessoas se preocupam, me perguntam: “mas como foi para você cortar os cabelos?”. E eu digo que foi apenas cortar os cabelos. Nada mais. Simples. Assim como é, é. Outro dia, encontrei uma foto minha com 30 anos de idade. Naquela época, eu pesava 47 quilos, fazia três horas de balé clássico por dia, trabalhava no Banco do Brasil, tinha os cabelos longos, um cão dinamarquês e um marido norte-americano. Olhei a foto e fiquei com saudades dessa moça. Já não sou mais ela.

Como tudo que existe, estamos num processo incessante de transformação. Há nascimento, velhice, doença, morte. Há causas e condições. Há o estado de Nirvana, de paz, de tranquilidade, que surge da compreensão clara do sentido da vida. A morte não é uma inimiga. A doença pode ser uma aliada no processo de crescimento e amadurecimento. Tudo depende da maneira com a qual lidamos com nossa existência. Podemos acessar o ícone Buda e reler nossa história e a da humanidade com olhos de sabedoria, ou podemos fechar esse ícone, querer que não exista, e viver dramas, sofrimentos e angústias. Que todos os seres iluminados e benfazejos nos abençoem e protejam na construção de uma cultura de paz.

Monja Coen


Mudar por quê?

São vários os motivos que podem levar alguém a mudar radicalmente de vida. Para Sandra Betti, psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), raramente somos os agentes da transformação. “Isso exige capacidade de crítica e análise, intuição, coragem, autoconfiança e capacidade de enfrentar nossos medos, conflitos e ansiedades. O grau de insatisfação costuma estar elevado demais para que a pessoa decida ‘jogar tudo para o alto’ e correr atrás dos seus sonhos e ideais”, explica. Na maior parte dos casos, mudamos não por escolha, o que não necessariamente gera um cenário pior. “Quando somos atropelados pelas mudanças, acabamos obrigados a aceitá-las, exercitando competências como flexibilidade, resiliência, maturidade e equilíbrio emocional”, diz. Há, sim, aquelas pessoas que parecem movidas a mudanças. Nesse caso, a chave é o equilíbrio. “Uma vida estagnada pode significar que paramos de aprender, de evoluir e de crescer. Por outro lado, uma instabilidade excessiva pode sinalizar imaturidade emocional, pouca autodisciplina ou até mesmo excessiva dependência do meio ambiente, o que faz com que a pessoa se torne muito influenciável”, alerta. É preciso ter cuidado com os “sequestros emocionais” e tomar decisões racionais e ponderadas para evitar arrependimentos. “O ideal seria que, quando a vida nos desse limões, nós fizéssemos limonadas. Que reclamássemos menos e fizéssemos mais. Que aproveitássemos os períodos de crise para aprender e crescer”, aconselha. Sandra dá algumas dicas para exercitar a flexibilidade:

[]Aceite que as mudanças fazem parte da vida.
[]Tente aprender uma coisa diferente por dia.
[]Estimule sua curiosidade.
[]Experimente comidas exóticas, não repita os seus pedidos nos restaurantes.
[]Faça roteiros diferentes e reveja lugares conhecidos sob uma nova perspectiva.
[]Viaje o máximo possível, conheça diferentes culturas.
[]Tente ir sempre para um lugar novo.
[]Peça opiniões a quem convive com você.
[]Brinque de mímica, aprenda a dançar.
[]Faça teatro amador.


Filmes para inspirar mudanças *

Ponto de vista; Feitiço do tempo; Melhor impossível, O Náufrago; 7 anos no Tibet, Encontros & desencontros; Os outros; Chocolate; Sexto sentido; Alguém tem que ceder; Mrs. Doubtfire; Como se fosse a primeira vez; Dogville; Diários de motocicleta; Adeus Lenin; Cidade de Deus; O último samurai.

Sugestões da psicóloga Sandra Betti